
Três sítios que preservam diferentes capítulos da história da população negra no Brasil passaram a integrar uma iniciativa internacional dedicada à memória da escravidão e da resistência ao sistema escravista. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) anunciou, na última sexta-feira, a inclusão de locais no Rio de Janeiro, na Bahia e em Alagoas na Rede de Lugares de História e Memória relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas.
Os novos integrantes são o Cais do Valongo, na capital fluminense; a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador; e a Serra da Barriga, em União dos Palmares. Embora tenham trajetórias distintas, os locais ajudam a compreender tanto a violência da escravização quanto as formas de organização, solidariedade e resistência construídas pela população negra ao longo da história brasileira.
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A Diretora e Representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, disse ao Correio que a inclusão dos sítios representa um importante reconhecimento internacional de seu valor histórico e de sua contribuição para a preservação da memória da escravidão e da resistência da população negra. "Mais do que reconhecer o passado, a iniciativa busca contribuir para que essa memória seja transmitida às novas gerações. A inclusão desses locais na Rede permite honrar e transformar lugares de memória em espaços vivos de conhecimento, diálogo intercultural e promoção dos direitos humanos", apontou.
Para o professor de história Natanael Pires, o órgão internacional tem um papel importante na preservação da história e do patrimônio. De acordo com ele, ao tombar esses locais, é permitido que toda uma história geracional permaneça preservada de redes privadas.
"Nós temos que entender que esses sítios, uma vez protegidos pela Unesco, servem como objetos historiográficos até derramar as próximas gerações. Sendo assim, eles auxiliam na memória daqueles que vieram na época da escravidão. Então, nós temos sempre que lembrar que, se eu preservo o passado, as gerações que estão agora, no presente momento, e aquelas que irão aparecer no futuro, nunca irão esquecer de toda uma trajetória, principalmente uma trajetória que esteja ligada à formação do povo brasileiro, que, no caso, é o negro", refletiu.
No Rio de Janeiro, o Cais do Valongo conserva vestígios de um dos principais locais de chegada de africanas e africanos escravizados às Américas. Reconhecido como patrimônio mundial pela Unesco desde 2017, o sítio arqueológico constitui um testemunho material do tráfico transatlântico e da dimensão que a escravidão alcançou no país. A memória da resistência também está presente na Serra da Barriga, em Alagoas, onde se encontra o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. O território guarda a história de uma das mais importantes experiências de enfrentamento ao regime escravista no Brasil, tornando-se uma referência da luta da população negra pela liberdade.
Já em Salvador, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa outra dimensão dessa trajetória. Sua história, iniciada no século 19, está associada à criação de redes de apoio e solidariedade entre pessoas negras, demonstrando a importância da organização coletiva diante das desigualdades e das consequências da escravidão.
Para o professor de história do Brasil da Rio International School Danilo Costa, os três territórios ajudam a compor a história da população negra no Brasil, das mulheres e dos homens negros que fizeram parte da nossa história. Costa acredita que isso ocorra por vertentes distintas, já que o Cais do Valongo apresenta a maneira pela qual as pessoas escravizadas chegaram ao porto do Rio de Janeiro.
"O quilombo, por sua vez, representa uma forma mais aguerrida de resistência. As pessoas escravizadas, ao não aceitarem as condições que lhes eram impostas, fugiam para esses territórios. Já as irmandades, como a Sociedade Protetora dos Desvalidos, atuavam por outras vertentes, constituindo, também, formas de resistência à escravidão", ressaltou.
Preservação e educação
O reconhecimento amplia a presença brasileira na rede internacional criada pela Unesco em 2024. A iniciativa reúne lugares associados à escravidão e ao tráfico de pessoas escravizadas, com o objetivo de assegurar a preservação desses espaços e estimular a transmissão de suas histórias às novas gerações. Além da proteção da memória, o projeto incentiva a troca de experiências entre os participantes e o desenvolvimento de atividades educativas, especialmente aquelas que envolvem as comunidades ligadas aos territórios reconhecidos.
O Brasil já contava com três instituições na iniciativa: o Museu da Inconfidência, em Minas Gerais, o Museu Casa da Hera e o Museu da República, ambos no Rio de Janeiro. Com as novas inscrições, o país passa a ter seis representantes na rede.
O historiador e arqueólogo André Moura explica que o reconhecimento global na rede consolida salvaguardas jurídicas e patrimoniais contra o negacionismo histórico e o desmonte de políticas públicas, convertendo esses territórios em dispositivos pedagógicos vitais que conectam as estruturas do racismo contemporâneo às suas raízes coloniais e imperiais, premissa indispensável para qualquer debate sério sobre reparação histórica e justiça social.
"Ao chancelar conjuntamente a infraestrutura mercantil da desumanização no Cais do Valongo, a soberania territorial radical na Serra da Barriga e o associativismo urbano na Sociedade Protetora dos Desvalidos, a Unesco valida o protagonismo político da população afro-diaspórica, superando de vez a leitura reducionista que restrinja o negro ao papel de vítima passiva", destacou. A apresentação das candidaturas nacionais é coordenada pelas Comissões Nacionais para a Unesco. No caso brasileiro, essa atribuição cabe ao Ministério das Relações Exteriores, responsável pela articulação do país com a organização internacional.
Em nota do Itamaraty, o governo brasileiro comemorou a inclusão dos três locais e destacou a importância do reconhecimento para a preservação da memória histórica. Segundo o MRE, a medida também busca valorizar as experiências de resistência da população negra e fortalecer iniciativas de educação que permitam às novas gerações conhecer as consequências da escravidão e o papel daqueles que lutaram contra ela.
Ao Correio o embaixador Marco Antonio Nakata, diretor do Instituto Guimarães Rosa e porta-voz do MRE, afirma que a inclusão dos sítios na Rede da Unesco ajuda a dar maior visibilidade internacional a esses espaços e abre novas oportunidades de cooperação com instituições de outros países que compartilham essa história. "O Cais do Valongo, a Sociedade Protetora dos Desvalidos e a Serra da Barriga são sítios fundamentais para compreender e valorizar a história da escravidão e da resistência da população negra no Brasil", completou o diplomata.
*Estagiário sob a supervisão de Victor Correia
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