O mais antigo bloco carnavalesco do país completou 107 anos, no sábado de carnaval, com um desfile que, mais uma vez, fez transbordar o Centro do Rio de Janeiro de gente vestida de branco com bolinhas pretas estampadas. Reconhecido, no ano passado, como patrimônio histórico, cultural e imaterial do estado do Rio, o Cordão da Bola Preta arrebatou os foliões ao som de marchinhas famosas de antigos carnavais, como é da tradição do bloco.
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Cariocas, turistas, famosos e anônimos — tudo junto e misturado — fizeram da Avenida Antônio Carlos um grande salão de baile, cujo sos dos primeiros clarins já se anunciavam no começo da manhã. E, mais uma vez, o Bola Preta mostrou por que mora no coração dos carnavalescos da cidade. Sob Sol forte e temperatura que passou dos 30º, o bloco arrastou uma multidão. Neste ano, a agremiação decidiu reforçar a mensagem de respeito às mulheres.
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"Não é só no carnaval, é na vida. O respeito que se aprende não pode ser desaprendido. Carnaval é um momento de liberdade, sim, a gente tem que quebrar um pouco os preconceitos, mas a gente não pode perder o respeito, principalmente com a mulher. Não é não!", disse Paolla Oliveira, a rainha do Cordão da Bola Preta.
A atriz foi uma das muitas personalidades a participar do desfile e uma das mais tietadas pelos fãs. O estandarte do bloco foi empunhado pela também atriz Leandra Leal. E tinha Neguinho da Beija Flor (padrinho), Maria Rita (madrinha), Emanuelle Araújo (musa da banda), João Roberto Kelly (embaixador), Tia Surica da Portela (embaixadora) e Selminha Sorriso (musa das musas). Depois de mais de quatro horas de animação e clima de matinê, por causa do horário, o carioca se despediu do Bola e tomou o rumo de outros blocos. Afinal, o carnaval estava só começando.
Gretchen e Groove
Na capital paulista, o destaque da pluralidade foi o Agrada Gregos, no circuito do Parque do Ibirapuera. Milhares de pessoas acompanharam o bloco, que contou com o reforço da artista Gloria Groove, uma das mais conhecidas drag queens do Brasil, e da cantora Gretchen, ícone do brega dançante dos anos 1980, conhecida como rainha do Rebolado. Groove levou para o parque clássicos da carreira, como Bumbum de Ouro, Coisa Boa e Yo Yo, músicas se tornaram hinos da comunidade LGBTQIA .
A própria agremiação se autodefine como o maior bloco LGBTQIA do Brasil, e transforma seus desfiles em uma especie de Parada Gay no carnaval, com muitas mensagens de cunho político por igualdade de direitos e respeito à diversidade de gênero. No alto do trio elétrico, Gretchen ainda levantou outra bandeira antidiscriminatória, contra o preconceito por causa da idade — etarismo.
Aos 66 anos, a artista criticou quem discrimina as pessoas mais velhas. "Idade está só na identidade, gente. Eu posso provar isso, e ele também", disse ela, apontando para um de seus bailarinos, que foi chamado de "velho" para dançar em cima do trio.
Brilha, BH!
O desfile do Bloco Então, Brilha!, que abriu o carnaval de Belo Horizonte, na manhã de ontem, também foi marcado pela defesa do fim da violência contra as mulheres. Ao longo do percurso, na Avenida dos Andradas, a vocalista da banda, a cantora Michelle Andreazzi, e outros integrantes do bloco discursaram pregando o combate ao machismo e lembrando estatísticas e casos recentes de feminicídio em Minas Gerais e no Brasil.
Aos homens, a cantora clamou: "A gente, mulher, não quer que vocês morram, a gente quer que vocês continuem vivos, só que a gente quer que vocês aprendam a ter civilidade e respeito. A gente não quer morrer esfaqueada porque não quis namorar com vocês. A gente não quer tomar 61 socos na cara porque vocês ficaram com ciúmes. Então, por favor, reflitam. Vamos aproveitar esse momento de alegria para contar uma nova história, por um mundo de brilho, amor e respeito".
(Colaborou Alessandra Mello, do Estado de Minas)
