
Amanda Rodrigues de Sousa, 28 anos, investigada pela morte de três pacientes na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga, teve a primeira conversa com o advogado que a representa, Liomar Torres. Dentro da penitenciária feminina, durante 70 minutos, a técnica de enfermagem detalhou sobre o relacionamento com Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24, — também preso —, descreveu sua personalidade e negou veementemente o envolvimento nos assassinatos da professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, 75, do servidor da Caesb João Clemente, 63, e do servidor dos Correios Marcos Moreira, 33. Isso após negar os fatos inicialmente, e confessar ao ser confrontada com as imagens das câmeras de segurança do hospital.
Amanda foi contrtada pelo Anchieta em janeiro de 2025. Antes, ela trabalhou em, pelo menos, cinco hospitais privados da capital, além de participar de processos seletivos para a rede pública de saúde. Entre um plantão e outro, Amanda e Marcos se aproximaram e iniciaram uma relação extraconjugal. Segundo ela, o técnico dizia ser solteiro.
O relacionamento durou até o final de 2025 e termininou após Amanda descobrir uma série de mentiras contadas pelo técnico, disse o advogado. Marcos mentiu sobre várias coisas para além da união conjugal: disse que morava no Riacho Fundo (mas reside em Águas Lindas), contou que cursava fisioterapia e relatou ter trabalhado no Hospital de Base. A Secretaria de Saúde desmentiu o vínculo profissional de Marcos na rede pública. "Ela o descreve como um homem habilidoso e envolvente. De aparência bem sucedida, mas que tinha um poder de manipulação", pontuou Liomar Torres.
Amanda desconfia que o técnico de enfermagem tenha tentado contra a vida dela enquanto esteve internada na UTI do Anchieta, após intercorrências de uma cirurgia bariátrica. Segundo o advogado, Amanda passou por internações sucessivas entre 20 de novembro e 3 de dezembro de 2025. Nesse intervalo, recebeu alta, realizou exames e retornou à unidade. Em 3 de dezembro, Marcos teria aplicado uma substância na veia de Amanda, episódio que, segundo ela, provocou uma alteração cardíaca. "A enfermeira-chefe interveio na época", afirmou o advogado.
Ainda de acordo com a defesa, após o ocorrido, a enfermeira-chefe do hospital teria reagido dizendo: "O Marcos precisa parar de fazer isso. Não aguento mais esse tipo de situação". Dias depois, pediu demissão.
Ao defensor, ela negou veementemente qualquer envolvimento nas mortes investigadas. Disse lembrar que integrou a equipe da UTI em 17 de novembro, data das mortes da professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, 75, e do servidor da Caesb João Clemente Pereira, 63. Liomar informou que aguarda a decisão judicial para ter acesso aos autos do processo, para, assim, estudar a impetração de algum recurso com base no ordenamento jurídico.
Convívio
Para quem conviveu com Marcos durante a adolescência, a prisão do técnico ainda é motivo de choque. Uma amiga próxima dos tempos de ensino médio em Taguatinga, que preferiu manter o anonimato, descreve o suspeito como um jovem "tranquilo, carinhoso e brincalhão", que já demonstrava entusiasmo pela carreira na saúde. Segundo ela, Marcos costumava levar materiais de estudo de anatomia para a escola, mostrando uma dedicação precoce à profissão que agora é palco das investigações. "Ele nunca demonstrou nenhum traço que pudesse indicar que cometeria algo assim. Pelo contrário, mostrava muito amor pela área", afirma.
A antiga colega relata que as notícias das denúncias assombraram o antigo grupo de amigos do suspeito e foi recebida com incredulidade. "Não havia qualquer alerta vermelho ou comportamento que parecesse estranho", diz. Para o grupo, é difícil conciliar a lembrança do jovem que se dava bem com todos e planejava o futuro na enfermagem com o homem investigado por atrocidades dentro do ambiente hospitalar. "Ainda não consigo assimilar. É assustador ver alguém que era tão próximo envolvido em algo desse tamanho", desabafa a mulher.
