Um tripulante de barco de pesquisa passa a tarde de 13 de agosto de 2025 debruçado na amurada, olhando uma mancha rosa que se abre devagar atrás do casco no Golfo do Maine, e anota no caderno a hora em que a borda dela some. Ninguém precisa acreditar no tripulante, que inventei para abrir este texto. A mancha rosa existiu, tinha cerca de 800 metros de diâmetro e foi perseguida por instrumentos durante dias.
Jogar solução alcalina no mar para absorver carbono da atmosfera é uma proposta antiga, batizada de alcalinização oceânica, e a química que a sustenta cabe numa aula de ensino médio. O que nunca tinha sido feito em mar aberto, sob licença de um órgão ambiental, era medir o efeito com o oceano de verdade em volta, com onda, corrente e vento.
Foi isso que o projeto LOC-NESS, do Woods Hole Oceanographic Institution, fez naquela semana. E o resultado que mais interessa não é a quantidade de gás retirada do ar.
Por que jogar solução alcalina no mar faz a água puxar mais carbono?
Água do mar não é um líquido neutro: é um tampão químico com carbono dissolvido em três formas, gás carbônico, bicarbonato e carbonato. Quando entra hidróxido de sódio, o equilíbrio se desloca. O gás carbônico dissolvido vira bicarbonato, a pressão parcial de CO2 na água despenca e o oceano passa a puxar gás da atmosfera até reencontrar o ponto de equilíbrio.
O carbono que entra por esse caminho não fica na forma de gás pronto para escapar de novo. Fica como bicarbonato, a mesma forma em que o oceano guarda a maior parte do seu carbono há milênios. Como efeito secundário, o pH local sobe, o que caminha na direção oposta da acidificação que a queima de combustível fóssil vem provocando. A descrição química está na página de perguntas frequentes do projeto, mantida pelo grupo do Woods Hole que tocou o experimento.
Quanto de soda cáustica coube no primeiro ensaio licenciado em mar aberto?

O plano aprovado previa até 50 toneladas métricas de hidróxido de sódio, adicionadas como solução a 50% em água doce, num total de 16.500 galões, ou algo perto de 62 mil litros. O número está no material do próprio LOC-NESS, que também descreve o local: águas federais ao largo de Massachusetts, na Bacia de Wilkinson, a cerca de 61 quilômetros da costa de Cape Cod, com a liberação limitada aos 5 a 10 metros superiores da coluna d’água.
A liberação durou cerca de seis horas e cobriu perto de 1 quilômetro quadrado. A licença veio da agência ambiental americana, a EPA, em 23 de abril de 2025, e trazia trava operacional: quando os sensores de pH chegaram ao limite autorizado, a vazão de hidróxido foi cortada pela metade no meio da operação, conforme o relato do ensaio publicado pela revista setorial National Fisherman. Dois navios trabalharam juntos, um despejando e outro coletando dados.
Onde a medição virou a parte difícil do experimento?
A conta de laboratório é fácil. Cada tonelada de hidróxido de sódio tem um potencial teórico de captura que se calcula no papel. O problema aparece quando a mancha tratada começa a se diluir, a se espalhar e a afundar, enquanto a troca de gás entre o ar e a água leva semanas ou meses para se completar. O gargalo dessa técnica não é química, é contabilidade.
Para não perder a mancha de vista, a equipe misturou rodamina WT, um corante fluorescente atóxico, à solução, e seguiu o rastro com instrumentos autônomos numa zona de monitoramento de 3.600 quilômetros quadrados. O truque é velho e já resolveu outros enigmas de percurso de água, como quando pesquisadores tingiram sumidouros no Kentucky para descobrir por onde a água corria debaixo da terra.
Nos quatro dias de acompanhamento contínuo, a estimativa de captura extra ficou entre 2 e 10 toneladas de CO2, segundo os resultados provisórios apresentados pela equipe no Ocean Sciences Meeting de 2026, em Glasgow, e relatados pela revista Chemistry World. Modelos sugerem que a mancha continue absorvendo depois disso, chegando à casa de 50 toneladas ao longo de um ano. Repare na largura do intervalo: o valor máximo é cinco vezes o mínimo. Essa incerteza é o resultado principal do ensaio, e não um defeito do relatório.
Como ficaram as bactérias, o plâncton e as larvas do trecho tratado?
A instituição divulgou em fevereiro de 2026 um balanço preliminar do monitoramento biológico, comparando a água tratada com a água de controle ao redor. Não apareceu diferença estatisticamente significativa em nenhum dos quatro grupos acompanhados.
- Bactérias: a comunidade microbiana da mancha não se separou da comunidade da água vizinha no período medido.
- Fitoplâncton: as algas que fazem fotossíntese na superfície, base da cadeia alimentar, não mostraram resposta detectável ao aumento de alcalinidade.
- Zooplâncton: os pequenos animais que pastam o fitoplâncton, incluindo os copépodes típicos do Golfo do Maine, seguiram nas mesmas contagens.
- Larvas: as formas jovens de peixe e de lagosta, o grupo que mais preocupava a pesca local, também não registraram efeito mensurável.
Ausência de efeito detectado em quatro dias, numa mancha, numa estação do ano e numa bacia não é o mesmo que ausência de efeito. Organismos que constroem concha e esqueleto de carbonato são justamente os que mais reagem a mudança de química da água, para bem e para mal, como se vê no caso das ostras que voltaram a formar recife na Flórida a partir de conchas descartadas por restaurantes. O comunicado com os números preliminares fala em uma publicação revisada por pares ainda por vir.
Qual regra vale no Brasil para quem quiser despejar alcalinizante no mar?
A moldura é internacional e antiga. O Brasil promulgou pelo Decreto 87.566, de 16 de setembro de 1982, a Convenção de Londres de 1972, que trata da prevenção da poluição marinha por alijamento de resíduos e outras matérias. A íntegra da convenção incorporada ao direito brasileiro está no repositório oficial de decretos da União.
O Artigo III define alijamento como todo despejo deliberado no mar, mas abre uma exceção que decide o assunto: não se enquadra como alijamento a colocação de matérias “para fins diferentes do seu próprio despejo”, desde que ela não contrarie os objetivos da convenção. É por essa porta estreita que os ensaios científicos de alcalinização passam no mundo inteiro, inclusive em águas jurisdicionais brasileiras. Quem for propor algo parecido aqui vai discutir primeiro se o material entra no mar como resíduo ou como instrumento de pesquisa.
O que convém lembrar sobre jogar solução alcalina no mar?
Ao topar com a manchete, separe as duas quantidades antes de qualquer coisa: quanto de alcalinizante entrou na água e quanto de gás carbônico saiu do ar. No ensaio do Golfo do Maine, a primeira é da ordem de dezenas de toneladas e a segunda, nos dias medidos, de unidades de toneladas. Exija sempre o intervalo, não o número do meio. Pergunte se o dado vem de artigo revisado por pares ou de apresentação em congresso, porque o ensaio de campo do LOC-NESS ainda está no segundo estágio. E leia “nenhum impacto mensurável” como o que a frase diz, um resultado de curto prazo e de escala pequena, não um atestado permanente.
O propósito deste texto é informativo. Ele reúne o material técnico divulgado pela instituição responsável pelo experimento, o comunicado de resultados preliminares de fevereiro de 2026, a cobertura especializada da apresentação em congresso e o decreto brasileiro que incorporou a Convenção de Londres. Nenhum artigo revisado por pares sobre esse ensaio de campo havia saído até o fechamento destas linhas, e é por isso que todo número aqui aparece com a origem colada.




