Entrevista

"Para crises pesadas, medidas têm de ser fortes", afirma Ibaneis Rocha

Chefe do Executivo local afirmou, no CB.Poder, que tem trabalhado para abrir leitos em unidades de terapia intensiva (UTIs) e para garantir o atendimento à população. No entanto, ele cobra que os brasilienses colaborem com as medidas sanitárias em vigor

Denise Rothenburg
Samara Schwingel
postado em 05/03/2021 06:00
Governador Ibaneis Rocha (MDB) participou do programa CB.Poder — parceria do Correio com a TV Brasília — nessa quinta-feira (4/3) -  (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Governador Ibaneis Rocha (MDB) participou do programa CB.Poder — parceria do Correio com a TV Brasília — nessa quinta-feira (4/3) - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Com a taxa de transmissão do novo coronavírus no Distrito Federal em 1,32, o governador Ibaneis Rocha (MDB) anunciou a abertura de mais três hospitais de campanha, com 100 leitos cada, no Ginásio do Gama, no Nilson Nelson e em Ceilândia. Além disso, o emedebista declarou que disponibilizará, até domingo (7/3), mais 130 leitos em unidades de terapia intensiva (UTI) voltadas para o tratamento da covid-19. Mesmo assim, o chefe do Executivo local alertou para a grave situação em que o DF se encontra, onde as vagas abertas são ocupados quase que imediatamente.

Em entrevista ao CB.Poder — parceria do Correio com a TV Brasília —, na quinta-feira (4/3), Ibaneis falou sobre a importância da suspensão das atividades e da diminuição da circulação de pessoas em até 60%. Com isso, segundo ele, será possível retomar, aos poucos, as atividades econômicas. Até lá, a vacinação deve avançar, pois o DF espera receber 600 mil doses de imunizantes contra a covid-19 neste mês. Assim, poderá ampliar a campanha para pessoas com 65 anos ou mais até o fim de março.

O governador destacou que, nesta sexta-feira (5/3), editará um novo decreto, que prevê a cassação do alvará de estabelecimentos que não cumprirem as regras de funcionamento durante o período de pandemia. Segundo Ibaneis, a medida é drástica, mas necessária para conter o avanço do novo coronavírus na capital federal.

Infelizmente, estamos vivendo essa situação da pandemia, que levou o senhor a decretar o lockdown, mas os empresários não gostaram. Como o senhor vê as manifestações, que leitura faz desses primeiros dias e por quanto tempo teremos o lockdown?
Sei da dificuldade pela qual eles (empresários) estão passando e me solidarizo com todos. Acho que o momento é de muita dificuldade na área econômica, mas chegamos a um ponto na Saúde em que não havia outra medida a ser tomada. Quando decidimos pelo lockdown, chegamos a 97% de UTIs (unidades de terapia intensiva) ocupadas e tivemos momentos, durante esta semana, com 99% de UTIs ocupadas. O índice de transmissão do vírus, que é o que mais nos preocupa, chega a 1,32. Isso quer dizer que 100 pessoas contaminadas transmitem para mais 132. O que indica que, mesmo com um grande trabalho na abertura de UTIs, teremos um agravamento da crise nos próximos dias. Por isso, clamamos à população que use máscaras, álcool em gel e, àqueles que não têm necessidade de ir às ruas, que fiquem em suas residências. Precisamos diminuir o índice de transmissão, senão não voltaremos à normalidade. Estou programando a abertura de novos hospitais de campanha. A licitação deve sair na segunda-feira (8/3), para mais três unidades, com 300 leitos, instaladas no Ginásio do Gama, no Ginásio Nilson Nelson e uma em Ceilândia. Até domingo (7/3), vamos abrir mais 130 vagas de UTI, para manter o atendimento à população tanto daqui quanto do Entorno. Mas temos necessidade de que a população se conscientize do grave momento pelo qual passa o Brasil.

