A poucos minutos de Porto Alegre, Novo Hamburgo guarda um enxaimel de 1830 tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e um casarão neoclássico com mais de 400 obras de um único pintor. A Capital Nacional do Calçado esconde recordes que quase ninguém fora do Rio Grande do Sul conhece.
A casa de 1830 que virou o primeiro enxaimel tombado do país
A Casa Schmitt-Presser, no bairro Hamburgo Velho, foi erguida por volta de 1830 pelo comerciante alemão Johann Peter Schmitt. Ali funcionava uma das mais importantes vendas do Vale do Rio dos Sinos, ponto de encontro entre colonos que vinham do sul e tropeiros que desciam da serra.
O IPHAN reconhece que a casa foi o primeiro imóvel em técnica enxaimel tombado como patrimônio nacional, em 1985. A técnica encaixa vigas de madeira com preenchimentos de pedra e taipa de mão, herança direta da Alemanha do século XIX. Hoje o imóvel abriga o Museu Comunitário Casa Schmitt-Presser, com acervo doado por moradores da região.

Uma pinacoteca de porte europeu no interior gaúcho
A uma rua da Schmitt-Presser, um casarão neoclássico de 1890 abriga a Fundação Ernesto Frederico Scheffel. Segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, o espaço é uma das maiores pinacotecas do mundo dedicadas a um só artista, com mais de 400 obras distribuídas em três andares.
O pintor Ernesto Frederico Scheffel nasceu em Campo Bom, ao lado de Novo Hamburgo, e viveu quase cinco décadas em Florença. Em 1974, ao voltar ao Brasil para o sesquicentenário da imigração alemã, encontrou o velho casarão em estado precário e articulou sua preservação. A fundação foi inaugurada em 1978 e reúne pinturas, esculturas, desenhos e partituras. O acervo é tombado pelo IPHAN e a entrada é gratuita.
Um museu do calçado com sandálias que vieram da Grécia antiga
Se o mundo calçou sapato brasileiro nos anos 1980, boa parte saiu de Novo Hamburgo. Não à toa, a cidade abriga um museu único no país. O Museu Nacional do Calçado (MNC) foi criado em 20 de outubro de 1998 pelo decreto do então prefeito José Airton dos Santos e é mantido pela Universidade Feevale.
O acervo reúne peças que vão de sandálias gregas antigas a calçados que remontam ao século XII, cruzando a evolução do sapato com a história industrial do país. Uma parte do material chegou a integrar mostras internacionais, como a FRANCAL 2000, em São Paulo. A entrada é gratuita e o museu funciona no campus da Feevale, em Hamburgo Velho.
Como o Morro dos Hamburgueses virou cidade
Antes da emancipação, o território pertencia a São Leopoldo e era conhecido como Hamburger Berg, o Morro dos Hamburgueses. Segundo o IPHAN, o nome vem dos primeiros colonos alemães que se instalaram na região a partir de 1824, muitos deles vindos da cidade de Hamburgo. Com o tempo, o vilarejo cresceu e o núcleo original passou a ser chamado de Hamburgo Velho.
Segundo a Prefeitura de Novo Hamburgo, a emancipação aconteceu em 5 de abril de 1927, quando o então Segundo Distrito de São Leopoldo se tornou município autônomo. Em 2015, o IPHAN tombou o Centro Histórico de Hamburgo Velho, um conjunto de cerca de 70 imóveis que preserva técnicas raras como o enxaimel, o estilo neoclássico, o art déco e o frontão recortado, este último desenvolvido exclusivamente na região no início do século XX.
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A cidade que ainda dita o ritmo da indústria calçadista
A crise dos anos 1990 fechou fábricas e mudou o mapa econômico, mas Novo Hamburgo continua no centro do setor. A cidade sedia a Feira Internacional de Couros, Produtos Químicos, Componentes, Máquinas e Equipamentos para Calçados e Curtumes (FIMEC), uma das mais importantes do mundo no ramo coureiro-calçadista, e a Feira Loucura por Sapatos, referência do varejo nacional.
O Vale do Sinos concentra até hoje curtumes, fábricas de componentes, escolas técnicas e escritórios de design. A Rua Magalhães Calvet, no centro, virou endereço de peregrinação para quem busca calçado a preço de fábrica. É difícil andar pela cidade sem esbarrar em vitrine de sapato.
Vale a viagem para conhecer Novo Hamburgo
Novo Hamburgo reúne, em poucos quarteirões, o primeiro enxaimel tombado do país, uma pinacoteca de nível internacional e o único museu brasileiro dedicado à história do calçado. Poucas cidades gaúchas concentram tantos recordes silenciosos em tão pouco espaço.
Você precisa reservar um dia inteiro para caminhar por Hamburgo Velho e entender por que essa cidade calçou o Brasil sem nunca perder o sotaque alemão.




