AMAZÔNIA

Estudo alerta para a conservação dos peixes amazônicos

Relatório "Peixes Esquecidos da Amazônia" mostra que 144 espécies da Bacia Amazônica estão ameaçadas e apresenta soluções para reverter esse cenário

A Bacia Amazônica concentra cerca de 15% de todas as espécies de peixes de água doce do planeta. São mais de 2.700 espécies, sendo 1.700 delas endêmicas, que nadam entre as águas brancas, negras e claras da Amazônia. Isso é o que apresenta o estudo “Peixes Esquecidos da Amazônia”, fruto da colaboração de mais de 50 especialistas e 30 organizações diferentes, divulgado pela The Nature Conservancy (TNC) no mês de setembro. 

Entre todas essas espécies, o estudo mostra que 144 estão catalogadas na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza ou em inglês International Union for Conservation Nature (IUCN). Desses peixes, 71 estão classificados como vulneráveis, 46 em perigo e 27 considerados criticamente em perigo. De acordo com os dados apresentados no relatório, nenhum peixe é considerado extinto na Amazônia, segundo a IUCN.

A principal ameaça à existência das espécies nativas da Bacia Amazônica é a degradação dos habitats. Segundo o relatório, a degradação é ocasionada principalmente pela ação humana. Construções que alteram o curso natural do rio, desmatamento, mudanças climáticas e poluição, são os principais fatores que devastam os habitats dos peixes da região.

A bióloga e autora principal do estudo, Fernanda Silva, diz que esse número pode não ser tão alarmante quando comparado com outros lagos e rios do planeta, mas é necessário ter atenção.

“A região amazônica está sofrendo diversas e crescentes ameaças. Mas quando a gente compara com outros ecossistemas do mundo (outros rios e lagos), a gente vê que a Bacia Amazônia ainda é um sistema que está mais em um estado de conservação do que de restauração. Devido aos territórios indígenas, às áreas de proteção ambiental, as comunidades locais, que de certa forma manejam e protegem os recursos, temos um número de espécies ameaçadas que ainda não representa um grande percentual. Mas é um número que precisamos ter atenção, é um número que a gente precisa cuidar e buscar reverter esse dano”, afirma a bióloga. 

Empreendimentos que devastam

O estudo alerta sobre a crescente construção de barragens e os impactos das construções nos peixes da região. No Rio Madeira, por exemplo, a construção de barragens já resultou no declínio de 70 espécies migratórias.

Um exemplo são as douradas (Brachyplatystoma rousseauxii), uma espécie única da região amazônica, que percorre mais de 11 mil quilômetros pela Bacia Amazônica durante a vida. É o maior distância percorrida por um peixe, em água doce.

O professor da Universidade Federal do Amazonas, especialista na ecologia de peixes e pesca, e participante da pesquisa, Carlos Freitas, critíca os licenciamentos ambientais que deveriam "efetivamente" considerar melhor os aspectos únicos das regiões. "Você precisa ter efetivamente cuidados sobre o local de implantação das barragens, elas precisam ser planejadas pensando não só na questão da geração de energia, mas também, do impacto ambiental que elas vão causar nos locais com hábitats únicos. Não é interessante (para as empresas), mas deveria se pensar nisso", reitera o professor.

Em nota, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) cita algumas medidas adotadas para reduzir os impactos desses empreendimentos. "Nos empreendimentos que interferem diretamente nos ambientes aquáticos, a fauna aquática é avaliada no âmbito dos estudos ambientais exigidos pelo órgão licenciador. Esses estudos podem contemplar levantamentos da composição e distribuição das espécies, abundância, períodos reprodutivos, rotas e áreas de migração, além da identificação de habitats relevantes e de espécies ameaçadas, endêmicas ou de interesse para a conservação", diz.

"No caso específico de empreendimentos hidrelétricos, são avaliadas alterações decorrentes da formação do reservatório, da modificação do regime hidrológico, da fragmentação de habitats e da operação das estruturas hidráulicas, entre outros aspectos. Ressalta-se que as medidas ambientais e os programas de monitoramento são definidos de acordo com as características do empreendimento e os impactos identificados", acrescenta o órgão.

Carlos relembra o impacto da construção da hidrelétrica de Belo Monte, na Volta Grande do Xingu e na vida do Acari-Zebra (Hypancistrus-zebra), um cascudo nativo da região que hoje está classificado como criticamente em perigo, segundo a IUCN. 

“Alguns cascudos desenvolveram a estratégia de vida e se adaptaram a viver nas cachoeiras dos pedrais que haviam na Volta Grande do Xingu, e com a construção da barragem de Belo Monte, parte do fluxo natural da água (80%) foi desviado para abastecer o reservatório. Essa redução fez com que alguns desses pedrais ficassem descobertos e reduziu muito a área de vida necessária para essas espécies, e por isso elas estão ameaçadas de extinção. Grandes obras na Amazônia elas não podem ter essa visão puramente utilitarista, elas precisam ter considerações mais amplas”, reflete o biólogo.


