De um lado, a maior laguna da América do Sul. Do outro, o oceano aberto. No meio dessa faixa estreita de terra do litoral médio gaúcho está Mostardas, cidade açoriana fundada em 1773 que virou refúgio de flamingos vindos do Chile e de maçaricos que voam do Alasca à Terra do Fogo todos os anos.
O posto militar português que virou cidade
A história começa antes da fundação oficial. Em 1738 já existia ali uma Guarda das Mustardas, posto de vigilância português que protegia a rota entre Rio Grande e a Colônia do Sacramento. A grafia com U foi mantida até o começo do século XX, quando virou Mostardas.
A historiadora Marisa Oliveira Guedes, citada pela Wikipédia, lembra a versão mais aceita para a origem do nome: as mostardas eram trincheiras usadas em guerras em Portugal, cobertas por esteiras de junco e taquara e camufladas com plantas da mesma família, escolhidas justamente porque não murchavam. A hipótese casa com a função militar do posto, já que a planta não cresce naturalmente na região.

A freguesia que os açorianos fundaram no dia de São Luiz Rei
No dia 18 de janeiro de 1773, a freguesia foi oficialmente criada por portugueses vindos da ilha do Pico, no arquipélago dos Açores, segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul. No mesmo ano subiu ao alto a Igreja Matriz São Luiz Rei de França, tida como a sétima igreja mais antiga do estado.
O centro histórico foi tombado pela prefeitura em 1989 e ainda guarda casario açoriano do início do século XIX, com os característicos telhados em eira e beira e símbolos religiosos entalhados nas fachadas, como a Santíssima Trindade e a Pomba do Divino Espírito Santo. Um passeio guiado pelo núcleo leva cerca de uma hora e meia.
Por que a Lagoa do Peixe virou parada obrigatória para aves migratórias?
A geografia responde. A laguna tem apenas 60 centímetros de profundidade média e cerca de 35 km de extensão, formando o ambiente ideal de alimentação e descanso para milhares de aves que cruzam o continente. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Parque Nacional da Lagoa do Peixe foi criado em 1986 e reconhecido como Sítio Ramsar de importância internacional em 1993.
A unidade protege mais de 36 mil hectares entre Mostardas, Tavares e São José do Norte. O parque já catalogou 349 espécies de aves, sendo 74 migratórias e 13 ameaçadas de extinção. Flamingos, cisnes, maçaricos e biguás dividem o mesmo espelho d’água. Entre julho e outubro, é possível avistar baleias-francas na costa oceânica, em rota para Santa Catarina.

Os quatro faróis que guiam quem chega por terra ou pela água
A costa mostardense reúne uma coleção rara de faróis históricos. Cada um marca uma etapa da ocupação do litoral gaúcho no século XIX. Vale conhecer os principais:
- Farol de Mostardas: torre de 30 metros construída em 1858 à beira da Lagoa dos Patos, alcançada por estrada que cruza bandos de emas e capões de mata nativa.
- Farol da Solidão: erguido na orla do Atlântico, dá nome à praia deserta que fica ao redor.
- Farol Capão da Marca: inaugurado em 1849 por Dom Pedro II, foi o primeiro farol da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
- Farol Cristóvão Pereira: construído em 1868 às margens da laguna, marca a rota da antiga colonização açoriana.
O que fazer em Mostardas em um fim de semana
A cidade compensa a distância com programas que só se encontram nesse pedaço do litoral gaúcho. O roteiro combina natureza, história e a lentidão típica de quem vive entre dois mares:
- Parque Nacional da Lagoa do Peixe: trilhas do Talhamar (12 km), da Figueira (1,5 km) e das Dunas (10 km), com observação de aves e visitantes.
- Lagoa do Bacupari: praia de água doce com águas cristalinas e rasas, uma das mais bonitas do estado.
- Balneário Mostardense: principal praia oceânica do município, ponto de encontro no verão.
- Centro Histórico: casario açoriano com telhados em eira e beira, tombado desde 1989.
- Festival Brasileiro das Aves Migratórias: evento anual organizado pelo ICMBio e pela prefeitura em novembro, com palestras, oficinas e passeios ciclísticos.

Como é o clima de Mostardas durante o ano?
A cidade tem clima subtropical úmido, com verões quentes, invernos frios e ventos constantes que moldam as dunas. A tabela resume o que esperar em cada estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
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Como chegar a Mostardas
Saindo de Porto Alegre, o percurso de 200 km é feito pela RS-040 até Capivari do Sul e depois pela RST-101, com cerca de três horas e meia de estrada. A rodoviária da capital também opera ônibus diretos com aproximadamente cinco horas de viagem. Para chegar às trilhas internas do parque, recomenda-se veículo com tração nas quatro rodas.
A cidade entre dois mares
Poucas cidades brasileiras juntam colonização açoriana preservada, quatro faróis históricos e uma laguna que abriga aves vindas do Ártico ao Círculo Antártico. Mostardas entrega essa combinação em ritmo lento, no compasso das marés e do vento.
Você precisa dormir em Mostardas por pelo menos duas noites para ver o sol nascer no Atlântico e se pôr na Lagoa dos Patos no mesmo dia.




