Às margens da Baía de Todos-os-Santos, no Recôncavo Baiano, Salvador é a cidade que fundou o Brasil tal como o conhecemos. Erguida em 29 de março de 1549 pelo primeiro governador-geral Tomé de Sousa por ordem de Dom João III, foi a capital do país até 1763, quando o posto migrou para o Rio de Janeiro. Guarda o Pelourinho, considerado o maior conjunto arquitetônico colonial da América Latina e Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) desde 1985, quatro patrimônios imateriais brasileiros registrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e um Carnaval que virou o maior do mundo em quantidade de foliões nas ruas.
De 1549 a 1763: a capital que fundou o Brasil
A fundação teve data e assinatura. Em 29 de março de 1549, o fidalgo português Tomé de Sousa desembarcou na entrada da Baía de Todos-os-Santos com a missão de erguer a primeira cidade planejada da colônia portuguesa nas Américas. A ordem vinha diretamente de Lisboa, do rei Dom João III, e Salvador nasceu como capital administrativa, econômica e religiosa do Brasil Colônia. Assim permaneceu por 214 anos, até 1763, quando o poder político foi transferido para o Rio de Janeiro no auge do ciclo do ouro mineiro.
A topografia moldou o traçado urbano. A cidade foi construída em dois planos naturais separados por 72 metros de desnível: a Cidade Alta, onde ficavam os poderes religioso, administrativo e residencial, e a Cidade Baixa, área portuária e comercial. Segundo o Climatempo, a divisão ainda organiza o turismo hoje. Na parte alta se concentram Pelourinho, Catedral e Palácio Rio Branco. Na parte baixa, o Mercado Modelo, a Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição da Praia e o porto. A conexão histórica se faz pelo Elevador Lacerda ou pelo Plano Inclinado Gonçalves.

Pelourinho: 80 hectares de barroco tombados pela UNESCO
O centro histórico de Salvador foi tombado pelo IPHAN e reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1985, uma das primeiras cidades brasileiras a receber a chancela internacional. A área tombada abrange cerca de 80 hectares e constitui o maior conjunto arquitetônico colonial da América Latina. Ruas de pedra, casarões coloridos dos séculos XVII e XVIII, largos e igrejas barrocas formam um cenário quase intacto do período colonial, protegido por processos contínuos de restauração pública e privada.
O bairro é também o principal palco cultural da cidade. Em fevereiro de 1996, o cantor norte-americano Michael Jackson gravou o clipe da música They Don’t Care About Us no Largo do Pelourinho, acompanhado dos tambores do Olodum. O vídeo, dirigido por Spike Lee, rodou o mundo e reposicionou o bairro no mapa turístico internacional. O Olodum, bloco afro e grupo cultural nascido no próprio Pelourinho, se firmou como um dos símbolos do samba-reggae baiano, com ensaios abertos ao público que atraem milhares de visitantes toda semana.
A capital negra do Brasil: 4 patrimônios imateriais
Salvador foi o principal porto de entrada da maior população africana escravizada das Américas, e essa herança moldou a cidade em todos os sentidos. A cultura afro-brasileira está presente na música, na religião, na culinária, no ritmo das ruas e nas manifestações populares que fazem do centro histórico um palco vivo. Segundo o Correio de Minas, a Bahia guarda quatro dos bens imateriais registrados como Patrimônio do Brasil pelo IPHAN, todos com raízes em Salvador.
São eles a Festa do Senhor do Bonfim, celebrada na segunda quinta-feira depois do Dia de Reis com o famoso ritual das baianas lavando as escadarias do santuário; o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2005; o Ofício das Baianas de Acarajé, registrado como saber tradicional; e a Roda de Capoeira, reconhecida pela UNESCO em 2014. Terreiros de candomblé centenários, muitos deles também tombados como patrimônio, mantêm vivas as tradições religiosas trazidas pelos africanos ainda no século XVI.
O que fazer em Salvador?
A cidade é grande e diversa. Um roteiro completo pede pelo menos cinco dias, com atrações no centro histórico, na orla oceânica e na Baía de Todos-os-Santos. Boa parte dos cartões-postais fica em raio curto do Pelourinho.
- Pelourinho: coração histórico de Salvador, com ruas de pedra, casarões coloridos, igrejas barrocas e ensaios abertos do Olodum às terças-feiras e domingos.
- Igreja e Convento de São Francisco: interior recoberto por talha dourada, considerada uma das mais ricas obras do barroco brasileiro no centro histórico.
- Elevador Lacerda: cartão-postal com 72 metros de altura que liga a Cidade Alta à Cidade Baixa desde 1873, com vista privilegiada da Baía de Todos-os-Santos.