Algum setor vai abrir na semana que vem?
Veja: hoje, abro um leito de UTI, e ele é preenchido imediatamente. Estamos com um número muito pequeno de leitos. Então, temos de avaliar. Estou pensando, com meu pessoal, em abrir academias e escolas particulares, no esquema em que eles vinham trabalhando, com 50% de alunos em uma semana e 50% na outra. Mas isso tudo será estudado, para vermos se, com essa abertura, não vamos causar o agravamento da taxa de infecção. Pretendemos diminuir a circulação de pessoas na cidade. Somente essa diminuição faz com que caia o índice de infecção. Com esse lockdown, temos a expectativa de reduzir de 50% a 60% a circulação de pessoas no DF e de liberar os setores aos poucos, conforme (haja) a abertura de leitos de UTI.

Uma forma de conter a doença é a vacinação. Temos vacinas no DF para atender a população até quando? E quando chegam novas doses?
O compromisso do ministro (da Saúde, Eduardo) Pazuello é de distribuir, ainda em março, 38 milhões de doses. O que chegaria ao Distrito Federal seria em torno de 600 mil, e teríamos como vacinar o público acima de 65 anos. Para o mês de abril, a promessa é que (a remessa) chegue perto dos 54 milhões de doses, e teríamos um avanço progressivo, vacinando os públicos mais vulneráveis. Temos a expectativa de vacinar, ao menos, metade da população até julho. Essa é a promessa do Ministério da Saúde, e eu confio que será cumprida.

O senhor conversou com o presidente Jair Bolsonaro sobre essa situação de lockdown, de que ele deveria mudar o posicionamento ou algo nesse sentido?
Ele deixa a (vacinação a) cargo dos estados. Acho que os estados têm condições de fazer isso e que vêm fazendo. Acredito que, pelos próximos 15 dias, teremos uma grande maioria dos estados nessa situação (de lockdown), até porque a crise se agravou em toda a Federação. Muitos falam que nós, governadores, não nos prevenimos, mas todos nós tomamos as medidas necessárias. Ninguém consegue manter a população dentro de casa por muito tempo. Tanto que, mesmo com o lockdown, temos um número grande de pessoas nas ruas. O que clamamos é que vão continuar saindo, vão continuar morrendo. Chegamos a ter um dia com 26 mortes no Distrito Federal, o que é um número muito grande. Não adianta ter dinheiro. Os hospitais públicos estão fazendo todo o possível, e os hospitais privados estão lotados. Não adianta ter plano de saúde, ter recursos, que (o paciente) não vai conseguir (atendimento). Não brinque com a situação. Vai chegar um ponto em que ninguém terá leito se não tomarmos cuidado neste momento.

E para o público de 60 a 64 anos, qual é a previsão de vacinação?
Acreditamos que, a partir de abril, começamos a vacinar o público em geral. A ideia é iniciar com (pessoas de) 60 anos para cima, (pessoas com) comorbidades e, depois, o público geral. A partir da chegada das doses programadas para março, queremos incluir, também, alguns grupos prioritários, como professores, fiscais da DF Legal (Secretaria de Proteção à Ordem Urbanística), (profissionais da) assistência social, conselheiros tutelares e policiais.

Por que não passar a multar as pessoas em geral, não só donos de estabelecimentos?
Vamos editar um decreto, até amanhã (sexta-feira), para os estabelecimentos que não obedecerem às regras e aqueles que estão abrindo de forma ilegal durante o período do lockdown. Antes, era preciso aplicar multa e suspensão. Agora, vamos cassar o alvará dos que não obedecem e aglomeram. O pessoal da área jurídica está fazendo o estudo e, amanhã (sexta-feira), devo editar esse decreto. Se (o estabelecimento) estiver aberto e errado, vai para a cassação do alvará ou (terá) a suspensão das atividades por um período de até 60 dias. Para crises pesadas, como a que estamos vivendo, as medidas têm de ser fortes. Quanto mais rápido trabalharmos, mais rápido saímos da crise e retomamos a economia do DF.

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