
Ao olhar para cima, além dos altares e imagens, quem está no interior de um templo barroco parece entrar em outra dimensão, como se pudesse, mesmo a distância, encostar os dedos em um "céu" colorido pela arte, tecido em religiosidade, eternizado por séculos de história. Nas igrejas e nas capelas de Minas, o teto compõe o espaço da fé, com cenas bíblicas e vida de santos pintadas no forro da nave, sob o coro, nos corredores, na sacristia. Assim, a partir do ambiente cultural e espiritual e no início da semana santa, o universo de beleza e devoção é revelado no "O sagrado nas alturas".
- Leia mais: Vendas da Páscoa devem crescer 2,5% este ano
Corpo, alma, arte e conhecimento se unem para mostrar que, independentemente do credo, há lugar para todos na comunhão do humano e no divino. Tal constatação fica bem evidente nesta viagem com escalas em pinturas que remetem à Paixão de Cristo. A Capela Nossa Senhora do Pilar, em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, é datada de meados do século 18 e localizada ao lado do cemitério municipal. A singela construção impressiona pela harmonia entre decoração e aconchego, como se o conjunto da obra abraçasse o visitante e o conduzisse a momentos de devoção tranquila. No forro da nave, sobressai a Santíssima Trindade, com Deus Pai, Divino Espírito Santo e Cristo crucificado.
Tempo de fé
A partir de hoje, os fiéis participam das cerimônias da semana santa, que se inicia com a bênção e a procissão de ramos, lembrando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Estão na programação, com alterações de uma cidade para outra, conforme antigas tradições, as procissões de depósito de Jesus e Maria, o Encontro, a Santa Ceia, com a cerimônia do lava-pés, o descendimento da cruz e o Enterro do Senhor Morto. Há também a bênção do fogo novo, no sábado santo e, no Domingo de Páscoa (5), a Procissão da Ressurreição.
Minas respira e transpira religiosidade, e, se há tantos mistérios entre o céu e a terra, é tempo de preencher os espaços com a cultura, a história, relatos de quem vive intensamente a fé cristã. Participar das celebrações revigora e fortalece o coração das Gerais — e a semana santa é pródiga em cerimônias que elevam o espírito.
A "viagem" no tempo
Toda terça-feira, às 7h30 da manhã, é sagrado: um grupo de mulheres se reúne, para orações e recitação do terço, na Capela Nossa Senhora do Pilar, no Bairro Terra Santa, em Sabará. Vestem camisas brancas com a imagem da padroeira do templo erguido no século 18. Na noite anterior, como ocorre tradicionalmente às segundas-feiras, foi a vez do terço dos homens. "Esta capela é um tesouro para nosso patrimônio e a fé católica", diz Devair Oliveira Mendes, zeladora do local há uma década.
Moradora a poucos metros da edificação, Devair se sente "em casa" ao falar sobre o templo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1950, e restaurado em 1995. "Cuidar desta capela é missão. Conheço cada palmo, cada parte tem sua história. É importante valorizar tudo o que vem de Deus."
Sempre de olho nos altares, no forro e nos demais elementos artísticos, Devair tem como ajudante, no trabalho de zelar, a amiga Vanilde Isabel da Cruz Silva, para quem a simples contemplação do teto eleva o espírito, causa admiração, aumenta o respeito pela Igreja e leva a uma "viagem" no tempo. "Fico imaginando como foi pintar a Santíssima Trindade e também a Assunção de Nossa Senhora, que está no forro da capela-mor. São cenas de grande beleza", afirma.
Sempre presente às orações, Maria Terezinha de Jesus Rocha se mantém atenta aos detalhes, e chama a atenção para o canto esquerdo, no alto, onde há marcas de uma antiga infiltração. "Preservar é fundamental para evitar danos e futura restauração", afirma. Ouvindo as explicações das moradoras, fica ainda mais interessante e produtivo observar os detalhes do forro, dos altares cobertos de roxo, devido à quaresma, e as imagens.
Na pintura do teto, aos pés do Cristo crucificado, dois anjos carregam um livro, no qual se lê uma frase em latim — "Se Moriens in Pretum", que se traduz por "Morrendo, deu-se como preço". Nas laterais da nave, está São Francisco diante da sagrada família, enquanto, no fundo, se vê o Sagrado Coração de Jesus. Até hoje, conforme estudos, não se sabe a autoria das pinturas. Mas é importante informar que a imagem de Santana Mestra (1770), atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1739-1814), encontra-se hoje no município, em poder do Museu do Ouro, vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) do Ministério da Cultura.
Confira imagens

Brasil
Brasil
Brasil
Brasil