Quando o governo federal decidiu descentralizar a pesquisa agropecuária, precisou escolher onde começar. A escolha recaiu sobre Passo Fundo, no Planalto Médio do Rio Grande do Sul, cidade que já reunia lavouras de trigo e uma estação experimental em funcionamento. Cinco décadas depois, o que sai dali chega a lavouras de todo o país.
Por que a Embrapa escolheu Passo Fundo para sua primeira unidade descentralizada?
Porque a estrutura de pesquisa já existia no lugar. Conforme a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Embrapa Trigo foi instalada em 1974 com o objetivo de reduzir a dependência brasileira da importação do cereal, e foi a primeira unidade da empresa fora da capital federal.
A raiz do trabalho é bem anterior. Uma Estação Experimental de Trigo foi criada por lei federal em 1937 e inaugurada em 1940, com a presença de Getúlio Vargas. Em 1969, ela foi transferida para os arredores de Passo Fundo, às margens da BR-285, e essas instalações passaram a abrigar, em 28 de outubro de 1974, o Centro Nacional de Pesquisa de Trigo, inaugurado com a presença do então presidente Ernesto Geisel.

O que saiu dos laboratórios de trigo do Planalto Médio?
Saíram 228 cultivares, e a maior parte nem é de trigo. Segundo a Embrapa Trigo, o centro gerou 128 cultivares de trigo, 41 de soja, 28 de cevada, 18 de triticale, 4 de aveia e 3 de centeio, além de milho, feijão e ervilha forrageira.
O efeito aparece no rendimento das lavouras. A produtividade partiu de cerca de 500 quilos por hectare nos anos 1970 para uma média de 3 mil quilos nos anos 2000, e a fatia da demanda nacional atendida pela produção interna passou de 30% no início dos anos 2000 para 83% na safra de 2022, conforme a Embrapa. A unidade mantém áreas experimentais em Passo Fundo e em Coxilha.
O que mais coloca a cidade gaúcha no mapa nacional?
Um título que nenhuma outra cidade brasileira tem. Segundo a Universidade de Passo Fundo (UPF), o município é Capital Nacional da Literatura pela Lei nº 11.264, de 2006, e Capital Estadual da Literatura pela Lei nº 12.838, de 2007.
O reconhecimento veio de um evento criado em 1981 pela universidade em parceria com a prefeitura. A Jornada Nacional de Literatura é bienal, já passou da 15ª edição e está entre as maiores movimentações literárias da América Latina, reunindo escritores, pesquisadores e leitores. Herança parecida sustenta outra cidade gaúcha que virou vitrine cultural, também no interior do estado.
O que visitar em Passo Fundo?
A cidade concentra os atrativos em praças e espaços públicos do centro, confira abaixo os pontos que costumam abrir o roteiro:
- Largos da Literatura: praças com letras gigantes como mobiliário urbano, resultado direto do título nacional.
- Marco da Capital Nacional da Literatura: monumento na Praça Armando Sbeghen, às margens do rio que dá nome à cidade.
- Parque da Gare: área verde central, ligada à memória ferroviária que consolidou a cidade como entreposto do planalto.
- Feira do Livro: evento anual que ocupa o centro e mantém a agenda literária fora dos anos de Jornada.
- Vitrine de tecnologias da Embrapa Trigo: área de demonstração da unidade, usada em dias de campo abertos ao público técnico.

Como é o clima de Passo Fundo ao longo do ano?
A chuva se espalha pelos doze meses e é o frio que separa as estações no planalto. Entre a mínima média de julho e a máxima de janeiro a diferença chega a dezoito graus, veja abaixo como o ano se comporta:
Médias climatológicas de 30 anos publicadas pelo Climatempo. As condições variam de um ano para o outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de viajar.
A cidade que decide o que o Brasil planta no inverno
Passo Fundo reúne uma combinação improvável: o centro de pesquisa que definiu o padrão do trigo brasileiro e um título literário que nenhuma outra cidade do país carrega. As duas coisas nasceram da mesma lógica, a de um lugar médio no interior que resolveu concentrar o que sabia fazer melhor.
Você precisa passar alguns dias em Passo Fundo e entender como uma cidade do planalto gaúcho influencia a lavoura e a leitura do país inteiro.




