A insegurança no trajeto entre a casa e a universidade está moldando o futuro acadêmico de milhares de estudantes no Brasil. O medo da violência, principalmente no período noturno, influencia desde a escolha do curso até a decisão de qual vestibular prestar, uma realidade que afeta diretamente o planejamento de carreira e a rotina de jovens e adultos.
Para muitos, a grade curricular ideal é trocada por uma opção que ofereça aulas exclusivamente durante o dia. Cursos noturnos, muitas vezes a única alternativa para quem trabalha, são descartados pelo receio de assaltos ou assédio no transporte público e nos arredores dos campi universitários, limitando o acesso à educação superior.
A localização da instituição de ensino tornou-se um fator decisivo. Candidatos pesquisam sobre os índices de criminalidade do bairro e a proximidade de pontos de ônibus ou estações de metrô bem iluminados antes mesmo de avaliarem a qualidade do corpo docente ou a nota do curso no Ministério da Educação.
Essa preocupação reflete uma realidade mais ampla. A pesquisa “Segurança das Mulheres: Percepção da Sociedade Brasileira sobre Violência”, divulgada em setembro de 2023 pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, revelou que 98% das brasileiras alteram sua rotina e suas escolhas para evitar situações de risco. Essa adaptação forçada se manifesta em diversos âmbitos da vida, incluindo as decisões que impactam a formação profissional.
As mudanças na prática
As estratégias para minimizar os riscos no dia a dia acadêmico são variadas e transformam completamente a experiência universitária. As principais adaptações incluem:
- Escolha do campus: preferência por unidades localizadas em áreas mais movimentadas ou com maior percepção de segurança, mesmo que a opção ideal em termos acadêmicos seja em outro local.
- Abandono de matérias: desistência de disciplinas ou atividades extracurriculares obrigatórias que acontecem à noite, o que pode atrasar a conclusão do curso.
- Gastos extras: aumento do uso de aplicativos de transporte para evitar a espera em pontos de ônibus escuros, impactando o orçamento mensal.
- Redes de apoio: formação de grupos para caminhar juntos até o transporte público e compartilhamento de localização em tempo real com amigos e familiares.
Embora não existam dados específicos sobre o impacto dessa realidade no ambiente universitário, os relatos de estudantes indicam que ela impõe uma barreira silenciosa ao desenvolvimento educacional. A troca de um campus renomado por um que pareça mais seguro ou a recusa de uma bolsa de estudos por causa do horário das aulas são decisões que restringem oportunidades e podem definir o futuro profissional com base no medo, e não no mérito ou na vocação.










