OPERAÇÃO CONTENÇÃO

1 ano da chacina com 122 mortos no Rio, relatório aponta indícios de execuções

Investigação da Human Rights Watch aponta manipulação de câmeras e execuções na Operação Contenção; nenhum policial foi denunciado

A maior parte das 122 mortes ocorreu na região da mata da Vacaria, ponto estratégico entre os complexos da Penha e do Alemão -  (crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil )
A maior parte das 122 mortes ocorreu na região da mata da Vacaria, ponto estratégico entre os complexos da Penha e do Alemão - (crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil )

Um ano depois da operação policial mais letal da história do Brasil, as circunstâncias de 122 mortes nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, continuam sem esclarecimento definitivo. Nesta quarta-feira (28/10), data que marca o primeiro aniversário da Operação Contenção, uma investigação independente da organização Human Rights Watch (HRW) apresenta novas evidências de uso excessivo da força, possíveis execuções e manipulação de câmeras corporais por agentes de segurança. Até o momento, nenhum policial foi denunciado pelas mortes ocorridas durante a ação.

Intitulado “Uma estratégia de morte”, o relatório reúne milhares de documentos e registros audiovisuais para reconstruir a ofensiva realizada em 28 de outubro de 2025. Uma das principais conclusões é que nenhuma das mortes foi registrada pelas câmeras utilizadas pelos policiais, embora a organização tenha examinado aproximadamente 4.400 horas de gravações. A análise identificou situações em que os equipamentos foram retirados, tiveram as lentes encobertas ou deixaram de funcionar justamente nos períodos de maior intensidade dos confrontos.

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A operação, conduzida durante o governo de Cláudio Castro (PL), mobilizou cerca de 2,5 mil policiais civis e militares contra integrantes do Comando Vermelho. O balanço de 122 mortos considera 117 pessoas que não integravam as forças policiais e cinco agentes de segurança, sendo três policiais civis e dois militares. Quatro agentes morreram no dia da ofensiva, enquanto o quinto não resistiu aos ferimentos nas semanas seguintes. O relatório também menciona outros dois homens mortos antes do início oficial da operação.

A repercussão internacional da chacina ganhou força em 29 de outubro, quando moradores retiraram dezenas de corpos de uma região de mata e os levaram à Praça São Lucas, no Complexo da Penha. Na ocasião, familiares relataram ferimentos que levantavam suspeitas de tortura e execução, enquanto denunciavam dificuldades para localizar e reconhecer as vítimas.

Passados 12 meses, a investigação conduzida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) ainda não esclareceu individualmente as circunstâncias dos óbitos. O órgão já colheu depoimentos de 255 policiais, 61 pessoas presas durante a operação e 45 familiares dos mortos. Embora agentes tenham sido denunciados por outros crimes relacionados à ação, a responsabilidade pelas mortes permanece sem uma conclusão judicial.

Câmeras deixaram de gravar antes das mortes

O material examinado pela Human Rights Watch ajuda a compreender uma das principais dificuldades enfrentadas pelas investigações. A organização analisou gravações de 527 policiais, 122 laudos de necropsia, mais de 8,8 mil páginas de documentos do Ministério Público e centenas de fotografias e vídeos. O trabalho também incluiu 41 entrevistas com familiares, moradores e autoridades, além da utilização de inteligência artificial para localizar episódios relevantes nas gravações, posteriormente revisados pelos pesquisadores.

Segundo o documento, apenas cerca de 23% dos 2,5 mil agentes mobilizados utilizavam câmeras corporais. Entre os 305 policiais de unidades que atuaram na linha de frente e cujas imagens foram examinadas, 55% apresentaram interrupções ou lacunas significativas nas gravações por volta do meio-dia, período em que os confrontos se intensificaram.

Dos 2,5 mil policiais mobilizados na Operação Contenção, apenas cerca de 23% utilizavam câmeras corporais acopladas ao fardamento
Dos 2,5 mil policiais mobilizados na Operação Contenção, apenas cerca de 23% utilizavam câmeras corporais acopladas ao fardamento (foto: Mauro Pimentel/AFP)

Os pesquisadores identificaram 278 episódios de obstrução ou retirada dos equipamentos envolvendo 132 policiais dessas unidades. Desse conjunto, 146 foram classificados como suspeitas de manipulação intencional. Outros registros mostram câmeras deixadas dentro de veículos ou removidas temporariamente, sem que fosse possível determinar a intenção dos agentes.

A ausência de imagens foi especialmente significativa entre os integrantes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Nenhuma das gravações de 49 policiais da unidade analisadas pela HRW mostra a atuação dos agentes após as 12h11, embora a maior parte das mortes tenha ocorrido posteriormente, na região da mata da Vacaria.

Em uma avaliação realizada em junho, o próprio Ministério Público identificou que 17% dos 51 policiais do Bope examinados haviam retirado as câmeras durante a operação. Em pelo menos 7,8% dos registros analisados, foram encontrados indícios de obstrução das lentes.