Penas
Além de Amanda e Marcos, também está presa Marcela Camilly Alves da Silva, 22. O enquadramento penal para o caso, diante da hipótese de aplicação deliberada de substâncias letais, aponta para o crime de homicídio qualificado. Segundo o advogado e professor de direito constitucional e penal Vítor Sampaio, a vulnerabilidade dos pacientes em UTI e o método utilizado são determinantes para a gravidade da acusação. "O enquadramento mais provável é o de homicídio qualificado pelo 'emprego de veneno' ou 'meio insidioso', e também por 'recurso que dificultou ou tornou impossível a defesa', já que as vítimas estavam sedadas", explica.
O advogado ressalta que o número de qualificadoras impacta diretamente na punição: "Outras qualificadoras podem ser acrescentadas a depender da conclusão da investigação, como motivo fútil ou torpe. Quanto mais qualificadoras, maior a pena", afirma.
Com a investigação apontando ao menos três mortes, a Justiça deve aplicar o chamado concurso material, sistema no qual as penas de cada um dos crimes são somadas. Sampaio detalha que, em caso de condenação pelas três vítimas sob a forma qualificada, o intervalo da sentença total ficaria entre 36 e 90 anos, embora o sistema brasileiro imponha um limite prático.
"A soma pode ultrapassar 40 anos, mas o cumprimento efetivo, em regra, não pode exceder esse teto. No entanto, por se tratar de crime hediondo, o cenário é de extremo rigor, com início obrigatório em regime fechado", pontua o advogado.
A progressão para regimes mais brandos também deve ser dificultada pela natureza do crime, exigindo o cumprimento de ao menos 40% da pena em regime fechado para réus primários. Quanto às outras profissionais envolvidas, Sampaio ressalta que a responsabilidade pode ser equivalente à do executor principal, a menos que se comprove um papel periférico.
"Se a participação delas for realmente secundária, o juiz pode aplicar a regra da participação de menor importância e a pena vai cair bastante. Sinceramente, acho difícil conseguirem sustentar essa hipótese", avalia o especialista, ponderando que, se ficar provado que elas aderiram ao plano, podem responder como coautoras com as mesmas penas de 12 a 30 anos por vítima.
Saiba Mais
Investigações
O inquérito que apura as três mortes deve ser concluído pela polícia nas próximas semanas. Investigadores da Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP) ainda aguardam o resultado dos laudos periciais dos celulares e notebooks apreendidos nas casas dos alvos.
Segundo o delegado-chefe da CHPP, Wisllei Salomão, um novo procedimento investigativo será instaurado para apurar possíveis novas vítimas. A polícia analisa ainda o relatório elaborado pelo Anchieta, que detalha o passo a passo de Marcos no dia das mortes das vítimas, em 17 de novembro e 1º de dezembro de 2025.
Letícia Mendes, filha da agente de políticas públicas em saúde Rosangela Mendes (foto), 55 anos, registrou um boletim de ocorrência na terça-feira (20/1) para investigar as circunstâncias da morte da mãe, ocorrida em janeiro de 2025, no Hospital Anchieta. Internada inicialmente para tratar uma pneumonia, Rosangela demonstrou um temor crescente durante a estadia na UTI. Segundo a família, ela chegou a confrontar a equipe sobre falhas em procedimentos, como medicações não informadas e problemas no manejo de sondas.
Com o registro da ocorrência, o objetivo da família é cruzar os dados do prontuário médico e as imagens das câmeras de segurança para verificar se algum dos suspeitos detidos teve acesso direto a Rosangela. O hospital tem até 30 dias para fornecer o material.
A PCDF informou não haver, até o momento, um número consolidado de ocorrências registradas após a prisão de Marcos. O delegado-chefe da CHPP, Wisllei Salomão, explica o desdobramento. "Vamos instaurar um novo inquérito policial para apurar se outras mortes podem ter sido provocadas por eles. Mas não há nada comprovado. Estamos apurando todos os fatos relatados por familiares que nos procuraram. É algo preliminar, que exige aprofundamento na investigação", frisou.

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