Em muitos lugares do mundo, cientistas escavam desertos e montanhas atrás de fósseis. Em Araraquara, no interior de São Paulo, um dos achados mais importantes estava bem debaixo dos pés dos moradores. As lajes de arenito usadas nas calçadas da cidade, retiradas de pedreiras da região, guardam pegadas de dinossauros e de pequenos mamíferos que viveram em um antigo deserto. A descoberta levou a uma expedição científica incomum, feita no meio das ruas.
Por que há pegadas de dinossauro nas calçadas?
Por causa da pedra usada no calçamento. Segundo a página da Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (Sigep), mantida pelo Serviço Geológico do Brasil, as pedreiras da região de Araraquara exploram arenitos da Formação Botucatu, usados como material de construção, e essas rochas guardam pegadas fósseis de animais que viveram há milhões de anos.
A rocha é um antigo deserto. Segundo a Agência Fapesp, há cerca de 140 milhões de anos o interior do Brasil era coberto por um vasto deserto de dunas, maior que o Saara. O blog Colecionadores de Ossos, da Unicamp, explica que dinossauros e pequenos mamíferos caminhavam pela areia úmida em busca de água, e que essas marcas ficaram preservadas quando a areia virou rocha.

Quem descobriu as pegadas nas calçadas?
O paleontólogo Giuseppe Leonardi. Segundo a Sigep, desde sua primeira visita, em 1976, Giuseppe Leonardi percebeu que a exposição mais importante de rochas da Formação Botucatu com pegadas fósseis não estava em nenhuma pedreira ou afloramento natural, mas sim nas calçadas de Araraquara.
Convencer a cidade não foi fácil. A Sigep registra que, depois de duas tentativas sem sucesso de convencer dois prefeitos seguidos sobre a importância científica das lajes, a Câmara Municipal autorizou, em 1983, uma rara expedição urbana para trocar 60 lajes com pegadas selecionadas por outras sem fósseis. Ao todo, mais de 200 lajes com pegadas foram levadas para o Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
Como as pegadas saíram das ruas e chegaram ao museu?
A história teve várias etapas. Estes são os principais marcos registrados pela Sigep.
Que animais deixaram essas pegadas?
Dinossauros e mamíferos primitivos. Segundo a Sigep, as lajes de Araraquara guardam pegadas de pequenos dinossauros que andavam sobre duas patas e marcas atribuídas a mamíferos primitivos, como as pistas conhecidas pelo nome científico de Brasilichnium elusivum. Há registros tanto nas calçadas quanto nas pedreiras da região, como a Pedreira São Bento.
A cidade virou um museu a céu aberto. Mesmo depois da retirada de parte das lajes, ainda é possível encontrar pegadas em calçadas do centro, observando com atenção a superfície das pedras. Para o visitante, caminhar pela cidade de olhos no chão é uma forma inesperada de encontrar sinais da vida que existiu ali muito antes de qualquer ser humano.

Como é o clima de Araraquara ao longo do ano?
O verão é quente e chuvoso, e o inverno, seco. Janeiro concentra 266 mm de chuva em média, enquanto julho registra apenas 25 mm, e as máximas chegam a 30°C em setembro e outubro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade que caminha sobre a pré-história
Araraquara mostra que a ciência pode estar onde menos se espera. As pedras que pavimentam suas calçadas vieram de um antigo deserto e guardam pegadas de dinossauros e de pequenos mamíferos, descobertas por um paleontólogo que precisou de uma autorização da Câmara para retirar lajes das ruas. Hoje, essa história faz da cidade um lugar onde o passado mais distante divide espaço com o dia a dia.
Você precisa caminhar pelo centro de Araraquara olhando para o chão, procurar as marcas nas lajes de arenito e imaginar os animais que passaram por ali há milhões de anos para entender por que essa cidade é tão especial para a paleontologia.




