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Mulheres vivem rotina de medo e insegurança em ônibus e nas ruas

Passageiras do transporte público no DF relatam já terem sofrido com algum tipo de violência; elas temem aguardar nas paradas sem companhia e caminhar pelas vias mal iluminadas e desertas na volta para casa

Renata Nagashima
postado em 12/03/2022 06:00
Rebeca Alvarenga: sentimento de insegurança é maior quando precisa sair com os filhos -  (crédito:  Ed Alves/CB)
Rebeca Alvarenga: sentimento de insegurança é maior quando precisa sair com os filhos - (crédito: Ed Alves/CB)

O medo de caminhar na rua para eles não faz tanto sentido, mas, quando se é mulher, esse temor é real e uma tensão constante. Dentre os receios, estão furto, roubo, abuso, assédio e estupro. Qual é o seu maior medo quando se fala em mobilidade? E onde fica o direito de ir e vir quando elas se privam de sair sozinhas por medo?

O receio de sair desacompanhada é algo presente na vida da estudante Talita Martin, 19 anos. Ela evita sair de casa à noite ou quando está sozinha. "Estou sempre com medo, até durante o dia e principalmente quando o ônibus está mais vazio e entra algum homem", conta. A preocupação da jovem, no entanto, não é apenas na mobilidade, mas também quando precisa se locomover em carros de aplicativo. "Minha mãe não deixa eu pegar sozinha de jeito nenhum. Na nossa sociedade, mesmo com várias leis que protegem a mulher, não dá para confiar, porque você não sabe o que se passa na cabeça deles".

De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), em 2021, das 516 denúncias de importunação sexual, 34,3% foram assediadas dentro do transporte público, 14,8% em locais públicos e 2,1% em paradas de ônibus. Em relação aos casos de estupro, dos 607 registros, 25% aconteceram em via pública.

A estudante Naiara Moreira, 23, foi uma dessas vítimas. Ela cochilou dentro do ônibus e, quando acordou, um homem, sentado ao lado dela, estava com a mão sobre o umbigo da jovem. "Eu fiquei em choque, paralisada. Ele me olhou e, quando eu reagi, pedi para ele sair de perto de mim", relata. Ela ressalta que as pessoas ficaram olhando e ninguém fez nada. Para Naiara, essa não é apenas uma questão de segurança e policiamento, mas que precisa mudar na sociedade. "Eu deveria me sentir segura dentro do ônibus, mas a sensação de medo já virou parte da rotina."

Desrespeito

O medo da moradora do Guará Maria Carmem Irmão, 42, não é dentro do transporte público e sim nas paradas de ônibus. "Já presenciei vários casos de assédio. Dependendo do horário, não tem ninguém na rua e isso aumenta ainda mais a sensação de insegurança", afirma. Ela destaca que a mulher ainda é muito desrespeitada. "Além de melhorar iluminação e policiamento, as pessoas também precisam mudar e as autoridades precisam pensar nisso, eles esquecem das mulheres", crítica.

O sentimento de insegurança é o mesmo para Rebeca Alvarenga, 33, ainda mais quando precisa sair sozinha com os filhos Sarah, 7, e Daniel, 5. Da parada de ônibus até a casa dela, a moradora de Águas Linda (GO) precisa caminhar por 20 minutos. "Não tem policiamento e, por ser mais deserto, dá mais medo ainda. Mas não é só em Águas Lindas, é perigoso andar sozinha na rua em qualquer lugar. A mulher é alvo fácil", aponta.

Uma pesquisa feita pela organização Think Olga, que trabalha para sensibilizar a sociedade sobre questões de gênero, apontou que 77,8% das mulheres se sentem inseguras nos pontos de ônibus. De acordo com o estudo Meu Ponto Seguro, a iluminação e a ausência de pessoas nas ruas são os fatores mencionados como os maiores causadores de insegurança.

No entanto, de acordo com Amanda Kamanchek, gerente da Think Olga, infraestrutura e políticas públicas devem caminhar lado a lado. "Essa é uma questão muito mais cultural que estrutural. Claro que precisamos de mais iluminação, seguranças e de paradas de ônibus em pontos estratégicos, mas a gente também precisa promover orientações e debates e conscientização", destaca.

Nas ruas

O medo de andar sozinha pelas ruas é algo que ficou ainda mais presente na vida da estudante Nayara Bispo, 18, após ser perseguida por um desconhecido. "Eu estava saindo de uma loja e ele começou a me seguir. Fiquei apavorada e corri para entrar dentro de uma multidão. Dei sorte porque tinham muitas pessoas na rua", relata.

Desde o episódio, a moradora do Itapoã evita andar sozinha, principalmente no percurso entre a parada de ônibus e casa. Todos os dias, a mãe de Nayara precisa buscá-la no ponto. "É uma situação complicada, porque a gente se priva de muitas coisas ou quase sempre está dependendo de outra pessoa", completa.

Especialista em trânsito, Adriana Souza fez um estudo analisando o medo das mulheres andarem a pé. Segundo pesquisa feita pela pesquisadora, há um modelo urbano e social que perpetua o sentimento de insegurança, oferecendo uma realidade hostil para mulheres que precisam se deslocar a pé, independentemente do horário.

Três fatores foram considerados no levantamento: infraestrutura urbana, segurança pública e questões socioculturais. "Independentemente de onde a mulher esteja, o medo é quase parte desse ser humano. Ela cresce já escutando o que pode acontecer se sair sozinha na rua. No Distrito Federal, em qualquer local e horário, as mulheres têm medo e, antes de sair, elas fazm estratégias, seja de vestimenta ou percurso mais longo, por medo", analisa a especialista.

 


  • Nayara Bispo: "É uma situação complicada, porque a gente se priva de muitas coisas"
    Nayara Bispo: "É uma situação complicada, porque a gente se priva de muitas coisas" Foto: Ed Alves/CB
  • Insegurança é mais que uma questão social
    Insegurança é mais que uma questão social Foto: Ed Alves/CB
  • Maria Carmem:
    Maria Carmem: "Já presenciei vários casos de assédio" Foto: Ed Alves/CB
  • Naiara Moreira:
    Naiara Moreira:"Eu fiquei em choque, paralisada" Foto: Ed Alves/CB

Adriana Souza, especialista em trânsito

O que precisa ser feito para que as mulheres tenham segurança no ir e vir?
Para viabilizar o aumento da segurança e a sensação de segurança das mulheres em seus deslocamentos diários é necessário um conjunto de ações a serem feitas. Primeiro as mulheres precisam ser ouvidas, porque quem planeja não escuta a mulher, elas precisam de mais visibilidade. Em segundo, é necessário desenvolver políticas públicas. Não adianta só aumentar iluminação e policiamento se não coagir pessoas que violentam mulheres. É um conjunto de complementares para que não perpetue a ação machista que objetifica a mulher.

numeralha

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