- Farol da Barra: forte histórico que abriga o Museu Náutico da Bahia, com uma das vistas de pôr do sol mais celebradas do país.
- Basílica Santuário do Senhor do Bonfim: templo mais visitado da cidade, ponto de partida das famosas fitinhas coloridas e da Festa do Bonfim em janeiro.
- Santuário Santa Dulce dos Pobres: dedicado à primeira santa brasileira, canonizada pelo Papa Francisco em 2019, no bairro do Bonfim.
- Mercado Modelo: centro comercial na Cidade Baixa com dezenas de bancas de artesanato, culinária regional e roda de capoeira ao ar livre.
- Baía de Todos-os-Santos: maior baía navegável do Brasil, com passeios de escuna que passam pelas ilhas de Itaparica e Boipeba.
30 km de praias urbanas: do Porto da Barra a Itapuã
Além do patrimônio histórico, Salvador guarda cerca de 30 km de praias urbanas que se estendem do centro até o extremo norte da cidade. A variedade de perfis atende diferentes tipos de visitantes, desde os banhistas que preferem águas calmas do lado da Baía até os surfistas que buscam ondas fortes no litoral oceânico.
- Porto da Barra: praia urbana mais famosa da cidade, com águas calmas da Baía de Todos-os-Santos e pôr do sol emoldurado pelos fortes coloniais.
- Praia do Farol da Barra: continuação da orla com águas mais agitadas, ao pé do Farol da Barra e do Forte de Santo Antônio.
- Praia do Flamengo: quilômetros de areia branca com águas transparentes, mais afastada do centro e menos movimentada.
- Praia de Itapuã: eternizada por Vinicius de Moraes e Toquinho na canção “Tarde em Itapuã”, com barracas simples e coqueirais.
- Praia de Stella Maris: uma das mais premiadas da cidade, com ondas fortes procuradas por surfistas e infraestrutura consolidada.
- Praia do Forte: fora do município a 80 km de Salvador, com piscinas naturais formadas por recifes e a sede do Projeto Tamar.
O que se come na Bahia?
A gastronomia baiana carrega influências africanas, portuguesas e indígenas em pratos que combinam dendê, coco e pimenta. Restaurantes tradicionais, barracas de baiana e casas modernas convivem em todos os cantos da cidade.
- Acarajé: bolinho de feijão-fradinho frito no azeite de dendê, recheado com vatapá, camarão seco e pimenta, patrimônio imaterial do Brasil.
- Moqueca baiana: ensopado de peixe ou camarão com leite de coco, dendê e pimenta, servido na tradicional panela de barro do Recôncavo.
- Vatapá: creme grosso de pão, camarão seco, castanhas, amendoim, dendê e leite de coco, servido como acompanhamento ou recheio do acarajé.
- Bobó de camarão: creme de mandioca com camarões, leite de coco e dendê, um dos pratos mais completos da cozinha baiana.
- Cocada e cartola: doces tradicionais servidos em barracas de rua, com destaque para a cartola de banana frita com queijo coalho, açúcar e canela.
Leia também: A 2ª maior praça urbana do mundo, na capital de apenas 36 anos que virou a 7ª melhor para se viver no país.
Como chegar a Salvador
O Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães é o principal acesso, com voos diários das principais capitais brasileiras e conexões internacionais para Portugal, Argentina, Estados Unidos e outros destinos. Fica a cerca de 30 km do centro histórico, com acesso por táxi, aplicativos de transporte, transfer ou ônibus urbano. Por rodovia, a cidade é atendida pela BR-324, ligando à Feira de Santana e ao interior baiano, e pela BR-116, que corta o Brasil no eixo Norte-Sul. Salvador integra o roteiro do litoral norte baiano com Praia do Forte, Costa do Sauípe, Mangue Seco e a Chapada Diamantina no interior.
A primeira capital do Brasil
Salvador entrega o que quase nenhum destino brasileiro reúne. A primeira capital do país, um centro histórico com 80 hectares tombados pela UNESCO, o maior conjunto arquitetônico colonial da América Latina, quatro patrimônios imateriais registrados pelo IPHAN e uma orla oceânica com 30 km de praias que se estende de Porto da Barra a Itapuã. A cidade que serviu de trilha sonora para Michael Jackson no clipe mais visto do Pelourinho e ainda hoje concentra a alma afro-brasileira do país.
Você precisa conhecer Salvador num fim de semana de setembro, tomar um acarajé com uma baiana no Pelourinho e assistir ao pôr do sol no Farol da Barra para entender por que a capital baiana virou o principal destino cultural do Nordeste do Brasil.



