
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lançou na quinta-feira (13/8), em Brasília, o relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2025. O levantamento, feito anualmente pela entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), registrou aumento em praticamente todas as categorias de violência monitoradas em relação ao ano anterior, de assassinatos e suicídios, passando pela mortalidade infantil e pelos conflitos por terra.
Segundo o documento, foram registrados 258 assassinatos de indígenas em 2025, ante 211 no ano anterior. Roraima (82), Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul (37) concentraram o maior número de casos. Os suicídios também cresceram, de 208 para 215, com incidência maior entre jovens de 20 a 29 anos (41% dos casos) e menores de 19 anos (34%).
Um dos dados mais alarmantes é o de mortes de crianças indígenas de até 4 anos: foram 1.024 mortes em 2025, um salto em relação às 922 registradas em 2024. Os estados com mais casos foram Amazonas (306), Roraima (158) e Mato Grosso (123). Mais da metade dessas mortes, 586, ou 57%, decorreu de causas consideradas evitáveis, como gripe e pneumonia (104 casos), doenças infecciosas intestinais (85) e desnutrição (32).
Em entrevista ao Correio, o cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus e presidente do Cimi, destacou justamente a mortalidade infantil como o dado que mais o marcou nesta edição do relatório.
"Eu destacaria, por exemplo, a morte de mais de mil crianças. Porque para os povos indígenas, a criança é a maior riqueza que um povo tem", afirmou. O cardeal relembrou uma experiência pessoal de convivência com comunidades indígenas para explicar o peso simbólico desse número: "Presenciei a morte de uma criança. Todos os indígenas foram para dentro de casa e ficaram chorando a morte da criança. Ninguém apareceu na aldeia."
Território como raiz da violência
Para Dom Leonardo, os números do relatório não podem ser lidos fora do contexto do impasse jurídico sobre a demarcação de terras indígenas. O relatório do Cimi mostra que, das 1.443 terras e reivindicações territoriais existentes no país, 897 têm alguma pendência administrativa e, dessas, 582 não têm sequer o processo demarcatório iniciado.
Segundo a entidade, essa questão alimenta diretamente os conflitos: os 169 casos de conflitos por direitos territoriais registrados em 2025 ocorreram em 23 estados e atingiram 143 terras indígenas, a maioria delas ainda sem regularização.
"Na tentativa de retomada dos territórios antigos existe muita violência, existe muita morte", disse o cardeal, referindo-se ao processo pelo qual comunidades voltam a ocupar terras tradicionais ainda não demarcadas. "O território tem causado muitas mortes."
O relatório também trata da tramitação da Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal, e da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 48/2023, que buscam restringir os critérios para demarcação de terras indígenas. Segundo o documento, o Supremo Tribunal Federal (STF) não julgou o mérito da lei ao longo de todo o ano, e somente em dezembro o ministro relator, Gilmar Mendes, apresentou voto mantendo dispositivos considerados problemáticos pela entidade.
"A gente espera que o Supremo Tribunal Federal realmente chegue, finalmente, ao julgamento da questão do marco temporal para que desapareça essa questão do território", afirmou Dom Leonardo.
Os impactos do garimpo ilegal
O cardeal também abordou o avanço do garimpo ilegal sobre terras indígenas, tema tratado em capítulo específico do relatório, que traz como exemplo a Terra Indígena Sararé, do povo Nambikwara, em Mato Grosso, apontada como a mais desmatada da Amazônia Legal em 2024 e capa desta edição da publicação.
"Para o povo indígena, a terra não é apenas a terra, é o lugar de habitar", disse o presidente do Cimi. Ele relatou ter visto crianças em estado de desnutrição durante visita ao povo Yanomami, atribuindo o quadro à presença do garimpo na região. "Vários assassinatos significam que, para poder manter o garimpo, as pessoas não têm receio de levar as mulheres para usar como prostituição, não têm receio de derrubar as matas, poluindo os rios, fazendo com que os próprios peixes não possam ser ingeridos."
Segundo o relatório, o STF determinou que o Congresso Nacional tem 24 meses para aprovar legislação específica sobre mineração em terras indígenas. Dom Leonardo, no entanto, demonstrou pouca confiança na atual composição do Legislativo para avançar nessa pauta. "No Congresso Nacional atual, não sei como vai ser o futuro Congresso, será muito difícil termos leis que vão a favor dos povos indígenas", disse.
"O espírito não fala mais"
Ao comentar o aumento dos suicídios entre jovens indígenas, o cardeal relatou uma conversa que teve com um ancião durante visita a uma aldeia, quando perguntou por que os jovens tiravam a própria vida. "A resposta que recebi foi chocante: 'o espírito não fala mais'", contou. "Os sonhos dos jovens de voltar à terra, de ter a própria terra, de poder cultivar a língua, a cultura, como isso não é possível, eles preferem a morte, preferem que o espírito se cale."
Para o presidente do Cimi, o relatório cumpre a função de manter viva essa voz. "Talvez o relatório seja justamente a possibilidade de o espírito continuar a falar da causa indígena, falar a questão das mortes, mas especialmente falar para que a nossa sociedade acorde, que o meio jurídico acorde, que o Congresso Nacional acorde. Nós temos uma dívida enorme em relação aos povos indígenas."
O cardeal citou que a população indígena no Brasil já chegou a cerca de 5 milhões de pessoas na chegada dos europeus e hoje soma pouco mais de 1 milhão. "Povos que completamente desapareceram porque tentaram defender as suas terras, e hoje, 500 anos depois, continua ainda a questão", afirmou.
Questionado sobre o que, além da demarcação de terras, seria necessário para garantir a segurança dos povos indígenas, Dom Leonardo apontou três frentes: pressão social e legislativa, papel da imprensa e mobilização do governo federal. "Os meios de comunicação trazerem cada vez mais a questão indígena [...] pode ser de grande ajuda para elucidar a causa indígena", disse, citando também a criação do Ministério dos Povos Indígenas e o fortalecimento da Funai como avanços do atual governo, embora insuficientes diante do que classificou como uma "cultura contra os povos indígenas" ainda presente na sociedade brasileira.
Os dados do relatório são levantados ao longo do ano pelos missionários e missionárias do Cimi que atuam diretamente junto às comunidades indígenas em todo o país, além de informações obtidas via Lei de Acesso à Informação junto a órgãos como o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), secretarias estaduais de saúde e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). "É da nossa cotidianidade que recolhemos os dados para o relatório", afirmou o cardeal.
Esta é a 23ª edição da publicação, referência para o monitoramento da violência contra povos indígenas no Brasil desde 1996.
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