
As pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) experienciam o mundo de maneiras próprias e, muitas vezes, precisam adaptar-se a uma sociedade que ainda insiste em moldar comportamentos em vez de se adaptar à diversidade humana. O autismo, cujo termo deriva de "auto", que significa "si mesmo", é descrito pela metáfora de viver em um "mundo próprio". Ainda assim, nada impede que pessoas autistas vivam uma vida plena, como no mercado de trabalho, na educação, nos vínculos familiares, nas amizades e nos relacionamentos amorosos. No Brasil, mais de 2,4 milhões de pessoas estão no espectro e, no Distrito Federal, são 34.136, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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Luiz Mário Andrade, de 27 anos, morador da Asa Sul, construiu sua trajetória acadêmica e profissional ligada à pesquisa, algo que o acompanha desde os 15 anos. Ele atua há quase três anos como bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), trabalhando com engenharia e análise de dados. Formando em engenharia de produção, ele cursa economia na Universidade de Brasília (UnB).
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"Eu escolhi esse trabalho porque eu gosto muito de pesquisa. É algo que me alimenta muito e eu descanso trabalhando com isso. É um hiperfoco, então, eu acabo casando a produtividade no trabalho com os meus interesses mais profundos. Eu reconheço que muitos autistas não têm isso. Hiperfoco não é algo que se escolhe."
Ao falar sobre o diagnóstico de autismo, recebido há um ano, Luiz conta que não sofreu julgamentos no ambiente de trabalho e que, na verdade, recebe incentivo para usar suas características de forma produtiva. "Eu tenho apego em trabalhar com microdados, por isso, eles me passam atividades relacionadas a isso", explica. Mesmo assim, ele admite temer o futuro profissional devido à distância entre discursos e práticas de inclusão. "Eu já me candidatei para várias vagas que se dizem inclusivas e, mesmo tendo um currículo muito bom, não fui para frente."
No Ipea, entretanto, Luiz afirma sentir-se acolhido pela flexibilidade e pela baixa exigência de contato social, aspectos que tornam o ambiente mais favorável para pessoas autistas. Ele ressalta como a atividade híbrida e a liberdade de escolha entre presencial e remoto ajudam a equilibrar estímulos e bem-estar. Para ele, inclusão real exige mais do que políticas formais. "Incentivar uma pessoa autista ao mercado de trabalho vai além da inclusão, é fornecer instrumentos para que ela possa trabalhar com maior liberdade, conforto e segurança. Isso vai além de cotas, e sim de políticas de inclusão que nos façam sentir valorizados."
Giulia Viana, 21, estudante e fotógrafa autônoma, da Asa Sul, relembra que sua paixão profissional surgiu de maneira espontânea, quando colegas e conhecidos passaram a procurá-la para serviços. Ela destaca que o envolvimento com a área não está relacionado ao TEA, mas ao amor genuíno pela arte. Com mais de 40 clientes atendidos desde 2023, Giulia relata que algumas situações ainda geram insegurança, especialmente no que diz respeito à forma como pessoas com TEA podem ser julgadas. "Em alguns ambientes, prefiro não falar inicialmente que sou autista para não ser subjugada ou tratada como incapaz."
Apesar dos desafios, principalmente ligados à comunicação e à interação com desconhecidos, Giulia mantém uma visão otimista. Ela ressalta que sua maior força está na capacidade de aprender rápido e se dedicar profundamente ao que ama. "Meu medo está relacionado ao futuro do mercado. E está cada vez mais difícil conseguir trabalho sem qualificações muito específicas, e muitas pessoas estão recorrendo ao trabalho autônomo por isso. A minha maior dificuldade é a comunicação. Sou muito introvertida e falar com pessoas desconhecidas é quase uma força-tarefa para mim", diz. Para ela, viver experiências novas é necessário para o desenvolvimento pessoal e profissional. "Hoje, as pessoas estão mais receptivas ao TEA, e isso facilita muito a compreensão sobre quem nós somos. Vale a pena tentar e acreditar no próprio potencial."
Educação
A educação inclusiva depende do preparo das instituições para reconhecer e atender as necessidades individuais de cada aluno. A estudante da Escola de Música de Brasília (EMB), Letícia Gois, 21, moradora da Asa Norte, descreve os desafios que enfrentou no ambiente educacional tradicional antes de se encontrar na música. "Tenho bastante interesse em estudar assuntos pelos quais sou fascinada, mas tenho dificuldade de me concentrar se o 'brilho' do assunto é perdido. Isso torna difícil manter constância nos estudos. Tive professores que perguntaram se eu tinha algum 'problema' por não me apresentar na frente da turma, quando, para mim, é difícil a exposição. Já outros professores foram super acolhedores."
Quando pensa no futuro profissional, Letícia sente insegurança sobre o mercado de trabalho para pessoas no espectro. "Apesar das políticas de inclusão, ainda sinto que as pessoas estão relutantes em contratar autistas."
Ela destaca que critérios como contato visual e comunicação social podem colocar pessoas autistas em desvantagem em entrevistas, mesmo quando têm qualificação técnica. "Sinto que existe a prática de contratar autistas só para preencher vagas PcD (pessoas com deficiência), sem se importar com a verdadeira inclusão. Como estudante universitária, me encontro em um limbo entre o medo do futuro e a estabilidade de ainda ser estudante. Sinto que temos muito caminho a percorrer em relação aos direitos PcD."