As autoridades de segurança pública do Rio atribuíram parte das interrupções ao esgotamento das baterias. O relatório, entretanto, destaca que o protocolo da Polícia Militar exige carga mínima de 95% antes da utilização dos equipamentos e baterias adicionais em serviços superiores a 12 horas. Em depoimento, comandantes do Bope reconheceram que a unidade possuía 14 baterias extras, mas não levou nenhuma para a operação.

Mortes se concentraram após baixas policiais

A sequência dos confrontos também é objeto de questionamento. A ofensiva começou nas primeiras horas de 28 de outubro, com o objetivo de cumprir 100 mandados de prisão e 145 de busca e apreensão. Policiais encontraram resistência armada de integrantes do Comando Vermelho, que utilizaram barricadas e incêndios para dificultar o avanço das equipes.

A região mais violenta foi a mata da Vacaria, situada na Serra da Misericórdia, entre os complexos da Penha e do Alemão. O território costumava ser utilizado como rota de fuga por integrantes da facção durante operações anteriores. Naquele dia, porém, o Bope havia estabelecido uma barreira para impedir a passagem dos suspeitos, estratégia conhecida como “muro do Bope”.

O cenário se agravou após policiais serem atingidos por disparos na base da mata. Documentos analisados pela HRW mostram que 14 agentes foram baleados e hospitalizados, sendo que todos, com exceção de um, deram entrada nas unidades de saúde até as 13h30.

O Ministério Público considera a hipótese de que, após as baixas, a ofensiva tenha assumido características de uma operação de vingança. Esse tipo de atuação é marcado pelo aumento da letalidade policial em resposta à morte ou ao ferimento de integrantes das forças de segurança.

O relatório também reúne depoimentos de familiares que receberam telefonemas de jovens encurralados na mata. Alguns teriam manifestado o desejo de se entregar antes de perder contato com os parentes.

Uma das mães relatou à organização que seu filho, de 23 anos, telefonou por volta das 14h pedindo ajuda para se render. Segundo ela, o jovem afirmou estar com medo porque outros homens que haviam se entregado teriam sido mortos. A ligação foi o último contato entre os dois.

Embora 99 pessoas tenham sido presas durante a operação, a Human Rights Watch não encontrou registros de detenções realizadas na mata da Vacaria. Das prisões efetuadas, 17 envolviam pessoas contra as quais já existiam mandados judiciais.

 Laudos apontam disparos pelas costas e na cabeça

As suspeitas de uso ilegal da força também encontram respaldo nos exames de necropsia analisados pela organização. Entre as 117 vítimas que não eram policiais, mais de 60% apresentavam pelo menos quatro ferimentos provocados por projéteis de arma de fogo.

Os dados mostram ainda que aproximadamente três quartos dessas pessoas foram atingidas ao menos uma vez pela parte posterior do corpo, enquanto 50 receberam disparos na cabeça. Em 71% dos casos, havia ferimentos de entrada em pelo menos dois lados do corpo.

Especialistas forenses internacionais consultados pela HRW avaliaram que a quantidade, a localização e a trajetória dos tiros sugerem que algumas vítimas podem ter sido mortas intencionalmente, inclusive em situações nas quais já estariam incapacitadas.

Entre os casos apresentados está o de um adolescente de 14 anos que recebeu seis disparos, incluindo três nas costas. Outro homem, de 28 anos, foi atingido dez vezes, com pelo menos seis tiros efetuados à queima-roupa.

A organização também examinou a morte de Ronaldo Julião da Silva, de 46 anos. Segundo relatos reunidos pelos pesquisadores, ele não integrava a facção criminosa e estaria desarmado quando foi atingido. Uma testemunha afirmou ter visto policiais dispararem contra Ronaldo enquanto ele mantinha as mãos levantadas. A necropsia identificou ferimentos nas costas, na axila, na mão e no rosto.

Outro episódio envolve Yago Ravel Rodrigues Rosario, de 19 anos, encontrado decapitado na mata. A HRW identificou imagens de um policial que carregava um facão durante a operação, mas não conseguiu estabelecer quem provocou a mutilação.

O levantamento indica ainda que mais de 85% das vítimas que não integravam as forças de segurança eram negras. Entre os mortos estavam dois adolescentes, de 14 e 17 anos.

A organização ressalta que a eventual ligação das vítimas com o Comando Vermelho não afastaria a obrigação policial de preservar vidas. Pela legislação brasileira e pelas normas internacionais de direitos humanos, o uso intencional da força letal somente é permitido quando estritamente necessário para proteger pessoas de ameaças à vida.

Falhas nas perícias dificultam responsabilização

Além da ausência de gravações, a investigação identificou problemas na preservação dos locais onde ocorreram as mortes. Segundo a HRW, a Polícia Civil não realizou perícia em nenhuma das cenas dos óbitos, embora os protocolos estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) determinem a proteção desses espaços até a chegada das equipes técnicas.

