No Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira (29/1), o enfoque vai além da celebração, revisando criticamente como a sociedade brasileira enxergou, nomeou e regulou as existências trans ao longo do tempo.
Olhar para trás, especialmente por meio do registro jornalístico, é entender que cada conquista foi precedida por exposição, disputa e resistência cotidiana. As páginas do Correio Braziliense, ao longo de décadas, funcionam como um arquivo dessa transformação.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Em meio a um baile de carnaval esvaziado no ano de 1998, um grupo de travestis circulava com leveza entre risos, olhares curiosos e comentários atravessados. Enquanto outros foliões reclamavam da falta de animação, elas pareciam as menos incomodadas. “Somos todas bonecas”, explicou Sabrina, apontada como uma espécie de líder do grupo. A noite, dizia Bruna, era “um luxo”, mesmo diante da transparência que expunha mais do que o vestido rendado: expunha também a forma como aquelas existências eram vistas e tratadas.
O registro, publicado décadas atrás no Correio, diz muito mais do que aparenta. As travestis aparecem como personagens pitorescas, quase folclóricas, observadas de fora, sem mediação política ou reconhecimento social. O conflito central está no direito de existir nos espaços comuns. “Não podemos entrar no toalete feminino porque os seguranças não deixam. No masculino são os homens que não querem que a gente entre desse jeito”, relatou Sabrina. O impasse do banheiro dialoga com demandas que a comunidade trans enfrenta até os dias atuais.
Antes mesmo desse registro dos anos 1990, a imprensa já lidava com expressões de gênero dissidentes de forma fragmentada e funcional. Nos anos 1960, especialmente em 1961, vestir-se com roupas associadas ao gênero oposto surgia no noticiário como curiosidade ou solução pragmática.
Um exemplo é o relato de um modelo norte-americano que passou a desfilar como “travesti” por não ter recursos para contratar modelos femininas. A cobertura descrevia sua “metamorfose” como um “sucesso absoluto”, destacando maquiagem estudada, performance e impacto estético. A identidade, nesse contexto, não era discutida como direito ou subjetividade, mas como recurso profissional e espetáculo visual.
Nos anos seguintes, a abordagem começa a mudar. Matérias sobre concursos como o Miss Mundo Transexual, no Canadá (2002), já deslocam o olhar do deboche para a identidade, ainda que com ressalvas e enquadramentos médicos ou morais. O corpo trans deixa de ser apenas curiosidade social e passa a ser tema de debate público, mesmo quando atravessado por controvérsias.
Essa transição acompanha um movimento mais amplo do jornalismo brasileiro, que passa a tratar a transexualidade como “drama”, especialmente a partir dos anos 1980. O vocabulário da época revela muito: reportagens falavam reiteradamente no “drama dos transexuais”, enquadrando a experiência trans como sofrimento a ser corrigido.
O discurso médico ganha centralidade, e a patologização passa a organizar a narrativa. Laudos médico-psiquiátricos aparecem como condição indispensável para qualquer reconhecimento institucional, reforçando a ideia de que a identidade de gênero precisava ser validada por uma autoridade externa.
É nesse contexto que surge o mais importante marco legislativo documentado no período: o projeto de lei do deputado federal Marcondes Gadelha (PDS-PB). A proposta buscava permitir que pessoas trans realizassem intervenções cirúrgicas para alteração de sexo e, como consequência, tivessem o direito de modificar nome e prenome no registro civil.
O projeto avançou significativamente: foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados e, posteriormente, pela CCJ do Senado, sob relatoria do senador Enéas Farias. Ainda assim, a lógica permanecia restritiva. A cirurgia e a mudança de documentos só poderiam ocorrer mediante apresentação de laudo médico-psiquiátrico, mantendo a identidade trans sob tutela clínica.
Apesar do avanço no Congresso, o projeto foi integralmente vetado pelo presidente João Figueiredo, em 1984. O veto representou um marco jurídico negativo, mas revelador. O governo classificou a proposta como “superficial”, alegando que ela não aprofundava as consequências sociais, psicológicas e jurídicas da medida. O Ministério da Justiça posicionou-se contra o projeto, influenciando diretamente a decisão presidencial.
Antes mesmo das tentativas legislativas, o temor jurídico já atravessava o campo médico. Realizar cirurgias de redesignação sexual era frequentemente interpretado como crime de lesão corporal, conforme o artigo 129 do Código Penal, por se tratar de uma intervenção considerada irreversível em um corpo biologicamente saudável. Sem respaldo legal, muitas pessoas recorriam à clandestinidade, expondo-se a riscos físicos e a uma profunda insegurança jurídica.
Casos emblemáticos ajudaram a tensionar esse cenário. O de Josiane ganhou repercussão nacional e impulsionou o debate sobre a chamada “identidade física”. A discussão ultrapassava a cirurgia: tratava-se de saber se o Estado reconheceria a identidade manifestada pelo indivíduo ou se permaneceria preso à biologia como única verdade possível. Josiane buscava o “direito de ser Maria”, de casar, de viver uma vida considerada “normal” dentro dos parâmetros sociais da época. Tentativas legislativas anteriores, como a de Clóvis Stenzel em 1973, já haviam fracassado, evidenciando a resistência histórica do sistema jurídico brasileiro.
Paralelamente, em contextos festivos e de entretenimento, a presença de travestis e drag queens aparecia de forma mais integrada à vida social. Concursos como “Miss Brasília” registravam a participação dessas figuras nas colunas sociais, misturando reconhecimento estético e tom de fofoca. No final dos anos 1990, o Carnaval voltaria a ser palco dessa visibilidade ambígua: celebração, espetáculo e exclusão coexistindo no mesmo espaço.
Décadas depois, a virada se consolida. A aprovação, por unanimidade, do projeto que autoriza a revisão sexual no registro civil de pessoas transexuais marca um ponto de ruptura na linha do tempo. Pela primeira vez, o foco não está no corpo a ser corrigido, mas no nome, no documento e na dignidade. O Correio registra a decisão como vitória histórica, celebrada por entidades e defendida no Congresso em 2018 como medida de direitos humanos.
Vista em retrospecto, a trajetória é clara. Da noite em que travestis precisavam negociar o uso de um banheiro, passando pela patologização e pelo controle médico, chega-se ao reconhecimento civil e à garantia legal. As páginas do Correio não apenas acompanharam essa transformação, mas ajudam a contar como o Brasil saiu da curiosidade constrangida para o direito reconhecido. Uma linha do tempo que revela, acima de tudo, que existir nunca foi simples, mas conquistar espaço sempre foi político.
Registros fornecidos pelo Centro de Documentação (Cedoc) do Correio Braziliense
Saiba Mais
-
Brasil Sikêra Jr é condenado por discurso homofóbico: "Raça desgraçada"
-
Brasil Jovens trans enfrentam mais exclusão em escolas, família e trabalho
-
Brasil Jogos de azar: Rogério Andrade e policiais aposentados são denunciados
-
Brasil Crianças no Maranhão estão sumidas há 25 dias
-
Brasil Quina, Lotofácil, Dupla-Sena, Super Sete, +Milionária e Lotomania: resultados desta quarta
-
Brasil Cannabis medicinal tem nova regra de uso
