Uma vila fundada em 1535 concentrou tanto ouro e talha barroca que chegou a ser chamada de pequena Lisboa no Brasil Colônia. Olinda guarda 22 igrejas históricas, o primeiro convento franciscano do país e um altar-mor que ficou exposto no Museu Guggenheim de Nova York.
Do ouro colonial aos títulos papais em Olinda
A cidade foi fundada em 12 de março de 1535 pelo donatário Duarte Coelho. Escolhida como sede da Capitania de Pernambuco, uma das mais ricas do Brasil Colônia, virou o principal centro religioso do Nordeste ainda no século XVI.
Nas colinas voltadas para o Oceano Atlântico, ordens religiosas dividiram terrenos e ergueram templos. Beneditinos, franciscanos, carmelitas e jesuítas competiram em riqueza artística, o que hoje se traduz em um dos maiores acervos de arte sacra colonial do país, com 22 igrejas históricas dentro do Centro Histórico tombado.
O reconhecimento internacional veio em 1982, quando a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) inscreveu Olinda como Patrimônio Mundial da Humanidade. Foi a primeira cidade brasileira a receber o título, e o segundo centro histórico do país nessa lista, atrás apenas de Ouro Preto, em Minas Gerais.

O altar-mor que Nova York quis exibir
O Mosteiro de São Bento, concluído em 1599, é a segunda instalação beneditina do Brasil. Segundo a Arquidiocese de Olinda e Recife, o conjunto arquitetônico foi elevado a Basílica Menor pelo Papa João Paulo II em 1998, através da Carta Apostólica Spectabile quidem.
O altar-mor tem madeira revestida em ouro, com influência barroca, neoclássica e rococó. Em 2001, foi totalmente desmontado e restaurado pela Fundação Joaquim Nabuco. No ano seguinte, cruzou o continente e ficou exposto no Museu Guggenheim, em Nova York, levando a arte sacra pernambucana a um dos palcos mais prestigiados do mundo.
A sacristia é a mais rica de todas as igrejas de Olinda, com talhas douradas, espelhos de cristal e painéis com cenas da vida de São Bento, segundo a Prefeitura de Olinda. O prédio ainda abrigou por 24 anos a primeira Escola de Direito do Brasil, fundada em 11 de agosto de 1811. Aos domingos, a missa é celebrada com canto gregoriano às 10h.
O que visitar entre as igrejas do centro histórico?
O roteiro sacro combina barroco, azulejaria portuguesa e talha dourada em um raio caminhável. As igrejas se distribuem entre o Alto da Sé, o Varadouro e o Carmo, com paradas curtas entre uma e outra.
- Convento de São Francisco: primeiro convento franciscano do Brasil, construído em 1585 pelo frei Francisco dos Santos. Reúne a Capela de São Roque, a Capela de Santana e a Igreja de Nossa Senhora das Neves, com azulejos portugueses originais e teto em talha do século XVIII.
- Basílica e Mosteiro de São Bento: templo com o altar-mor que viajou aos Estados Unidos e canto gregoriano nas missas dominicais. Visitação aberta todos os dias, das 9h às 11h45 e das 14h às 17h.
- Igreja da Sé: também chamada de Matriz de São Salvador do Mundo, é a mais antiga da cidade. Foi originalmente erguida em taipa por Duarte Coelho, no ponto mais alto da vila, servindo também de observatório contra ataques inimigos.
- Igreja do Carmo: construída em 1580 como Capela de Santo Antônio e São Gonçalo, é a mais antiga da Ordem dos Carmelitas nas Américas. Reconstruída no estilo barroco em 1720, depois da invasão holandesa.
- Igreja da Misericórdia: reconstruída em 1654 no estilo barroco, tem púlpito em talha dourada com as insígnias da Casa D’Áustria e forro com painéis pintados representando Nossa Senhora da Misericórdia.
- Igreja de Nossa Senhora do Desterro: construída no século XVII pelo general João Fernandes Vieira, após a vitória sobre os holandeses na Batalha dos Montes das Tabocas, em 1645. Combina estilos maneirista e barroco.

Detalhes que só se veem de perto
Cada templo guarda uma história por trás da pedra e do ouro. No Mosteiro de São Bento, o Cristo Crucificado em tamanho natural fica de costas para a capela-mor. A posição incomum tem uma explicação triste, segundo a Prefeitura: os escravizados não podiam entrar na igreja, e a imagem foi virada para permitir que eles vissem o Cristo do lado de fora.
A Igreja de São Sebastião, construída em 1686, foi erguida em agradecimento pelas graças alcançadas durante uma epidemia de cólera que atingiu o país. Já a Igreja do Carmo perdeu seu maior sino em 1630, quando as tropas holandesas o derreteram para fabricar armamentos militares.
Os azulejos portugueses do Convento de São Francisco são os originais do século XVIII, com trabalhos em talha e pintura ilusionista perspectivada, técnica desenvolvida pelo jesuíta Andrea Pozzo na Europa e reproduzida por artistas locais.
Onde comer e descansar entre as visitas
O roteiro barroco cabe em um dia, mas exige pausas. Os pontos gastronômicos ficam entre uma igreja e outra e servem a culinária pernambucana em versão tradicional.
- Tapioca do Alto da Sé: barraquinhas históricas em frente à catedral, com recheios doces e salgados servidos desde a manhã até o fim da tarde.
- Bolo de rolo: doce clássico pernambucano com camadas finíssimas de massa e goiabada, servido em cafés e confeitarias do centro histórico.
- Caldinho de sururu: sopa quente do pequeno molusco típico do litoral, servida como aperitivo nos bares próximos ao Mercado da Ribeira.
- Peixada pernambucana: peixe fresco com leite de coco e coentro, servido nos restaurantes do Carmo e do Varadouro.
- Cachaça de Olinda: destilarias artesanais oferecem degustação em antigos casarões coloniais no centro.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
Olinda tem clima tropical úmido, com calor o ano inteiro. O verão é mais seco, ideal para percorrer as ladeiras íngremes do centro histórico. Entre abril e julho, as chuvas se intensificam e o passeio pelas igrejas cabertas ganha vantagem.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade patrimônio saindo do Recife?
Olinda fica a 15 km do centro de Recife, com trajeto de 20 minutos pela Avenida Governador Agamenon Magalhães. O Aeroporto Internacional do Recife/Guararapes recebe voos diretos de todo o país e do exterior, a 25 km do centro histórico.
Ônibus urbanos ligam as duas cidades ao longo do dia. Aplicativos e táxis são a opção mais prática para chegar direto ao Alto da Sé, ponto inicial do roteiro barroco.
As igrejas que viram o Brasil nascer
A cidade guarda em pedra, ouro e talha os primeiros passos do catolicismo brasileiro. Poucos lugares do país reúnem tantas ordens religiosas, tanta arte barroca e uma quantidade tão concentrada de conventos históricos em ruas caminháveis.
Você precisa conhecer Olinda e caminhar pelas mesmas ladeiras onde beneditinos, franciscanos e carmelitas ergueram o maior conjunto sacro colonial do Nordeste.









