O Chevrolet Chevette 1987 que a Mecum Auctions vendeu por US$ 33 mil em janeiro de 2025, no leilão de Kissimmee, na Flórida, é o modelo americano, feito nos Estados Unidos, em linha de produção própria. Não é o Chevette que a General Motors fabricou no Brasil. O carro do leilão tinha 47 milhas no hodômetro, cerca de 75 quilômetros, e o valor inclui a comissão da casa.
A notícia é de quase dois anos atrás e volta a circular de tempos em tempos, quase sempre misturando os dois carros. O contraste com o Chevette brasileiro aparece na Tabela Fipe: na tabela conferida neste 7/10/2026, o Chevette L / SL / SL/e / DL / SE 1.6 a gasolina, ano-modelo 1987, tinha preço médio de R$ 9.583, com mês de referência outubro de 2026.
Chevette 1987 em leilão: US$ 30 mil no martelo, US$ 33 mil no total
Os US$ 33 mil não foram o lance final. Segundo o site canadense Auto123, em texto de 21 de janeiro de 2025, o martelo bateu em US$ 30 mil, e a taxa de 10% cobrada pela casa elevou o total para US$ 33 mil. O Motor1 americano, que noticiou a venda em 17 de janeiro de 2025, registrou o mesmo valor total. O Auto123 anotou 48,4 milhas no hodômetro; Motor1, Canaltech e o site Eighties Cars falam em 47.
O carro era um hatchback cinza metálico, com motor 1.6 de quatro cilindros e 65 cavalos, câmbio manual de quatro marchas e tração traseira. A lista de equipamentos era curta: rádio AM, isqueiro, luz de teto, barra estabilizadora dianteira e ventilação de fluxo contínuo no lugar do ar-condicionado. De acordo com o Eighties Cars, que publicou uma seleção de carros dos anos 1980 do leilão, o Chevette vinha da coleção do espólio de Ray Fauber, com vários veículos de baixíssima quilometragem.
Também não era um carro perfeito. As duas reportagens americanas citam o forro do teto solto, o para-choque traseiro riscado, emblemas desgastados e pontos de corrosão em peças de alumínio do motor. A reportagem do Canaltech sobre o Chevette arrematado na Mecum, de 28 de janeiro de 2025, converteu o valor para cerca de R$ 195,5 mil, pela cotação daquele mês. Não é o valor do carro hoje nem de qualquer Chevette brasileiro.
Um compacto de US$ 4.995 que saiu de linha nos Estados Unidos

Novo, o carro custou bem menos. Segundo o Motor1, documentos guardados no próprio Chevette indicam preço inicial de US$ 4.995 em 1987. O texto do Auto123 sobre a venda de Kissimmee acrescenta que, no Canadá, o modelo saía por cerca de 7 mil dólares canadenses.
Nos Estados Unidos, o Chevette foi o carro de entrada da Chevrolet nos anos-modelo de 1976 a 1987, com montagem em Wilmington, no estado de Delaware, e em Lakewood, na Geórgia. A produção americana terminou em 23 de dezembro de 1986, o que torna o 1987 o último ano do modelo no país. Segundo o verbete da enciclopédia Wikipédia em inglês, que cita dados da própria General Motors, a produção americana chegou a 2,8 milhões de unidades em 12 anos, e o Chevette foi o compacto mais vendido dos Estados Unidos nos anos-modelo 1979 e 1980.
Foi um carro de massa, comprado para rodar, e é justamente por isso que um exemplar quase sem uso chama atenção. A imprensa americana não poupou o modelo: o Motor1 o descreveu como possivelmente um dos piores carros econômicos já feitos, e o Auto123 escreveu que o veículo nunca vai valer o que foi pago.
O Chevette brasileiro na Tabela Fipe
O parentesco entre os dois existe, mas é de plataforma. O Chevette brasileiro foi lançado pela GM em 1973 e foi o primeiro carro construído sobre a plataforma T, que a General Motors depois usou em versões para vários países, entre elas o Chevette americano de 1975, conforme o mesmo verbete. No Brasil, o nome atravessou duas décadas e ganhou derivados que a própria Tabela Fipe ainda lista, como o Chevette Junior 1.0 e a picape Chevy 500.
A consulta à Fipe, feita no dia 7/10/2026 pela réplica pública da tabela (o site oficial bloqueia leitura automática), mostra o código 004030-4, que reúne as versões L, SL, SL/e, DL e SE com motor 1.6 a gasolina. A tabela traz anos-modelo de 1985 a 1993, e os preços médios de outubro de 2026 vão de R$ 6.013, para o 1985, a R$ 22.932, para o 1993, o último ano-modelo listado. O 1987, mesmo ano do carro leiloado na Flórida, aparece com R$ 9.583.
Esse número é um preço médio de referência do mercado de usados. Ele não avalia um carro específico e não diz quanto um Chevette de garagem, restaurado ou com quilometragem baixa, alcançaria numa negociação particular.
Quilometragem e ano final explicam a distância
A diferença entre US$ 33 mil e R$ 9.583 não mede o Chevette americano contra o brasileiro. Mede um carro que praticamente não rodou contra o exemplar comum. As reportagens que noticiaram a venda apontam os mesmos fatores: as 47 milhas, o fato de ser o último ano de produção nos Estados Unidos e a origem numa coleção de carros pouco rodados. O Canaltech acrescenta que o carro passou por inspeção para atestar a originalidade do hodômetro.
No mercado de antigos, a originalidade pesa tanto quanto a conservação, e uma peça trocada pode derrubar o valor, como no caso do colecionador que descobriu o motor original do seu sedã substituído durante a restauração. Carros que ficaram décadas parados sem uso costumam virar notícia pelo mesmo motivo, como os modelos dos anos 1980 achados em uma concessionária Ford abandonada na Alemanha.
O preço de Kissimmee premia o hodômetro parado, não o Chevette. Um carro de US$ 4.995, produzido aos milhões, chegou a US$ 33 mil porque passou quase quatro décadas sem rodar, condição que não se repete no Chevette que circulou pelas ruas, nos Estados Unidos ou no Brasil.




