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Início Cidades

Onde o asfalto encontra rochas de 160 milhões de anos, a estrada brasileira com curvas de 180° e paredões de 90 metros

Por Maura Pereira
30/08/2026
Em Cidades, Turismo
Com curvas de 180° e paredões de 90 metros, essa estrada atravessa rochas formadas há 160 milhões de anos

As rochas que formam a Serra do Corvo Branco datam do período em que a América do Sul ainda estava grudada na África, no supercontinente Pangeia. / Imagem ilustrativa

Uma abertura com 90 metros de profundidade divide a montanha e deixa à mostra paredes formadas pela mesma rocha porosa que abastece o Aquífero Guarani. Na divisa entre Urubici e Grão-Pará, no sul de Santa Catarina, a Serra do Corvo Branco abriga o maior corte em rocha arenítica do país e está entre as estradas mais perigosas do Brasil.

De onde veio o nome Corvo Branco?

A origem da denominação está em uma confusão feita pelos moradores antigos. Eles observavam nos paredões uma ave de plumagem branca e detalhes coloridos, que construía ninhos no local, e acreditavam se tratar de um corvo. Na realidade, o animal é o Urubu-rei, uma espécie rara e de beleza singular. O nome acabou permanecendo, passou a identificar a serra e hoje está associado a um dos cartões-postais mais fotografados de Santa Catarina, segundo o Portal de Turismo de Grão-Pará. A observação da ave, entretanto, ficou mais difícil devido à baixa reprodutividade da espécie e à degradação de seu habitat.

Com curvas de 180° e paredões de 90 metros, essa estrada atravessa rochas formadas há 160 milhões de anos
Maior corte em rocha do Brasil: 90m profundidade na Serra do Corvo Branco, SC-370, entre Urubici e Grão-Pará, 1.470m altitude.

Uma aula de geologia a céu aberto

Uma viagem pelo passado geológico da região pode ser feita sem sair da própria serra. As formações rochosas encontradas ali começaram a se formar quando a América do Sul ainda estava unida à África, no supercontinente Pangeia. O arenito Botucatu surgiu a partir de sedimentos transportados pelo vento em um enorme deserto que ocupava a área e, posteriormente, acabou coberto por derramamentos de lava basáltica da Formação Serra Geral.

Ao observar o paredão durante a descida, uma faixa escura que atravessa a rocha de baixo para cima chama atenção. Trata-se de um dique de basalto, formado pelo resfriamento da lava que ascendeu do interior da Terra há 160 milhões de anos. Também é possível notar que o paredão esquerdo, para quem desce, permanece úmido, enquanto o direito é seco. Essa diferença está relacionada à inclinação do arenito Botucatu, a mesma rocha sedimentar que constitui o Aquífero Guarani, considerado um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta.

Com curvas de 180° e paredões de 90 metros, essa estrada atravessa rochas formadas há 160 milhões de anos
A Serra do Corvo Branco é daqueles lugares que nenhuma foto consegue traduzir por inteiro. / Créditos: Wikipédia

Quais atrações conhecer na Serra do Corvo Branco?

A SC-370, que liga Grão-Pará a Urubici ao longo de 57 km, foi a primeira estrada a conectar o litoral à Serra Catarinense. A construção começou no final da década de 1950 e foi inaugurada nos anos 1980. O trecho mais emblemático tem 600 metros, com curvas de 180 graus e precipícios que exigem atenção redobrada.

  • Fenda da Serra do Corvo Branco: o maior corte em rocha arenítica do Brasil, com paredões de 90 metros. A garganta por onde passa a estrada é o ponto mais fotografado da Serra Catarinense.
  • Parque Altos do Corvo Branco: a 1.380 m de altitude, conta com seis mirantes, dois deles com plataformas de vidro suspensas sobre o abismo. Em dias claros, a vista alcança o litoral de Laguna e o Morro da Igreja. Inaugurado em 2022, conforme a Prefeitura de Urubici.
  • Morro da Igreja: com 1.822 m, é o ponto habitado mais alto do Sul do Brasil. Abriga a icônica Pedra Furada, que exige agendamento prévio no ICMBio para visitação.
  • Cânion Espraiado: formação rochosa vizinha acessível por trilha a partir do topo da serra, com visual bruto e preservado.
  • Gruta Nossa Senhora de Lourdes: formação natural encravada na rocha a caminho da serra, a 10 km do centro de Urubici.

Aventure-se pela estrada mais surpreendente da Serra Catarinense. O vídeo é do canal Algum Lugar na Terra, que conta com mais de 35 mil inscritos, e apresenta a travessia da Serra do Corvo Branco, destacando o impressionante corte vertical de 90 metros na rocha:

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Quando subir a serra?

A cidade-base é Urubici, a 915 m de altitude, onde as temperaturas são bem mais baixas que no litoral. O inverno é seco e gelado, com neve ocasional. O melhor horário para fotografar a fenda é por volta do meio-dia, quando o sol ilumina os paredões por inteiro.

☀️ Verão Dez-Fev
Média: 12-25°C
Chuva: Alta
Aproveitar cachoeiras e realizar trilhas curtas no período da manhã.
🍂 Outono Mar-Mai
Média: 6-20°C
Chuva: Média
Contemplar mirantes com céu limpo e praticar surfe no litoral.
❄️ Inverno Jun-Ago
Média: 0-15°C
Chuva: Baixa
Torcer pela neve ocasional e desfrutar da rica gastronomia serrana.
🌺 Primavera Set-Nov
Média: 8-22°C
Chuva: Média
Explorar os cânions e realizar trilhas longas com temperaturas agradáveis.
💡 Dica do especialista: O inverno (0°C a 15°C) é o período ideal para quem busca o charme do frio e a gastronomia aconchegante, com baixas chuvas e chances de neve ocasional, neblina e geada!

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo para Urubici. Condições podem variar.

Desça a Serra do Corvo Branco e sinta a emoção de paredões gigantes e vistas épicas da Serra Catarinense. Aventura única te espera! // Créditos: @AlgumLugarnaTerra

Leia também: O arranha-céu mais alto da América do Sul fica cercado por vinícolas e pela Cordilheira dos Andes.

Qual é o caminho até a Serra do Corvo Branco?

Partindo de Florianópolis, são 270 km até Urubici, em um trajeto de aproximadamente 3h30 pela BR-282 e pela SC-370. A fenda da serra está a 27 km do centro de Urubici, por uma estrada parcialmente asfaltada. Para quem vem de Grão-Pará, o acesso acontece pela SC-438, a partir da BR-101, passando por Gravatal e Braço do Norte. O trecho passa por obras de pavimentação com mais de 60% de execução, mas ainda existem partes de terra e curvas fechadas que exigem atenção. Em períodos de chuva ou neblina forte, é recomendado evitar a descida.

Uma paisagem moldada há milhões de anos

Muito além de ligar duas cidades, a Serra do Corvo Branco revela uma história que começou há milhões de anos. A fenda expõe paredões de 160 milhões de anos, formados pela mesma rocha que alimenta um dos maiores aquíferos do planeta, enquanto o nome do local preserva a lembrança de uma ave que atualmente é difícil de avistar.

Ao chegar ao centro da garganta, vale parar e observar os paredões acima. A dimensão da formação ajuda a imaginar a transformação ocorrida enquanto os continentes ainda permaneciam unidos.

Tags: serrra do corvo brancourubici
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