Esta semana, a notícia de que o adolescente Derek Parker Aghnaanga, de 15 anos, foi resgatado com vida após passar aproximadamente 62 horas (três dias) à deriva no Mar de Bering, próximo à Ilha de São Lourenço, levanta uma questão fundamental: como o corpo humano consegue suportar condições tão extremas? A sobrevivência em águas geladas, com temperatura em torno de 10°C, está diretamente relacionada ao risco de hipotermia e desafia a biologia, dependendo de uma combinação de reações fisiológicas e fatores externos.
O resgate de Derek pela Guarda Costeira dos EUA foi um desfecho notável para uma tragédia que vitimou seu irmão mais velho e seu primo no mesmo acidente. Ao cair na água, o primeiro impacto é o choque térmico: uma inspiração involuntária e profunda que pode levar ao afogamento. A frequência cardíaca e a pressão arterial disparam, colocando o sistema cardiovascular sob estresse. Superada essa fase, que dura poucos minutos, o principal inimigo se torna a hipotermia.
Para proteger os órgãos vitais, como coração e cérebro, o organismo restringe o fluxo de sangue para as extremidades. Mãos, pés, braços e pernas ficam dormentes e perdem a funcionalidade. Esse mecanismo de defesa, chamado vasoconstrição, ajuda a conservar o calor no núcleo corporal, mas é uma solução temporária. Sem uma fonte de calor externa, a temperatura interna começa a cair progressivamente.
Como a sobrevivência é possível mesmo com hipotermia?
No caso de Derek, o fator determinante foi permanecer fora da água. Ele foi encontrado pela Guarda Costeira ajoelhado sobre o casco do barco virado. A perda de calor corporal é até 25 vezes mais rápida na água do que no ar em temperaturas idênticas. Estar fora do contato direto com a água aumenta drasticamente o tempo de sobrevivência.
As roupas, mesmo molhadas, também oferecem uma camada de isolamento, retardando a perda de calor. Outros elementos que influenciam a resistência são a constituição física da pessoa, como o percentual de gordura corporal, e o estado mental. Manter a calma e a vontade de viver pode fazer a diferença entre ceder ao frio ou lutar por mais tempo.
O processo de hipotermia avança em estágios. Inicialmente, surgem tremores incontroláveis, uma tentativa do corpo de gerar calor. Com a queda da temperatura, os tremores cessam e a pessoa entra em um estado de confusão mental, apatia e sonolência, podendo levar à perda de consciência e, finalmente, à parada cardíaca.
O socorro imediato é tão crucial quanto a resistência da vítima. O processo de reaquecimento deve ser gradual e cuidadoso, pois um aumento súbito da temperatura pode causar um colapso circulatório fatal, conhecido como choque de reaquecimento. Por isso, o atendimento médico especializado é essencial para garantir que a vítima não apenas sobreviva ao frio, mas também às complicações do resgate.