Relacionamentos
O auxiliar de monitoramento Ézio Gabriel Queiroz, 20, morador do Gama, conta que sua relação social vem mudando ao longo dos anos. Hoje, ele afirma viver um cenário mais leve, embora não isento de ansiedade. "Eu, inconscientemente, fico medindo o que estou falando e, quando chego em casa, fico pensando se falei algo errado. É uma angústia."
No campo afetivo, Ézio vive uma relação com uma pessoa neurotípica, em que o diálogo sobre suas necessidades é parte constante da rotina. "Minha namorada se preocupa bastante. Quase todo dia, a gente conversa sobre isso." Entre amigos, porém, o diagnóstico é quase esquecido. Em casa, a experiência é mais complexa. "A minha mãe é a pessoa que mais se preocupa, ela que buscou o diagnóstico, mesmo quando eu não queria", revela.
Ele afirma que o núcleo familiar lida bem com o tema, mas alguns parentes ainda reproduzem estereótipos. "Não vejo como algo proposital, mas, sim, como ignorância das pessoas em relação ao espectro."
Ézio também reconhece as dificuldades que já enfrentou em seus relacionamentos anteriores devido ao transtorno. A interpretação de sentimentos alheios sempre foi um desafio. "Às vezes, eu só queria ficar sozinho. Eu tenho muita dificuldade de entender o que está acontecendo se a pessoa não falar diretamente comigo."
Com o amadurecimento e em sua relação atual, diz ter encontrado um terreno mais seguro. "Existem, sim, algumas dificuldades em se relacionar amorosamente sendo uma pessoa autista. Mas, no meu relacionamento atual, é muito mais tranquilo. O amor é desejar estar com aquela pessoa e cuidar um do outro."
Apoio
A neuropsicóloga especialista em transtornos de neurodesenvolvimento Camila Ferrari enfatiza que existe uma grande variabilidade do espectro, lembrando que não há um padrão único que defina como uma pessoa autista será ou se comportará. Segundo ela, "o transtorno se manifesta de diferentes maneiras em cada pessoa" e, por isso, é preciso compreender essa diversidade. "Com apoio qualificado, os desafios são contornados e as potencialidades incentivadas. Isso implica na qualidade de vida do sujeito, sua família e sociedade."
O secretário da Pessoa com Deficiência, Willian Ferreira da Cunha, disse ao Correio que a pasta trabalha para assegurar inclusão plena. "A Secretaria da Pessoa com Deficiência atua de forma abrangente para garantir que todas as pessoas com deficiência, incluindo as pessoas com TEA, sejam reconhecidas, validadas e incluídas em todos os espaços. Nós reafirmamos o compromisso permanente em construir um DF mais inclusivo, onde pessoas com TEA tenham suas necessidades respeitadas, sua voz ouvida e seu potencial plenamente reconhecido", reforçou.
O deputado federal Amom Mandel (Cidadania-AM) foi o primeiro parlamentar a tornar público seu diagnóstico de autismo no Brasil. Jovem e com receio da exposição, transformou a pauta uma luta por melhorias na comunidade. "Em geral, tanto na área da saúde quanto na elaboração de políticas públicas e, portanto, em todos os outros aspectos da sociedade, há um extremo sistema de desconhecimento". Ele avalia que esse desconhecimento é alimentado por medos históricos e pela confusão frequente entre autismo, deficiência intelectual e esquizofrenia.
A experiência pessoal de Amom moldou a forma como conduz seu mandato. "No meu gabinete, tenho pelo menos cinco pessoas autistas. A ideia é que elas possam se sentir representadas e possam enxergar até onde uma pessoa diagnosticada com TEA pode chegar, como eu", assinala. "O diagnóstico não é uma sentença de morte. É simplesmente uma forma de entender melhor o seu funcionamento", completa.
Assistência
A Câmara Legislativa (CLDF) sediará o 1º Fórum da Empregabilidade e das Relações Profissionais Saudáveis para o Jovem e o Adulto Autista. O encontro, que ocorre em 15 e 16 de dezembro, das 8h às 18h, no auditório da CLDF, reunirá especialistas nacionais e internacionais, representantes do poder público e da sociedade civil.
Idealizado por Thomas Strauss, da empresa brasiliense de inovação MajorTom, o fórum é organizado em parceria com instituições de referência na pauta. A proposta central é garantir protagonismo às pessoas autistas. Jovens e adultos participarão de forma ativa, não apenas como ouvintes e sim como vozes nas discussões. Suas experiências, análises e contribuições diretas irão orientar soluções para os desafios apresentados.
Outra iniciativa foi a inauguração pelo Governo do Distrito Federal (GDF), em dezembro, do primeiro Centro de Referência Especializado em Autismo (Cretea) do DF, localizado na Estação 108 Sul do Metrô. Com investimento de mais de R$ 700 mil, o espaço foi planejado para oferecer diagnóstico rápido, atendimento especializado e suporte multidisciplinar a crianças de até 10 anos com TEA. O Cretea funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h.
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