Violência

Letalidade policial cresce, e negros são 86% das vítimas no país

Dados referem-se a 2025 e foram colhidos nos nove estados acompanhados pela Rede Observatórios da Segurança. A pesquisa mostra aumento de 6,4% na brutalidade dos agentes da lei. Do total de mortes, 86,3% são de jovens negros

Ato contra violência policial no Rio de Janeiro: estatísticas mostram ser frequente o negro como vítima  -  (crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Ato contra violência policial no Rio de Janeiro: estatísticas mostram ser frequente o negro como vítima - (crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)

As mortes provocadas por intervenções policiais aumentaram 6,4% em 2025 nos nove estados acompanhados pela Rede de Observatórios da Segurança. O levantamento identificou 4.330 vítimas em Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Os dados mostram que 86,3% dos mortos eram negros e que a maior parte das ocorrências envolveu homens com até 29 anos, evidenciando a permanência de um perfil que se repete ao longo dos anos.

O estudo integra a sétima edição do relatório, Pele Alvo: entre Racismo e Letalidade, o Amanhã, divulgado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), divulgado ontem. De acordo com o documento, 3.104 vítimas eram pretas ou pardas e 2.804 tinham até 29 anos, o equivalente a 64,8% do total. Entre elas, estavam 310 crianças e adolescentes.

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Segundo o levantamento, pessoas negras apresentam, em média, quatro vezes mais risco de morrer em ações policiais do que pessoas brancas. Quatro estados alcançaram, em 2025, os maiores índices de letalidade policial desde o início da série histórica, em 2019. São Paulo registrou 834 mortes; Pará contabilizou 632; Ceará chegou a 200; e Maranhão somou 142 vítimas. O estudo também aponta crescimento no Rio de Janeiro, com 800 mortes, enquanto a Bahia permaneceu com o maior número absoluto entre os estados monitorados, registrando 1.570 casos ao longo do ano.

Só 19 dias sem morte

Na Bahia, apenas 19 dos 365 dias de 2025 não tiveram mortes decorrentes de ações policiais. Embora as pessoas negras representem 79,7% da população estadual, elas correspondem a 93,9% das vítimas. O relatório destaca ainda que 12 municípios concentraram metade de todos os registros de letalidade no estado.

Em São Paulo, a alta ocorreu mesmo diante da redução de indicadores como furtos, roubos e latrocínios. A capital respondeu por 30,5% das ocorrências e as pessoas negras representaram 64,6% dos mortos.

No Rio de Janeiro, mais da metade das mortes ocorreu na capital. A população negra corresponde a 57,8% dos habitantes, mas representou 89,5% das vítimas. A taxa de letalidade foi de 6,3 mortes por 100 mil habitantes negros contra 1,1 entre brancos, o que significa risco seis vezes maior para pessoas negras.

O Pará também bateu recorde da série histórica. Belém, Ananindeua e Marituba concentraram quase um terço das ocorrências. A maioria das vítimas tinha entre 12 e 29 anos, enquanto a Polícia Militar respondeu por 89,7% das mortes oficialmente registradas.

No Ceará, pessoas negras corresponderam a 87,1% das vítimas. O relatório ainda critica a alteração da nomenclatura utilizada pelo governo estadual para classificar essas ocorrências, argumentando que a mudança modifica a forma como os casos passam a ser registrados oficialmente.

O Maranhão apresentou crescimento de 86,8% em relação ao ano anterior e consolidou uma tendência de aumento observada na última década. Mais da metade das vítimas tinha até 29 anos e 83,1% dos óbitos foram atribuídos à PM. O documento também aponta que 54,9% dos registros não informam a raça ou a cor das vítimas.

Pernambuco registrou aumento de 30,8% nas mortes provocadas por ações policiais. Pessoas negras representaram 94,4% das vítimas e apresentam risco 11 vezes maior de morrer nessas circunstâncias em comparação com pessoas brancas, a maior diferença entre os estados monitorados.

O Amazonas manteve 43 mortes. No estado, pessoas negras corresponderam a 96% das vítimas, maior proporção observada pelo levantamento. O relatório ainda chama atenção para a ausência de registros de vítimas indígenas.

O Piauí foi o único estado a reduzir a letalidade policial, com queda de 16,7%. Os pesquisadores relacionam esse resultado à adoção de protocolos antirracistas, à criação da Superintendência de Promoção da Igualdade Racial e ao fortalecimento da fiscalização por órgãos de controle, universidades, movimentos sociais e Ministério Público.

O relatório aponta falhas na identificação racial das vítimas, principalmente no Maranhão e no Ceará. Para a Rede de Observatórios da Segurança, a ausência dessas informações dificulta um diagnóstico sobre os impactos da violência policial.

*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi

 

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postado em 02/07/2026 03:55
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