Poucas paisagens brasileiras contêm tanto tempo geológico num só bloco. O Monte Roraima, no extremo norte do estado de Roraima, é um platô de rocha arenítica com 2.875 metros de altitude que marca a tríplice fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana. Sua formação começou no Pré-Cambriano, antes mesmo do surgimento da vida complexa na Terra, e o cume, esculpido pela erosão ao longo de bilhões de anos, virou uma das expedições de trekking mais desejadas da América do Sul.
Por que o Monte Roraima é considerado uma das formações mais antigas do planeta?
Porque nasceu no Escudo das Guianas, uma das estruturas geológicas mais antigas do mundo. O topo pertence ao chamado Grupo Roraima, formado por camadas de arenito depositadas há cerca de 1,8 bilhão de anos. Ao longo desse período, o vento e a chuva esculpiram um mesetão de topo plano com paredes verticais de mais de 400 metros, deixando visíveis apenas os relevos residuais mais resistentes.
Essa formação é chamada de tepui, palavra da língua pémon que significa “casa dos deuses”. O Roraima é o tepui mais alto e famoso de um conjunto de mais de 100 formações espalhadas pela Serra do Pacaraima e por regiões vizinhas. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a região está totalmente inserida em floresta amazônica, o que cria um contraste raro: uma montanha plana de arenito emergindo da savana e da mata tropical.

Como o Parque Nacional protege o lado brasileiro da montanha?
Com uma unidade de conservação criada há mais de três décadas. Segundo o ICMBio, o Parque Nacional do Monte Roraima foi criado pelo Decreto nº 97.887, de 28 de junho de 1989. A unidade tem 116 mil hectares e está totalmente localizada no município de Uiramutã, com limite norte na fronteira com a Venezuela e a Guiana.
O parque tem um regime jurídico único no país. Está 100% sobreposto à Terra Indígena Raposa Serra do Sol, o que gerou o modelo de dupla afetação, criado pelo Decreto Presidencial de 15 de abril de 2005. Nele, o território é ao mesmo tempo unidade de conservação federal e terra indígena, administrado em conjunto pela FUNAI, pelo ICMBio e pela Comunidade Indígena Ingarikó. Para os povos Ingarikó, Macuxi e Pémon, o monte é conhecido como Casa de Macunaíma, o herói lendário das mitologias indígenas do norte da América do Sul.
Como o Monte Roraima está dividido entre três países?
Com a maior parte do platô fora do Brasil. A tríplice fronteira corta o topo da montanha em três porções desiguais: cerca de 85% na Venezuela, 10% na Guiana e apenas 5% em território brasileiro. É essa distribuição que explica por que o trekking oficial até o cume é feito exclusivamente pelo lado venezuelano.
Do lado brasileiro, o parque nacional não possui trilhas oficiais nem infraestrutura de visitação, tratando-se de área remota, isolada e sensível pela sobreposição com a terra indígena. Do lado venezuelano, a montanha integra o Parque Nacional Canaima, criado em 1962 e reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1994. Com 30 mil km², o Canaima é o sexto maior parque nacional do mundo.

Como é o trekking até o topo do Monte Roraima?
Uma das expedições mais desafiadoras do continente. O trajeto clássico dura em média 6 a 8 dias, com aproximadamente 90 km de caminhada ida e volta. A rota parte da aldeia indígena de Paraitepui, a cerca de 90 km de Santa Elena de Uairén, a principal cidade venezuelana próxima à fronteira brasileira.
O roteiro tradicional segue esta divisão de etapas:
- Dia 1: Paraitepui até acampamento Rio Tök, cerca de 15 km em savana.
- Dia 2: Rio Tök até o acampamento base, com travessia do Rio Kukenán.
- Dia 3: subida da rampa natural, único caminho de acesso ao topo do platô, com 1.400 metros de desnível.
- Dia 4: exploração do topo, com visitas aos Poços do Jacuzzi, ao Vale dos Cristais e ao Marco da Tríplice Fronteira.
- Dia 5: descida da rampa e retorno ao acampamento base.
- Dias 6 a 8: retorno pela savana até Paraitepui.
O que se vê no topo do platô?
Um mundo geológico à parte. O topo tem paisagem lunar, coberta por formações rochosas escurecidas pela chuva ácida constante, com quartzos, cristais e piscinas naturais escavadas no arenito. A vegetação é composta por espécies endêmicas adaptadas ao solo pobre e ao clima úmido, muitas delas encontradas apenas nesse ecossistema.
Entre as atrações mais visitadas do platô estão:
- Poços do Jacuzzi: piscinas naturais de água escura formadas por depressões nas rochas.
- Vale dos Cristais: área com afloramentos de quartzo, protegida pela lei ambiental venezuelana.
- Ponto Triplo: marco físico da fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana.
- La Ventana: mirante natural com vista da savana de Gran Sabana.
- El Foso: formação em forma de poço profundo cercado por paredes verticais.

Por que o Monte Roraima virou referência da cultura pop?
Pela literatura e pelo cinema. Em 1912, o escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, publicou o romance O Mundo Perdido, inspirado nos relatos do explorador inglês Everard Im Thurn, que alcançou o topo do Monte Roraima em 1884. No livro, uma expedição encontra dinossauros e criaturas pré-históricas no platô isolado, dando origem a um dos gêneros literários mais copiados da história.
Quase um século depois, em 2009, o estúdio Pixar se inspirou nos tepuis do Parque Nacional Canaima para criar o cenário de Up: Altas Aventuras. Roteiristas e desenhistas do estúdio visitaram a região antes da produção, e a chamada Paradise Falls do filme é diretamente inspirada nas cachoeiras que despencam das paredes verticais do Roraima e do Salto Ángel, no mesmo parque venezuelano.
Como chegar até a base da expedição?
O ponto de partida obrigatório é Boa Vista, capital de Roraima, servida pelo Aeroporto Internacional Atlas Brasil Cantanhede, com voos diretos de Brasília, Manaus e outras capitais brasileiras. De Boa Vista, o trajeto até Santa Elena de Uairén é de aproximadamente 260 km pela BR-174, cruzando a fronteira no município de Pacaraima.
De Santa Elena, ainda são cerca de 90 km até a aldeia de Paraitepui, trecho geralmente feito em veículos 4×4 contratados junto às agências locais. A contratação de guia oficial venezuelano é obrigatória para a subida, e a documentação exigida inclui passaporte válido para a entrada na Venezuela. A maioria das operadoras oferece pacotes completos saindo de Boa Vista, com toda a logística de fronteira, transporte, alimentação e equipamento incluída.
Uma montanha que resiste há bilhões de anos
O Monte Roraima é o que restou de um planalto muito maior, esculpido pela erosão desde antes da existência de vida animal complexa no planeta. É a montanha que dividiu três países, virou literatura, virou cinema, virou moradia sagrada para três povos indígenas e ainda oferece, no topo, um mundo geológico praticamente intocado onde a vegetação evoluiu por milhões de anos sem contato com o entorno.
Na escala humana, uma expedição de 8 dias parece longa; na escala do platô, é um instante quase imperceptível numa paisagem que continua sendo esculpida, milímetro a milímetro, desde muito antes de o continente sul-americano existir na forma que conhecemos hoje.



