Um Volkswagen Beetle de 1960, o Fusca, saiu do lote 47 do leilão de Amelia Island, na Flórida, por US$ 121 mil em 2016. A casa responsável, a Gooding & Company, tinha estimado o carro entre US$ 35 mil e US$ 55 mil. Na consulta de 7/10/2026, a página do lote ainda exibe o resultado com a marcação “sold”, ou seja, venda concluída em leilão. A página não informa se o valor inclui a comissão do comprador.
O Fusca 1960 do leilão de US$ 121 mil nunca foi restaurado. Segundo a descrição da Gooding, ficou 30 anos com o primeiro dono e tem menos de 15.500 milhas no hodômetro desde novo, cerca de 24,9 mil quilômetros. O leilão foi marcado para 11 de março de 2016, conforme o comunicado em que a casa anunciou os carros da noite.
Um entre mais de 21,5 milhões
Raridade não explica o preço. Poucos carros foram tão fabricados. Quando o último Fusca saiu da linha de Puebla, no México, em 30 de julho de 2003, a produção total chegou a 21.529.464 unidades, segundo o histórico do modelo publicado pela própria Volkswagen.
O exemplar de Amelia Island é um carro feito na Alemanha e vendido no mercado americano. A ficha técnica da Gooding lista motor de quatro cilindros contrapostos refrigerado a ar, com 1.192 cc e 36 bhp (medida de potência usada nos EUA) a 3.700 rpm, um carburador Solex, transmissão manual de quatro velocidades e freios a tambor nas quatro rodas. Era o carro pequeno, simples e barato de manter que a Volkswagen vendia aos americanos naquele começo de década.
A imagem desse Fusca nos Estados Unidos foi construída pela publicidade. A agência Doyle Dane Bernbach criou para ele anúncios como “Think Small”, de 1959, e “Lemon”, de 1960, numa campanha que a revista Ad Age elegeu a melhor do século 20.
Por que este Fusca 1960 passou da estimativa no leilão

O que a Gooding destacou no lote não tem a ver com o modelo, e sim com a história daquele carro específico. A página lista cinco pontos:
- procedência, com 30 anos nas mãos do primeiro dono;
- hodômetro com menos de 15.500 milhas desde novo;
- muitos materiais e acabamentos de fábrica ainda intactos;
- pasta de documentos com registro detalhado de manutenção;
- a classificação de um dos melhores exemplares sem restauração do tipo.
A reportagem da Motorshow de 14 de março de 2016 acrescenta que o carro mantinha estofamento e pintura originais, saiu de uma concessionária Volkswagen na Dakota do Sul e vinha com todos os manuais. Em reais, a revista calculou algo perto de R$ 438 mil, com o dólar de março de 2016.
Há ainda um nome no histórico. Segundo a mesma reportagem, o Fusca pertencia desde 2008 ao comediante Jerry Seinfeld, que era o terceiro dono. A Gooding confirma a origem: o “1960 Volkswagen Beetle” aparece na lista oficial de carros da coleção de Seinfeld oferecidos naquele leilão, ao lado de 16 Porsches e de uma Kombi camper de 1964.
Um carro sem restauração conta a própria idade; um restaurado conta a do restaurador. Peça trocada sem aviso é o pesadelo oposto, e foi o que viveu o dono de um sedã que pagou R$ 85 mil numa restauração de dois anos e recebeu o carro com outro motor.
O exemplar comum fica longe dos US$ 121 mil
O site americano Conceptcarz, que reúne resultados de leilões de carros antigos, tinha 54 vendas de Fuscas 1960 em leilão na base quando foi consultado por esta reportagem, no dia 7/10/2026. A mediana é de US$ 19,8 mil. A venda mais baixa da base é de US$ 2,5 mil, e a mais alta é justamente a de Amelia Island, US$ 121 mil.
O mesmo levantamento separa faixas por condição. Carros em estado regular aparecem entre US$ 2,5 mil e US$ 12,1 mil; os bons, entre US$ 12,1 mil e US$ 19,8 mil; os excelentes, entre US$ 19,8 mil e US$ 26,4 mil. Só na faixa de condição perfeita a escala vai de US$ 26,4 mil até o recorde da base. A venda mais recente listada foi na Mecum, em Glendale, em março de 2026, por US$ 37,4 mil, sem informação sobre comissão.
Ou seja: o carro de 2016 vendeu por mais de seis vezes a mediana do próprio ano-modelo. Quilometragem baixa, um só dono por décadas, papelada completa e um colecionador famoso no meio do caminho são somas raras, e o valor final é reflexo dessa soma, não do Fusca 1960 em geral.
No Brasil, frota grande e placa preta
O carro de Amelia Island não é brasileiro, e o preço dele não serve de régua para os Fuscas que rodam aqui. A história nacional é outra. Segundo a Motorshow, a fabricação no Brasil começou em 1959, foi interrompida em 1986 e retomada entre 1993 e 1996 em São Bernardo do Campo (SP).
A presença do carro no país ainda é grande. Um levantamento do Detran-SP, divulgado em janeiro de 2022 e citado pela Motorshow, contava 650 mil veículos da família circulando no estado de São Paulo, numa soma que vai do Fusca 1200 ao New Beetle. Nas cinco cidades com maior frota (São Paulo, Campinas, Guarulhos, Santo André e São Bernardo do Campo), eram mais de 209 mil, dos quais cerca de 10 mil com placa preta, a identificação dos veículos de coleção.
Num carro antigo, o hodômetro também pesa na conversa. Quilometragem alterada é motivo de disputa, como no caso do dono que retirou o antigo da oficina com 1.300 quilômetros a mais no painel. No Fusca de Amelia Island, as 15.500 milhas vieram acompanhadas de uma pasta com o histórico de manutenção, segundo a página do lote 47 na Gooding.




