Nem toda montanha nasce do choque de placas. O Monte Roraima é o que sobrou de um imenso depósito de areia formado quando a Terra ainda não tinha florestas, e a erosão levou embora tudo o que existia em volta. No ponto em que Brasil, Venezuela e Guiana se encontram, restou uma mesa de rocha cercada por muralhas verticais.
Por que o Monte Roraima tem topo plano e paredes verticais?
O formato vem da rocha, não do relevo em volta. Conforme o Serviço Geológico do Brasil (SGB), as escarpas verticais têm mais de 500 metros de altura e são formadas por arenito, e o monte funciona como marco da estratigrafia do Supergrupo Roraima, uma bacia sedimentar paleoproterozoica do Escudo das Guianas, no norte do Cráton Amazônico.
As camadas guardam paisagens que desapareceram. A Formação Matauí, unidade que forma o topo, reúne arenitos interpretados como antigas dunas de vento, faixas de rio e depósitos de mar raso, empilhados uns sobre os outros ao longo de dezenas de milhões de anos. Rochas de idade parecida sustentam a chapada de Goiás, mas em nenhuma delas o corte é tão limpo. O próprio SGB classifica o local como geossítio de relevância internacional.

Onde fica o marco que divide Brasil, Venezuela e Guiana?
Fica no alto do platô, a 2.734 metros de altitude, e atende pela sigla BV-0. O Decreto nº 97.887, de 28 de junho de 1989, que criou o parque nacional brasileiro, descreve os limites da unidade começando exatamente nesse marco de fronteira internacional, antes de seguir rumo leste pela linha que separa o país da Guiana.
O sinal do parque só chegou ao ponto muito depois. Em 2025, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), uma expedição instalou pela primeira vez uma placa informativa no marco da tríplice fronteira, com autorização prévia da Primeira Comissão de Demarcação de Fronteiras, setor responsável dentro do Itamaraty.
Como o relato de um botânico virou O Mundo Perdido?
A base do monte foi alcançada em 1595 pela expedição inglesa comandada por Sir Walter Raleigh, mas ninguém subiu. O caminho até o topo só foi aberto em 1884, pelo lado venezuelano, pelo botânico Everard Im Thurn, e seus relatórios de expedição serviram de inspiração para Arthur Conan Doyle escrever o romance O Mundo Perdido, conforme o registro do SGB.
Muito antes disso o lugar já tinha dono na imaginação da região. Para os Macuxi, o platô é a Casa de Macunaíma, figura central das histórias de origem do mundo. O apelido de mãe de todas as águas também tem razão prática: dali descem cabeceiras de rios que abastecem os três países vizinhos.
Quanto se caminha até o topo do Monte Roraima?
São cerca de 25 km de trilha antes de encarar a subida, e a rota oficial não parte do Brasil. Pelo levantamento do SGB, o percurso começa em Paraitepui, aldeia pemón a 1.200 metros de altitude, segue 12 km de savana até o acampamento do rio Tek, avança mais 13 km até o sopé do monte e enfrenta uma rampa com desnível de cerca de 800 metros até a cota de 2.670 metros. Do lado venezuelano, a montanha está dentro do Parque Nacional Canaima, inscrito na lista da UNESCO e coberto em cerca de 65% por tepuis.
No alto, o platô tem áreas de acampamento e pontos de visitação já demarcados, confira abaixo os principais:
- Marco BV-0: o ponto exato onde Brasil, Venezuela e Guiana se tocam, na extremidade norte do platô.
- Vale dos Cristais: depressão rasa no arenito coberta por cristais de quartzo, cuja retirada é proibida.
- Sinkholes: cavidades abertas na rocha pela água ao longo de milhões de anos.
- Proa: extremidade norte do monte, onde o paredão avança sobre o vazio.
Pelo território brasileiro o acesso é restrito. O Parque Nacional do Monte Roraima tem 116.747,80 hectares no município de Uiramutã e depende de autorização especial para visitação, condição ligada à sobreposição com a Terra Indígena Raposa Serra do Sol e à gestão dividida com a comunidade Ingarikó.

Como é o clima na região do parque ao longo do ano?
Em Uiramutã, sede do município que abriga o parque, a temperatura muda pouco e a chuva muda muito. As máximas ficam perto de 30°C durante quase todo o ano, enquanto o volume de água despencando do céu multiplica por dez entre o começo e o meio do ano, veja abaixo como isso se distribui:
Médias de chuva com base no Climatempo, a partir de 30 anos de dados de reanálise. As condições variam de um ano para o outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes de viajar.
No topo, a mais de 2.700 metros, a história é outra. A neblina cobre o platô com frequência, o vento não encontra obstáculo e as noites exigem roupa térmica mesmo em pleno período seco.
A montanha guarda o registro de um mundo anterior a quase tudo
O que impressiona não é a altitude, que fica longe da dos Andes, e sim a idade do material. Cada camada de arenito daquele paredão foi depositada por um rio, um vento ou uma maré que existiu antes das plantas terrestres, e sobreviveu enquanto o continente inteiro ao redor era rebaixado pela erosão.
Caminhar no alto do platô é pisar sobre a superfície de um mundo que não deixou nenhum outro registro comparável na América do Sul. Entre os cristais soltos e as cavidades abertas na pedra, o tempo geológico deixa de ser um número em livro didático e vira paisagem.


