Xingado de "macaco"

"De onde vem tanto ódio?", questiona delegado vítima de racismo no Lago Sul

O delegado Ricardo Viana se reuniu, na tarde desta terça-feira (11/8), com o pai e o irmão do morador do Lago Sul que o xingou de "macaco"

Sarah Peres
postado em 11/08/2020 20:55 / atualizado em 11/08/2020 20:55
 (foto:              Bruno Peres/CB/D.A Press                       )
(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press )

O delegado Ricardo Viana, chefe da 3ª Delegacia de Polícia (Cruzeiro), se reuniu, nesta terça-feira (11/8), o pai e o irmão do homem acusado de injúria racial. O investigador foi atacado pelo morador do Lago Sul, de 34 anos, na última sexta-feira (7), no McDonald's da região administrativa. Na ocasião, o suspeito chamou a vítima de "macaco" e "veado".

O acusado, ex-estudante de engenharia elétrica da Universidade de Brasília (UnB), acabou preso, mas foi liberado em audiência de custódia, mediante pagamento de fiança. Ele é monitorado por meio de tornozeleira eletrônica e já tinha sido denunciado depois de ser racista com um gari, em novembro passado

Segundo o delegado, a conversa ocorreu só depois de ficar combinado que os familiares do acusado não pediriam que a denúncia fosse retirada. "Ambos se retrataram em nome do ofensor. Neste momento, creio que não há espaço para alimentar o ódio. Conversamos de forma polida, como três pessoas diferentes e tolerantes devem se ater. Não sei o porquê de Deus me colocar naquele cenário com uma pessoa que jamais vi, mas a minha voz ecoou muito além do que eu imaginava", destaca Ricardo Viana. 

A repercussão nacional do caso, conforme análise do próprio investigador, pode ter ocorrido "por ocupar um cargo em uma das melhores polícias judiciárias do país". "Uma coisa é certa, não nasci delegado, mas, sim, negro, caçula de oito irmãos, filho de uma Raimunda e de um Antônio. Ambos nordestinos, os quais migraram para o Distrito Federal em busca de melhores condições de vida. Aqui nasci e pretendo viver como cidadão, isto é, em igualdade com os demais."

Ricardo Viana cita, inclusive, os casos de racismos que ganharam repercussão nacional desde a última sexta (7): a do jovem Matheus Fernandes, que teve uma arma apontada em sua direção por seguranças de loja de departamento em um shopping da Zona Norte do Rio de Janeiro, após tentar trocar um relógio que comprou de presente para o pai, de R$ 300; e do entregador de aplicativos de delivery Matheus Pires, agredido verbalmente por um morador de um condomínio de casas no bairro Chácaras Silvania, em São Paulo, por atrasar a entrega do pedido de comida — o crime foi filmado.

"Passamos uma semana com incidentes incomuns, Matheus, Ricardo, Francisco e muitos outros que estão no anonimato foram subjugados, simplesmente pelo tom da pele. De onde vem tanto ódio? Sem dúvida, este debate encontra-se aberto há 131 anos, momento em que meus antepassados, escravos, ou melhor, escravizados, foram 'libertados' e, até hoje, nós, negros, lutamos por direitos básicos. Creio que chegou a hora não de incrementar, mas de incendiar este tema, para que possamos um dia termos uma sociedade mais justa e igualitária. À minha filha, meus sinceros sentimentos de lhe ter exposto o mundo preconceituoso de forma tão truculenta. Aos racistas, o meu silêncio. Respeito!"

Sindicato repudia caso de racismo

Por meio de nota oficial, o Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal (Sinpol-DF) prestou solidariedade ao delegado Ricardo Viana, e repudiou o ato de racismo cometido pelo morador do Lago Sul. "O acontecimento, absolutamente lamentável, ocorreu justamente em uma semana em que mais dois episódios de racismo, em outros lugares do Brasil, ganharam bastante repercussão – o que deve nos levar, enquanto sociedade, a refletir sobre o assunto", iniciou o texto.

"Viana foi atacado de maneira covarde, de forma absolutamente gratuita (ainda que, em qualquer circunstância, um ato de racismo seja injustificável), o que torna o fato ainda mais grave. E, a despeito do que normalmente se diz sobre a postura dos policiais, manteve o controle – o que não é fácil em situações como essa", continuou a nota. 

O sindicato destacou, ainda, que repudia "todo e qualquer ato de discriminação a qualquer cidadão, mas, quando isso ocorre com um policial civil, toda a sociedade também é atacada". "Ao delegado Viana, prestamos nossa solidariedade e respeito. Manifestamos a consternação de toda a nossa diretoria e da categoria policial civil por esse triste e revoltante acontecimento."

Veja vídeo do delegado relatando o caso:

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