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Divulgação / Peixes Esquecidos da AmazÎnia / Leandro Sousa -

 

A importância dos peixes

Os peixes alimentam a cultura, a economia e a barriga de milhões de pessoas, ao mesmo tempo em que possuem um papel fundamental para a manutenção e regulação de todo o ecossistema amazônico. Eles transportam nutrientes, dispersam sementes e contribuem para a regeneração das florestas inundadas. 

Divulgação / Peixes Esquecidos da Amazônia / Andre Dib - A pesca está culturalmente enraizada na Amazônia

O estudo aponta que algumas comunidades ribeirinhas ultrapassam o consumo de 600 gramas de peixe por pessoa diariamente, se estabelecendo como a principal fonte de proteína da região. Esses animais também são o meio de subsistência de milhões de pessoas. De pescadores, comerciantes a negócios turísticos, a economia da pesca está enraizada na sociedade amazônica, mas ainda apresenta algumas dificuldades de monitoramento. 

Fernanda conta que teve dificuldade para encontrar dados sobre a pesca na região. Levantamentos sobre quantas pessoas dependem financeiramente da pesca na Amazônia, quantas trabalham com pesca ornamental, quantas trabalham com pesca comercial, ou mesmo quantas pessoas dependem da pesca só para subsistência, eles não encontraram. Mas realizaram compilação com a base de dados de pesquisas da região.

“Não encontramos dados muito robustos. Então a gente não sabe quantos peixes são pescados na Amazônia. O que apresentamos foi uma compilação de diversos pesquisadores que tinham ali suas bases de dados, mas que não é um levantamento de pesca mesmo, executado pelo governo de um monitoramento a longo prazo”, lamenta a bióloga.

Para ela, a falta desses dados é uma perda da valorização econômica da atividade. “A gente perde a oportunidade econômica de investir às vezes em uma cadeia produtiva que tem uma importância econômica grande que não estamos enxergando”, reflete a bióloga.

No entanto, o estudo mostra que dois dos principais portos da Amazônia brasileira, Manaus e Santarém, recebem cerca de 22-25 mil e 5 mil toneladas de peixes por ano, respectivamente. E estima-se que 60% a 70% dos peixes são consumidos localmente.

Soluções

O relatório alerta que a janela para evitar perdas irreversíveis está se fechando e ações coordenadas nos níveis local, nacional e internacional são urgentes. A pesquisa apresenta o Plano Emergencial de Recuperação, desenvolvido por 25 autores de 14 organizações, que reúne seis ações prioritárias para orientar respostas em políticas públicas voltadas a reverter a perda de biodiversidade.

Entre elas estão, permitir que os rios fluam naturalmente; proteger e restaurar a conectividade dos ecossistemas de água doce; interromper práticas insustentáveis de exploração de recursos; proteger e restaurar habitats e espécies críticos; prevenir e controlar a invasão de espécies não nativas; melhorar a qualidade das água nos ecossistemas de água doce.

Segundo o estudo, a pesca não predatória (pesca esportiva) é muito procurada devido aos peixes únicos da região. Carlos defende que essa modalidade pode, com o turismo, fomentar a economia e a preservação da região.

“As populações que vivem no interior da Amazônia, elas precisam ter renda, precisam ter melhoria de qualidade de vida. E a pesca esportiva na modalidade de pesca e solta, tem um um potencial de gerar renda, de gerar impostos, porque é uma atividade, em geral, praticada por pessoas de um certo poder econômico de médio para alto. Então é uma atividade com potencial de desenvolvimento. Existem espécies aqui, como o tucunaré, que são muito apreciadas por pescadores do mundo inteiro”, conta o especialista em peixes e pesca.

O professor também defende a criação de uma Taxa de Preservação Ambiental para pescar na Bacia Amazônica. “Existe um serviço ecossistêmico, o serviço ambiental associado a pesca esportiva. Então você poderia criar alguma taxa pelos serviços ambientais fornecidos pelo ambiente amazônico para pesca esportiva. Só existe a modalidade porque tem o tucunaré e muitos pescadores que vêm, não vêm apenas pelo tucunaré, mas também com a ideia de pescar num ambiente preservado, em um ambiente ainda íntegro”, afirma Carlos.

O estudo

O levantamento é a quarta edição da pesquisa “Forgotten Fishes” realizada pela WWF, em parceria com a TNC e outras instituições. O primeiro relatório divulgado em 2021, “The World 's Forgotten Fishes”, mostrou que um terço de todas as espécies de peixes de água doce correm risco de extinção.

*Estagiário sob supervisão de Aline Gouveia

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