O relatório aponta que 33 corpos foram retirados da região pelo Bope, enquanto outros 62 foram recuperados por moradores depois da saída dos policiais. Parte das vítimas também foi encaminhada ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, próximo ao Complexo da Penha.

A remoção dos cadáveres sem a realização de perícia comprometeu a coleta de provas que poderiam ajudar a determinar a distância dos disparos, a posição das vítimas e as circunstâncias dos confrontos.

Registros hospitalares examinados pela organização revelam que, em muitos casos, sequer foram anotados os nomes dos policiais responsáveis pelo transporte dos corpos. Informações básicas sobre o horário, o local e a dinâmica das mortes foram coletadas pela Polícia Civil em apenas dois dos 117 casos envolvendo pessoas que não eram agentes de segurança.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA), também apontou possíveis violações relacionadas à operação. Um documento da entidade registrou lesões em 17 pessoas detidas e resultados inconclusivos para maus-tratos e tortura em outras 36.

Paralelamente às investigações sobre as mortes, policiais passaram a responder por suspeitas de invasão de domicílios, furtos, desvios de armamentos e irregularidades envolvendo câmeras corporais. O material encaminhado à reportagem menciona denúncias contra 27 agentes por diferentes condutas. Já o levantamento da Human Rights Watch registra 19 policiais denunciados e ainda aguardando julgamento à época da conclusão de sua investigação, sem acusações relacionadas ao uso ilegal da força.

A diferença entre os levantamentos não altera a principal lacuna apontada pela entidade: a ausência de responsabilização criminal pelas mortes. Os comandantes responsáveis pelo planejamento e pela execução da ofensiva também não haviam sido responsabilizados.

Um ano depois, moradores ainda cobram respostas

As consequências políticas da Operação Contenção ultrapassaram o debate sobre segurança pública. Dois dos principais responsáveis pelas forças policiais à época foram eleitos nas eleições de 2026.

O então secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados, utilizando o número eleitoral 1122, associado ao total de mortos na operação. Já o coronel Marcelo de Menezes, que comandava a Polícia Militar, foi eleito deputado estadual pelo PL.

Enquanto isso, familiares das vítimas continuam reivindicando esclarecimentos sobre a atuação das forças policiais. Entre eles está Tauã Brito da Cruz, mãe de Wellington Brito Santos, morto aos 20 anos. Ela encontrou o corpo do filho na madrugada seguinte à ação, próximo a uma escadaria de acesso à mata.

O laudo apontou cinco ferimentos provocados por tiros. Tauã também relatou ter encontrado o jovem com as mãos amarradas por um tecido preto, circunstância que a Human Rights Watch não conseguiu esclarecer.

A investigação também registra relatos de moradores segundo os quais o Comando Vermelho continuava exercendo controle sobre o Complexo da Penha meses depois da ofensiva. A permanência da facção, apesar da dimensão da operação, voltou a alimentar questionamentos sobre a eficácia de ações policiais baseadas em grandes confrontos armados.

Para Debora Moreira Lemos, de 41 anos, que perdeu o filho Gabriel, de 23, a violência de outubro de 2025 se soma a experiências que acompanham sua vida desde a infância. O jovem foi encontrado morto na mata, com quatro ferimentos de bala. A organização não conseguiu estabelecer as circunstâncias exatas de sua morte.

Ao recordar a frequência das operações policiais na região e o medo vivido pelos moradores, Debora resumiu a sensação de continuidade da violência.

“Tenho visto operações [policiais] como essa a vida inteira”, disse ela. “Nada mudou”.

A um ano da chacina, a Human Rights Watch defende que os Ministérios Públicos Federal e do Rio de Janeiro aprofundem as investigações sobre as mortes, as decisões tomadas pelos comandantes e o descumprimento das determinações judiciais. A entidade também recomenda o fortalecimento da independência das perícias criminais, de modo a impedir que os órgãos responsáveis pelas mortes sejam os únicos encarregados de produzir provas sobre sua própria atuação.

O debate ocorre em meio à transição do governo estadual. Eleito governador do Rio de Janeiro em primeiro turno, Douglas Ruas prevê em seu plano de governo a ocupação permanente de áreas dominadas por organizações criminosas, proposta que recoloca a presença das forças de segurança nesses territórios no centro das discussões.

Para as famílias que aguardam respostas desde outubro de 2025, entretanto, a prioridade permanece na identificação das circunstâncias em que seus parentes morreram e na responsabilização de eventuais envolvidos. A dimensão da Operação Contenção, que mobilizou milhares de policiais e deixou 122 mortos, contrasta com a ausência de conclusões definitivas sobre a legalidade da força empregada naquele dia.

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postado em 28/10/2026 12:39
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