CB.DEBATE

Mudanças sociais e sobrecarga profissional agravam crise de saúde psíquica

Psiquiatra destaca que o aumento dos transtornos mentais está ligado a mudanças sociais, sobrecarga profissional e limites do modelo de cuidado atual

Durante o CB.Debate "Janeiro Branco: diálogos sobre a saúde mental no Brasil, o psiquiatra Lucas Benevides (terno escuro) comenta que o adoecimento não atinge apenas a população em geral, mas também profissionais estratégicos para o funcionamento da sociedade -  (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
Durante o CB.Debate "Janeiro Branco: diálogos sobre a saúde mental no Brasil, o psiquiatra Lucas Benevides (terno escuro) comenta que o adoecimento não atinge apenas a população em geral, mas também profissionais estratégicos para o funcionamento da sociedade - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

O avanço dos transtornos mentais no Brasil vai além da falta de leitos, recursos ou acesso ao tratamento. Para o psiquiatra da rede Verse In e professor do UniCeub Lucas Benevides, o cenário atual revela uma crise mais profunda, marcada pela perda de valores essenciais como autonomia, racionalidade, autocontrole e previsibilidade. A análise foi apresentada durante o painel do CB.Debate “Janeiro Branco: diálogos sobre a saúde mental no Brasil”, promovido pelo Correio Braziliense, ao discutir os desafios do cuidado em uma sociedade cada vez mais acelerada e instável.

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Segundo o médico, o adoecimento não atinge apenas a população em geral, mas também profissionais estratégicos para o funcionamento da sociedade. Médicos, policiais, professores e trabalhadores do sistema financeiro apresentam índices de sofrimento psíquico até cinco vezes maiores que a média, o que evidencia a necessidade de ampliar o debate sobre saúde mental para além da segurança pública e do sistema de saúde. “Nós, profissionais de cuidado, também adoecemos”, alertou.

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Lucas destacou que, quando se fala em saúde mental, o debate costuma se concentrar em questões estruturais, como judicialização e falta de vagas, mas raramente avança para a dimensão existencial do sofrimento. A partir da experiência clínica, ele observa uma recorrente “quebra do sentido da vida”, associada a transformações sociais que enfraquecem valores historicamente ligados ao equilíbrio emocional. Em uma sociedade guiada pela influência e pela pressa, a autonomia cede lugar à busca constante por validação externa e decisões impulsivas.

Outro ponto levantado foi a valorização crescente de comportamentos agressivos e descontrolados, em detrimento da moderação, do diálogo e da cordialidade.

Para o psiquiatra, esse deslocamento simbólico impacta diretamente a saúde mental coletiva, assim como a sensação de imprevisibilidade gerada por crises políticas, econômicas e conflitos globais. “A estabilidade é um valor fundamental para a saúde mental, e hoje vivemos sob a permanente sensação de que tudo pode ruir a qualquer momento”, analisou.

Mesmo atuando em um sistema privado, com acesso a protocolos, internações e atendimentos ambulatoriais, Lucas afirma que ainda enfrenta abandono de tratamento, cronificação de quadros, desesperança persistente e medicalização excessiva. Ele também chamou atenção para a sobrecarga das equipes de saúde, ressaltando que o cuidado mental exige mais do que técnica.

Por fim, Lucas defendeu três pilares clínicos fundamentais para o cuidado em saúde mental: fé, esperança e amor — não em um sentido religioso ou afetivo, mas ético. A fé no cuidado e na ciência, a esperança sustentada no tempo necessário do tratamento e o amor entendido como limite ético da intervenção. Para o psiquiatra, quando esses valores se perdem, o cuidado se fragiliza. “A saúde mental não fracassa por falta de técnica, mas quando perde a capacidade de sustentar fé no cuidado, esperança no processo e amor como princípio ético”, afirmou.

CB.Debate

Em alusão ao mês dedicado à conscientização sobre a importância da saúde mental, o Correio promove, nesta quinta-feira (29/1), o CB.Debate “Janeiro Branco: diálogos sobre a saúde mental no Brasil”. O evento está sendo transmitido ao vivo pelo canal do Youtube e, ao final de cada painel, o público on-line e presencial poderá fazer perguntas aos painelistas.

Além dos fatores de adoecimento mental e desafios na assistência, será discutida ainda a construção de espaços de escuta e cuidado. Entre os painelistas, autoridades, médicos e especialistas compõem o debate.

No Brasil, segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2024 e 2025, houve um aumento de 143% na quantidade de pessoas afastadas do trabalho por transtornos mentais, um cenário que pede atenção e responsabilidade por parte do governo e sociedade.

Assista o debate ao vivo:

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postado em 29/01/2026 11:33 / atualizado em 29/01/2026 11:46
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