Saúde pública

Hantavírus: sete casos e uma morte neste ano

Mas a cepa que causou os óbitos no país não é a mesma que infectou os passageiros que estavam em um cruzeiro que saiu de Ushuaia, na Argentina, rumo a Cabo Verde, na África

As três pessoas a bordo do MV Hondius foram infectadas por um vírus diferente do identificado no Paraná -  (crédito: Divulgação/Stefan Brending/Oceanwide Expeditions)
As três pessoas a bordo do MV Hondius foram infectadas por um vírus diferente do identificado no Paraná - (crédito: Divulgação/Stefan Brending/Oceanwide Expeditions)

O registro de casos de hantavírus no navio de cruzeiro MV Hondius, que saiu da Argentina rumo à África, colocou autoridades sanitárias de diversos países em alerta e voltou a direcionar atenção para uma doença pouco conhecida pelo grande público, mas considerada grave por especialistas. Passageiros de mais de 20 nacionalidades estavam a bordo da embarcação e começaram a ser repatriados após a identificação de pessoas infectadas.

O episódio gerou preocupação internacional por envolver uma possível transmissão em ambiente fechado, situação considerada rara para a hantavirose. Até o momento, não há brasileiros entre os casos investigados.

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A repercussão do episódio fez crescer o interesse sobre a circulação do vírus no Brasil, onde a doença é considerada endêmica pelo Ministério da Saúde. Dados oficiais apontam que o país registrou sete casos confirmados de hantavirose em 2026, com uma morte contabilizada até 27 de abril, em Carmo do Parnaíba (MG) — a de segunda-feira, no município de Paulo Bento (RS), não foi computada por estar sendo investigada. Entre 1993 e 2025, foram confirmadas 2.429 infecções e 997 mortes.

O ministério informa que os registros se concentram, principalmente, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, em áreas rurais e de mata. "A presença da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus é relatada em 16 unidades da federação", informou a pasta em boletim epidemiológico.

O infectologista Alexandre Naime Barbosa explicou que o hantavírus é transmitido, principalmente, pela inalação de partículas contaminadas por urina, fezes e saliva de roedores silvestres. "Quando esses resíduos secam, pequenas partículas podem ficar suspensas no ar e serem inaladas durante a limpeza de galpões, celeiros, depósitos e casas fechadas", afirma.

Segundo ele, a infecção provoca uma resposta inflamatória intensa no organismo, atingindo, principalmente, os pulmões e os vasos sanguíneos. "O vírus aumenta a permeabilidade vascular pulmonar, causando acúmulo de líquido nos pulmões e comprometendo a respiração", explica.

Os primeiros sintomas costumam ser confundidos com outras doenças virais. "O paciente apresenta febre alta, dor no corpo, mal-estar, dor de cabeça, náusea e vômitos. Em poucos dias, o quadro pode evoluir para falta de ar intensa, queda da pressão arterial e insuficiência respiratória aguda", adverte.

De acordo com Barbosa, a rapidez da evolução clínica é um dos principais fatores de preocupação. "Sem atendimento em unidade de terapia intensiva, ventilação mecânica e suporte cardiovascular, a chance de morte é muito elevada", ressalta. A taxa média de letalidade no Brasil é de 46,5%, índice considerado alto pelas autoridades de saúde.

Diferenças

O médico também destacou que os casos registrados no navio não têm relação com as infecções identificadas recentemente no Brasil. "Os episódios registrados em Minas Gerais e no Paraná ocorreram em contexto rural e seguem o padrão histórico da doença no país, ligado ao contato com roedores silvestres", frisa.

Segundo ele, a cepa andina identificada no MV Hondius circula principalmente na Argentina e no Chile e não tem transmissão registrada em território brasileiro. "O evento ganhou grande repercussão porque ocorreu em uma embarcação internacional, em ambiente fechado, logo após o trauma coletivo deixado pela pandemia de covid-19", observa.

Apesar do alerta internacional, especialistas descartam risco de pandemia. "A transmissão sustentada entre humanos não acontece de forma eficiente como ocorre com influenza ou coronavírus. O caso do navio é considerado excepcional", diz. Ainda assim, ele reforça que a vigilância epidemiológica precisa ser mantida devido à gravidade da doença.

Entre as orientações preventivas estão evitar varrer ambientes fechados sem ventilação, utilizar máscara, luvas e óculos de proteção durante as limpezas e armazenar alimentos corretamente para impedir a presença de roedores. "Não existe tratamento antiviral específico, nem qualquer comprovação científica de eficácia para medicamentos, como ivermectina ou cloroquina, contra a hantavirose. O tratamento continua sendo baseado em suporte intensivo e diagnóstico precoce", avisa.

*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi

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postado em 14/05/2026 03:55
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