CB DEBATE

Desinformação em saúde mata e ameaça o SUS e a democracia, alerta professora da UnB

Durante evento do Correio, a pesquisadora Valéria Mendonça destacou que o uso de redes sociais por profissionais de saúde e a falta de letramento digital aceleram a queda na cobertura vacinal

A desinformação em saúde mata e ameaça diretamente o Sistema Único de Saúde (SUS) e a democracia brasileira ao impedir reações rápidas de indivíduos e instituições contra narrativas sedutoras. O alerta foi feito pela professora Valéria Mendonça, coordenadora do laboratório de educação, informação e comunicação em saúde da Universidade de Brasília (UnB), durante o CB Debate “O impacto da desinformação: da saúde à democracia”.

Com base em uma investigação iniciada em 2025 que já ouviu mais de 2 mil profissionais de Atenção Primária à Saúde (APS) em 12 países, a especialista destacou que a hesitação vacinal decorrente de notícias falsas cria um cenário “pavoroso” de queda na cobertura vacinal no Distrito Federal e em todo o país.

O evento, uma realização do Correio Braziliense com promoção da CB Brands, reúne autoridades, pesquisadores e especialistas para discutir como conteúdos falsos ou manipulados têm afetado áreas como saúde pública, ciência, política e democracia.

Segundo a pesquisadora, que coordena o laboratório há 20 anos, a desinformação opera por meio de uma arquitetura bem elaborada de algoritmos e “objetivos muito bem definidos” que ignoram a integridade da informação. A pesquisa revelou que, embora mais de 70% dos profissionais de saúde consultem mídias oficiais, o foco principal de consumo são as mídias sociais.

O WhatsApp foi identificado como o principal condutor de conteúdos, pela rapidez e viralização sem filtros, enquanto o Instagram é utilizado por personagens fictícios para recomendar práticas perigosas, como a “desverminação” sem controle médico. Valéria ressaltou ainda que o Facebook mantém fôlego entre o público de 16 a mais de 60 anos, desmistificando a ideia de que a plataforma seria obsoleta.

A investigação internacional do Laboratório EOS abrange 13 países de língua portuguesa e hispânicos da América Latina, tendo visitado quase todos, com a última etapa prevista para junho em São Tomé e Príncipe. No Brasil, a amostra já conta com mais de 1 mil profissionais entrevistados.

Os dados indicam que a falta de letramento digital e a desatenção da sociedade moderna facilitam a propagação de conteúdos nocivos, tornando a gestão da informação e a educação midiática ferramentas essenciais para a proteção das políticas públicas.

Como resposta prática ao problema, a professora citou o programa de extensão Escola Cidadã, que leva resultados científicos para escolas e unidades básicas do DF, promovendo a comunicação positiva. O trabalho é articulado pela Rede Brasil e pela Rede Praxis de Gestão da Informação e Tradução do Conhecimento.

Valéria Mendonça concluiu enfatizando que o uso da Inteligência Artificial (IA) deve ser pautado por princípios éticos, lembrando que a tecnologia é apenas o meio e que a responsabilidade pela integridade do conteúdo permanece com o autor, que está "entre a tecla e a tela".

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