
Calor acelera ciclo de desenvolvimento do mosquito, transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya - (crédito: Agência Brasil)
O Ministério da Saúde emitiu, ontem (22/7), um alerta a estados e municípios sobre a possibilidade de aumento na transmissão de arboviroses, como dengue e chikungunya, em razão dos impactos climáticos associados ao fenômeno El Niño. Segundo a pasta, a previsão é de que o evento climático ocorra com intensidade moderada a forte, provocando alterações no regime de chuvas e nas temperaturas, o que pode favorecer a proliferação do mosquito Aedes Aegypti.
De acordo com o ministério, o aumento das temperaturas, combinado com períodos de chuvas intensas em algumas regiões e estiagens em outras, pode levar ao armazenamento inadequado de água, criando ambientes propícios para a reprodução do vetor transmissor das doenças.
As projeções do InfoDengue, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), indicam que o Brasil poderá registrar cerca de 1,7 milhão de casos de dengue em 2027. O Ministério da Saúde ressalta, no entanto, que os números são estimativas baseadas em modelos climáticos e podem sofrer alterações conforme novos dados meteorológicos e epidemiológicos sejam incorporados.
Diante desse cenário, a pasta orienta estados e municípios a intensificarem as medidas de vigilância e controle. Entre as recomendações estão o bloqueio imediato da transmissão nos primeiros casos identificados, a reorganização das equipes de agentes de combate às endemias e a adoção das tecnologias de controle recomendadas pelo governo Federal.
O ministério também reforça a importância do engajamento da população na eliminação de criadouros do mosquito dentro das residências e orienta que pessoas com sintomas compatíveis com dengue ou chikungunya procurem atendimento médico o quanto antes para diagnóstico e tratamento adequados.
Para o chefe do Departamento de Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, Alexandre Naime Barbosa, o El Niño altera o regime de chuvas, as temperaturas e a umidade em diferentes regiões do país, criando condições mais favoráveis à proliferação do Aedes Aegypti.
Segundo o infectologista, temperaturas mais elevadas aceleram o desenvolvimento do mosquito, reduzem o intervalo entre a fase de ovo e a fase adulta e aumentam a frequência com que as fêmeas se alimentam de sangue. O calor também diminui o tempo necessário para que o vírus se multiplique dentro do vetor e alcance as glândulas salivares, tornando o mosquito capaz de transmitir a doença em um período menor.
Apesar disso, Barbosa ressalta que o fenômeno climático, por si só, não explica o aumento das epidemias."O El Niño não é o responsável pela dengue, mas pode acelerar e ampliar uma transmissão para a qual nossas cidades já oferecem condições", afirma.
O especialista também destaca que os impactos do fenômeno variam conforme a região do país. Enquanto algumas áreas podem enfrentar excesso de chuvas, outras registram calor intenso e estiagem, fatores que influenciam de maneiras distintas a dinâmica de reprodução do mosquito e o comportamento da população.
Segundo Barbosa, essa heterogeneidade impede que o risco seja tratado de forma uniforme em todo o território nacional. Em vez disso, estados e municípios precisam acompanhar continuamente os diferentes cenários climáticos regionais para adaptar as estratégias de vigilância e controle.
Outro fator de preocupação é o aumento da velocidade de transmissão durante o período de calor. “Em períodos mais quentes, o ciclo de desenvolvimento do mosquito tende a ser mais rápido e o vírus pode completar sua multiplicação no vetor em menos tempo. Isso aumenta a chamada capacidade vetorial, que representa o potencial de uma população de mosquitos transmitir a infecção,” explica.
Barbosa defende uma atuação integrada entre diferentes áreas da administração pública. Na avaliação dele, o enfrentamento da dengue depende da articulação entre vigilância epidemiológica, atenção básica, limpeza urbana, abastecimento de água, defesa civil, assistência social e escolas."A dengue não é um problema exclusivo do setor da saúde, porque os principais fatores que mantêm a transmissão estão distribuídos por toda a organização das cidades", conclui.
Risco aumentado
O presidente do Conselho do Projeto Hospitais Saudáveis, Vital de Oliveira Ribeiro Filho, afirma que as projeções climáticas indicam um cenário de maior risco para o Brasil nos próximos meses. Segundo ele, as agências e instituições de pesquisa nacionais e internacionais já consideram como certa a ocorrência de um El Niño de forte intensidade, acompanhado da possibilidade de 2026 superar 2024 como o ano mais quente desde o início dos registros modernos.
De acordo com o especialista, o fenômeno deverá provocar aumento das chuvas, principalmente nas regiões Sudeste e Sul, elevando o risco de enchentes e deslizamentos. Ao mesmo tempo, outras regiões poderão enfrentar estiagens, ondas de calor, incêndios florestais e piora da qualidade do ar, fatores que ampliam a pressão sobre o sistema de saúde.
"O incremento das doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, zika, chikungunya e malária é esperado tanto para as regiões com chuvas intensas como nas que sofrem com as secas, quando as pessoas tendem a armazenar água de forma improvisada. Temperaturas mais altas contribuem para maior velocidade e intensidade na reprodução dos mosquitos", explica.
Apesar da preocupação com os próximos anos, os indicadores mais recentes mostram um cenário de redução das arboviroses no país. Até 20 de junho de 2026, o Brasil registrou 392,8 mil casos de dengue, uma queda de 73% em comparação com o mesmo período de 2025. Os casos de chikungunya também apresentaram redução, com recuo de 46% na mesma base de comparação.
Segundo o Ministério da Saúde, a manutenção desse cenário dependerá da continuidade das ações de prevenção e da preparação antecipada dos estados e municípios para enfrentar os possíveis impactos do próximo ciclo climático.
*Estagiário sob a supervisão de Victor Correia
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Por Pedro José*
postado em 23/07/2026 05:00

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