Uma família descobriu que a casa deixada pelo pai havia sido alugada por um dos herdeiros sem o conhecimento dos demais, enquanto o inventário ainda estava em andamento. A surpresa aconteceu quando o novo morador chegou com as malas e apresentou um contrato assinado apenas por Marcelo Ferreira, um dos filhos do falecido, provocando dúvidas sobre quem poderia administrar o imóvel e receber os aluguéis.
Família descobre aluguel quando novo morador chega ao imóvel
Após a morte de Antônio Ferreira, seus três filhos iniciaram o inventário da casa onde o pai havia morado durante décadas. Enquanto aguardavam a divisão dos bens, combinaram informalmente que o imóvel permaneceria fechado. Entretanto, Marcelo, de 42 anos, decidiu anunciar a residência para locação, acreditando que sua condição de herdeiro lhe permitiria negociar o aluguel sozinho.
A irmã, Patrícia Ferreira, descobriu a situação quando um homem chegou ao endereço acompanhado de uma empresa de mudanças. Ele apresentou um contrato de locação e afirmou que havia pago o primeiro aluguel e a garantia contratual. Sem conhecer a negociação, Patrícia procurou o irmão e o advogado responsável pelo inventário para entender como o imóvel havia sido alugado sem comunicação aos demais interessados.

Um herdeiro pode alugar sozinho um imóvel que está em inventário?
O artigo 1.791 do Código Civil estabelece que a herança é transmitida como um todo unitário, mesmo quando existem vários herdeiros. Seu parágrafo único determina que, até a partilha, os direitos relativos à propriedade e à posse dos bens hereditários são indivisíveis e regulados pelas normas do condomínio. Isso significa que nenhum herdeiro se torna automaticamente proprietário exclusivo de uma casa específica apenas por participar da sucessão.
A possibilidade de locação depende das circunstâncias, dos poderes de administração e da manifestação dos demais titulares. O artigo 1.323 do mesmo Código prevê que as decisões sobre a administração da coisa comum sejam tomadas pela maioria dos condôminos, calculada conforme suas participações. Assim, a assinatura isolada de um herdeiro não deve ser confundida com autorização automática para administrar todo o patrimônio hereditário.
Qual é o papel do inventariante na administração da casa?
Durante o inventário judicial, o inventariante exerce funções relacionadas à representação e à conservação do patrimônio deixado pelo falecido. O artigo 618, incisos I e II, do Código de Processo Civil estabelece que ele deve representar o espólio e administrar seus bens com diligência. A função envolve acompanhar despesas, receitas e situações que possam afetar o patrimônio.
Isso não significa que qualquer contrato de aluguel dependa necessariamente de autorização judicial prévia. Uma locação pode integrar a administração ordinária, conforme suas características e os poderes de quem a celebra. Entretanto, quando existe discordância entre herdeiros ou dúvida sobre a representação do espólio, a questão pode precisar de análise judicial no inventário, especialmente para evitar prejuízos aos interessados.
Quem tem direito de receber os aluguéis enquanto não ocorre a partilha?
Na história, Marcelo pretendia receber os pagamentos diretamente em sua conta bancária, alegando que havia encontrado o inquilino e organizado a negociação. Contudo, os rendimentos produzidos por um imóvel integrante da herança devem ser considerados na administração patrimonial. O artigo 1.319 do Código Civil prevê a responsabilidade de cada condômino pelos frutos que percebeu da coisa comum e pelos danos que causar aos demais.
Além disso, o artigo 1.326 estabelece que os frutos da coisa comum devem ser partilhados proporcionalmente aos quinhões, salvo estipulação ou disposição especial em contrário. Na prática, isso significa que os aluguéis não pertencem automaticamente ao herdeiro que encontrou o locatário. Os valores recebidos podem exigir prestação de contas e consideração no inventário, respeitados eventuais direitos específicos e despesas legítimas.

O contrato assinado sem conhecimento dos irmãos perde a validade?
A ausência de comunicação aos demais herdeiros não torna, por si só, todo contrato de locação automaticamente nulo. A análise depende dos poderes de quem assinou, da situação da propriedade e das condições da negociação. Também é necessário considerar a posição do inquilino, que pode ter contratado acreditando legitimamente que Marcelo possuía autorização para disponibilizar a residência.
A Lei nº 8.245/1991, conhecida como Lei do Inquilinato, disciplina as locações de imóveis urbanos e os direitos e deveres envolvidos na relação. Eventuais pedidos de encerramento do contrato, desocupação ou reparação de prejuízos precisam respeitar a legislação aplicável. Os familiares não devem simplesmente retirar os pertences do morador ou impedir seu acesso à residência por conta própria.
Como os demais herdeiros podem contestar o aluguel feito sem autorização?
Ao tomar conhecimento da locação, os familiares podem solicitar cópia integral do contrato, comprovantes dos pagamentos e informações sobre a garantia oferecida. Também devem verificar quem foi nomeado inventariante e quais poderes de administração estavam formalmente estabelecidos. Esses documentos permitem esclarecer se houve falta de autorização, irregularidade na representação ou apenas ausência de comunicação familiar.
O artigo 618, inciso VII, do Código de Processo Civil prevê que o inventariante preste contas de sua gestão ao deixar o cargo ou sempre que o juiz determinar. Dependendo de quem realizou a negociação e recebeu os rendimentos, poderão ser discutidas outras medidas de prestação de contas ou restituição. O caminho adequado é apresentar os fatos ao advogado responsável pelo inventário e avaliar a necessidade de providências judiciais específicas.
História fictícia mostra cuidados necessários ao alugar imóvel herdado
O caso de Marcelo, Patrícia e da família Ferreira é uma história fictícia, criada exclusivamente para ilustrar conflitos que podem ocorrer quando um imóvel é alugado durante um processo de inventário. Os personagens, o contrato e a chegada inesperada do inquilino não correspondem a acontecimentos reais documentados. O contexto serve apenas para explicar situações possíveis e apresentar regras da legislação brasileira, sem substituir orientação jurídica individual.
Antes de anunciar um imóvel herdado, os interessados devem verificar a situação do inventário, identificar quem possui poderes para administrar o patrimônio e definir como os pagamentos serão recebidos e contabilizados. Também é recomendável formalizar os entendimentos e manter todos os documentos disponíveis aos herdeiros. A medida mais segura é regularizar a administração antes de alugar, reduzindo o risco de disputas familiares e problemas para o futuro inquilino.




