
No dia 28 de outubro de 2025, a megaoperação Contenção transformou os complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, em cenários de uma guerra brutal e com resultados confusos. Bruno Itan, fotógrafo da Defensoria Pública, foi testemunha de um dos dias mais sangrentos da história da capital fluminense e ainda busca entender qual objetivo foi alcançado na ação policial que deixou 122 mortos, entre suspeitos e policiais.
Nascido em Recife e criado no Complexo do Alemão, Bruno afirma que a paixão pela fotografia, descoberta por meio de um curso oferecido pelo governo federal na comunidade, o salvou de um destino parecido com o de muitos dos jovens que tiveram os corpos exibidos na Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, no dia seguinte à operação.
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Atualmente, ele coordena o projeto Olhar Complexo, que promove a integração de jovens e crianças na cultura da fotografia em favelas cariocas desde 2016. Através das lentes, Bruno afirma que busca registrar o cotidiano das comunidades para além dos conflitos armados entre policiais e traficantes. “Se pudesse ajudar pelo menos uma vida já valeria a pena pra mim”, afirma.
Porém, na manhã de 28 de outubro de 2025, o fotógrafo se deparou com um cenário nunca antes visto no Rio de Janeiro. Passado um ano, Bruno se mostra indignado pela falta de mudanças nas favelas alvo da operação e com o envolvimento de figuras políticas no crime organizado. “É engraçado que ainda queriam escolher uma família do Rio para governar o país”, comenta.
Ao Correio, Bruno Itan narra os acontecimentos que marcaram a operação policial mais violenta da história do país.
Bruno, qual a sua relação com as comunidades alvo da megaoperação?
Eu sou cria do Complexo do Alemão, saí de lá depois de adulto. Meu primeiro curso de fotografia foi no Alemão. Depois dali, comecei a fotografar o lado positivo da comunidade, tentar mostrar um lado diferente que não seja só a violência.
Como tenho a oportunidade de poder circular dentro da comunidade, tenho acesso a lugares incríveis, histórias de pessoas maravilhosas, e tento registrar isso com o meu olhar.
Vamos voltar ao dia 28. Como esse dia começou para você?
Eu participo de muitos grupos de moradores de favela. Fico sempre monitorando. Nesse dia, percebi muita gente falando que ia ter uma operação. A maioria das operações são sempre vazadas. Se eu já sei que vai ter, imagine os que são do tráfico? Quem mora dentro das comunidades percebe a movimentação.
Começou a ter muito tiro por volta das 5h da manhã. Imaginei que seria mais uma daquelas operações “enxuga-gelo”. Ou seja, a polícia vai lá, mata um, mata dois, depois vai embora e nada muda. Aí, fui percebendo a grande quantidade de policiais. Depois começou a ter relatos de muitos corpos aparecendo no Hospital Getúlio Vargas. Estava acompanhando de longe e percebi que teria que me deslocar para lá.
No hospital começaram a vir muitos carros de polícia com corpos em cima. E o tiroteio não cessava. Quando entrei no Complexo da Penha fui subindo e fotografando, até que cheguei em um ponto que não dava mais para passar porque estava muito escuro.
Fiquei ali registrando a movimentação dos policiais e escutando muitos tiros por perto, bomba, granada. Com isso, relatos de moradores falando que tinha muita gente morrendo na área de mata entre o Alemão e a Penha, que é a Serra da Misericórdia.
Inclusive, chegaram informações que policiais também tinham sido baleados. Quando a gente sabe que um policial foi baleado ou morto, é costume que a ação vire uma “operação vingança”. Aí, eles não vão mais para prender. Eles (os policiais) estavam muito tensos. Eu sempre tenho o maior cuidado de me proteger dos tiros. Pô, eu não usava colete e nem capacete porque trabalhava como freelancer na época. Subi o morro junto com a equipe do Voz da Comunidade e chegamos em um ponto que começou a escurecer. A favela toda estava sem energia.
Você foi um dos primeiros a chegar no local onde os corpos estavam na mata?
Os policiais não conseguiram recuperar a quantidade de corpos. Então deixaram para os moradores. Foi aí que começaram a levar os corpos enfileirados para aquela praça (Praça São Lucas). No momento em que colocaram eles ali, eu fiz um vídeo e publiquei. Aí vieram vários jornalistas. Foi difícil registrar tudo aquilo.
Lá na mata, a gente começou a ver que muitos dos corpos tinham sido torturados. Alguns sem dedos, uma cabeça em cima de um tronco de árvore. Apesar de já ter visto tanta coisa em operações policiais, ali foi uma das coisas mais horríveis que vi na minha vida. Acho que entendi ali que a morte tem cheiro. Nunca vou esquecer o cheiro daquele dia. A roupa que usei ali, eu joguei fora.
Enquanto estou fotografando, fico na tensão de registrar o melhor momento. Penso na velocidade, na luz. Não deixo o que estou vendo me afetar. Vi muitos jornalistas experientes ali que não conseguiam ficar perto dos mortos. Só quando chego em casa e vou editar as imagens que me bate tudo. Ali sou eu e a imagem.
Como a gente vive em favela, se cria na comunidade, a gente está próximo disso tudo. A gente sabe quem são as pessoas que se envolvem nisso. Então, fico imaginando que poderia ser um desses se não tivesse conhecido a fotografia. É fácil entender a ilusão de quem entra nessa vida. Não tem uma estrutura que possa te resgatar ali perto, não tem uma infraestrutura do poder público que possa oferecer um caminho melhor.
O cara vê o outro andando em uma boa moto, com ouro, um monte de mulheres em volta e decide seguir esse caminho. Do mesmo jeito que a boca de fumo paga R$ 500 por semana, por que não tem um curso profissionalizante pagando esses jovens? Entra quem quer, mas eu entendo o lado de quem entra. Tem sempre o aliciamento do crime.
E depois da operação? O que você percebe que mudou tanto imediatamente quanto um ano depois?
Voltou tudo de novo. O crime organizado voltou a colocar as barricadas que os policiais tinham arrancado e a droga voltou a ser vendida no mesmo dia. Nada mudou. Ao contrário, o crime está cada vez tomando mais áreas do Rio. Não houve um recuo.
A política de enfrentamento não adianta. Entrar na favela só para matar nunca adiantou. O poder público só vê a favela através da mira do fuzil. Não vê como um local para descobrir grandes esportistas, professores, profissionais em qualquer área. O potencial a gente têm, só precisamos que essa realidade mude. Aqui se usa a segurança pública para se promover em anos eleitorais.
E entre os moradores, você nota alguma mudança desde então?
Percebi um tipo de revolta. Eles vêem as pessoas morrendo e nada mudando. Lembro que muita gente da população concordou com a operação no dia, com a expectativa de que algo iria mudar. 'Pô, não vai morrer 122 pessoas e continuar do mesmo jeito'. As pessoas se frustram, vendo que ainda têm os mesmos problemas daquele ano. Usaram essa operação como palanque eleitoral. Inclusive, o chefe da Polícia Civil, Felipe Curi usou os números dos mortos para se candidatar a deputado federal.
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