Nem toda cidade brasileira de 8 mil habitantes consegue abrigar a cachoeira mais alta de um estado inteiro, a maior plataforma de rapel do país e o único parque nacional de proteção integral de sua região. Bodoquena, a cerca de 260 km de Campo Grande, no sudoeste de Mato Grosso do Sul, faz isso ao mesmo tempo. A Cachoeira Boca da Onça, com 156 metros de queda livre, ficou entre as duas melhores atrações do Brasil no ranking Travellers’ Choice Best of the Best 2025 do TripAdvisor.
Como Bodoquena virou porta de entrada do único parque nacional do MS?
A resposta começa na história recente da cidade. Emancipada em 13 de maio de 1980 após anos como distrito de Miranda, Bodoquena ganhou impulso econômico com a pecuária e a exploração de madeira, mas foi o ecoturismo que consolidou o nome do município no mapa nacional. O nome vem do tupi-guarani e significa “nascente em cima da serra”, referência direta ao relevo que dá vida a rios como Salobra, Perdido, Formoso e Betione.
Segundo o portal oficial da Secretaria de Turismo de Bonito, o Parque Nacional da Serra da Bodoquena foi criado em 21 de setembro de 2000 com cerca de 76.400 hectares administrados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). É a única unidade de conservação federal de proteção integral do estado e cobre parte dos municípios de Bodoquena, Bonito, Jardim, Miranda e Porto Murtinho. O parque fica em zona de transição entre Cerrado, Pantanal e o último fragmento de Mata Atlântica do estado, abrigando mais de 340 espécies de aves, 195 de mamíferos e 50 de peixes, incluindo espécies ameaçadas como a onça-pintada, o puma e o cachorro-vinagre.

O que faz a Cachoeira Boca da Onça a mais alta do Mato Grosso do Sul?
A resposta está na geologia da Serra da Bodoquena. A Cachoeira Boca da Onça despenca 156 metros em queda única, dimensão que a coloca como a mais alta do estado. O nome vem da formação rochosa no meio da queda, que, vista de baixo, desenha o rosto de uma onça de boca aberta. A cachoeira fica dentro da Fazenda Boca da Onça, propriedade privada que destina 55% de seus 2.000 hectares à preservação ambiental.
- Trilha da Boca da Onça: percurso oficial que passa por oito quedas d’água e piscinas naturais, incluindo Buraco do Macaco, Poço da Lontra e Cachoeira do Fantasma. Ao final, o visitante enfrenta 886 degraus na subida, em uma das caminhadas mais desafiadoras do ecoturismo brasileiro.
- Plataforma de rapel: a Fazenda Boca da Onça mantém a maior plataforma de rapel do Brasil, com 90 metros de descida em queda livre e vista panorâmica da serra.
- Prêmio TripAdvisor: em 2025, o Boca da Onça Ecotour recebeu o prêmio Travellers’ Choice Best of the Best, sendo eleito a segunda melhor atração do Brasil e a terceira da América Latina.
- Cânion do Salobra: paredões rochosos de dezenas de metros que integram o passeio pela fazenda, com mirantes e trilhas suspensas.
Por que as águas de Bodoquena são tão transparentes?
A resposta está no subsolo. A Serra da Bodoquena é formada por rochas calcárias que funcionam como filtro natural. Ao atravessar esse embasamento, a água perde quase toda a turbidez e ganha tons de azul e verde esmeralda que são marca registrada da região. O processo também dá origem às tufas calcárias, depósitos naturais que esculpem cachoeiras e barragens ao longo dos rios.
Esse mesmo fenômeno explica por que a região concentra alguns dos principais rios de flutuação do país. As nascentes da serra alimentam cursos d’água com visibilidade que, em condições ideais, permite enxergar o fundo a vários metros de profundidade. A união desses rios com o mosaico Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica gera cenários difíceis de comparar com qualquer outro destino brasileiro.

Quais outros rios e atrações incluir no roteiro?
Além do complexo Boca da Onça, Bodoquena oferece passeios em rios cristalinos, cavernas e trilhas ecológicas. Boa parte fica dentro da zona de transição entre a serra e o Pantanal.
- Rio Salobra: um dos principais rios da região, é destino clássico para rafting em trechos com corredeiras suaves, além de passeios náuticos entre paredões rochosos.
- Rio Azul: nascente cristalina que oferece flutuação e passeio náutico entre paredões calcários e mata ciliar preservada, opção mais recente da região.
- Cachoeiras Serra da Bodoquena: atrativo próximo ao Parque Nacional com mais de 350 hectares de mata preservada, trilhas ecológicas e várias quedas d’água ao longo do percurso.
- Rio do Peixe: entre Bodoquena e Bonito, tem águas cristalinas, trilhas bem sinalizadas e cachoeiras em cenário paradisíaco.
- Rio Betione: outro ponto de flutuação em nascente de águas transparentes, procurado por famílias e grupos que buscam atividades leves.
O que provar na gastronomia sul-mato-grossense?
A mesa combina raiz caipira, herança do agronegócio pantaneiro e produtos da vasta produção agropecuária local. Restaurantes tradicionais mantêm a cozinha típica das comitivas de gado que desbravaram a região.
- Piraputanga: peixe de água doce típico da região, servido frito ou assado na brasa, em restaurantes tradicionais.
- Pacu grelhado: outro peixe característico do Pantanal, com preparo simples que valoriza o sabor original.
- Tereré: bebida gelada à base de erva-mate, considerada a bebida oficial da região, servida em rodas de conversa nos fins de tarde.
- Comida caipira do interior: frango caipira, feijão tropeiro e leitão à pururuca em restaurantes tradicionais da cidade e da zona rural.
- Chipa: pão de queijo típico da fronteira com o Paraguai, presente em mercados e lanchonetes da região.

Como é o clima e a melhor época para visitar Bodoquena?
O clima é tropical, com duas estações bem definidas. Verão quente e chuvoso, inverno seco e ensolarado. A estação seca é a melhor para trilhas e flutuação, com rios mais cristalinos e vias de acesso em melhores condições. O período chuvoso favorece o volume das cachoeiras e o rafting nos rios da região.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
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Como chegar a Bodoquena?
De carro, o acesso mais direto a partir de Campo Grande é pela BR-262 até Miranda, seguindo pela MS-339, com trajeto total de cerca de 260 km e viagem média de três horas e meia. A cidade fica a 60 km de Miranda e a 70 km de Bonito, o que permite roteiros combinados com as principais atrações da Serra.
Quem prefere avião pode desembarcar no Aeroporto Internacional de Campo Grande ou no Aeroporto Regional de Bonito, este último com voos regulares que reduzem o trecho final por rodovia. Serviços de transfer privado operam entre os dois aeroportos e os hotéis da região da Serra da Bodoquena.
O lado selvagem do Mato Grosso do Sul
Bodoquena reúne uma combinação difícil de encontrar em outro município brasileiro: a cachoeira mais alta do estado, a maior plataforma de rapel do país, o único parque nacional federal de proteção integral do Mato Grosso do Sul e um mosaico único de Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica em transição. O calcário da serra transformou os rios em espelhos naturais, e a Boca da Onça consolidou a região entre os principais destinos de ecoturismo do Brasil.
Você precisa conhecer Bodoquena e descer os 886 degraus até a base da Cachoeira Boca da Onça, flutuar em uma nascente cristalina do Rio Azul e entender por que a pequena cidade de oito mil habitantes virou um dos melhores endereços de ecoturismo da América Latina.




