Entre rituais, orações, reflexões e práticas espirituais distintas, diferentes religiões enxergam a chegada de um novo ano como um momento de renovação, esperança e compromisso com valores universais. Budistas, judeus, cristãos, espíritas, seguidores de religiões de matriz africana e de tradições orientais partem de crenças e caminhos diversos, mas convergem em mensagens semelhantes para a virada do ano: mais paz, solidariedade, equilíbrio e responsabilidade individual e coletiva. Em um cenário marcado por conflitos e incertezas, essas vozes religiosas mostram que a pluralidade de fé não separa — ao contrário, pode unir em torno do desejo comum de um futuro melhor.
Para a Igreja Católica, a chegada de 2026 é marcada pela expectativa de paz e esperança, especialmente pela continuidade ao espírito do Ano Jubilar — evento convocado pelo papa a cada 25 anos, focado em peregrinação, penitência e conversão — vivido pela Igreja em 2025. De acordo com o arcebispo de Brasília, dom Paulo Cézar, a Igreja busca reacender esse sentimento em uma sociedade atravessada por desesperança, desigualdades e conflitos. "Desejamos que 2026 seja um ano de muita esperança e de paz", afirmou, lembrando que o início do ano é, tradicionalmente, marcado pelo Dia Mundial da Paz, celebrado em 1º de janeiro.
A comunidade judaica compartilha da visão de que a passagem de ano não se trata somente de uma passagem temporal, mas um movimento interior profundo, de revisão de escolhas e reconexão com aquilo que dá sentido à vida. Segundo o Chazan Alexander Markel, membro da Comissão Religiosa da Associação Cultural Israelita Brasília (Acib), no ano-novo judaico — o Rosh Hashaná —, acredita-se simbolicamente que Deus abre livros que representam dimensões essenciais da existência, como mérito, saúde, sustento, perdão e salvação. "É um convite para que cada pessoa reflita sobre suas intenções e escreva um novo capítulo da própria trajetória", disse, destacando que a renovação, no judaísmo, está ligada à consciência, responsabilidade e propósito.
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Um conceito fundamental une todas essas visões: fé. Ricardo Espíndola, pastor responsável pela Igreja Batista Central, comentou que a principal mensagem para a virada do ano é a confiança diante das incertezas que marcam o início de um novo ciclo. Segundo ele, "não sabemos exatamente o que o próximo ano reserva, mas a fé oferece segurança para atravessar desafios pessoais e coletivos". Para o líder religioso, a mensagem de ano-novo não está em previsões, mas na ideia de caminhar com mais estabilidade e propósito ao longo de 2026. De acordo com Espíndola, a igreja tem orientado os fiéis a se prepararem para o novo ano por meio de um período de oração e reflexão, com foco em valores como fé, justiça, paz e responsabilidade. "Estamos buscando plantar sementes certas para o novo ano", disse.
Olhar interno
Para além da fé, a passagem de ano convida as pessoas a um momento de reflexão. No Budismo, segundo o Lama Karma Wangdu (Bruno Vichi), do Centro Budista Tibetano Kagyu Pende Gyamtso (KPG), o encerramento de um ciclo incentiva a meditação consciente sobre a própria conduta. "Existe uma prática diária de revisar as ações virtuosas e não virtuosas do dia", explicou. Segundo ele, esse exercício envolve reconhecer erros, assumir o compromisso de não repeti-los e fortalecer atitudes positivas. No novo ano, essa reflexão pode ser ampliada para todo o período vivido. "É um compromisso de não repetir os erros e de cultivar ainda mais as ações virtuosas, dedicando seus benefícios ao bem-estar do maior número possível de seres", afirmou.
Nesse mesmo sentido de convite à reflexão pessoal, o ministro Gimberlândio Oliveira afirmou que a principal mensagem da Igreja Messiânica para 2026 começa pelo olhar para dentro. Segundo ele, é fundamental que o ser humano compreenda e respeite a "lei do espírito, que precede a matéria". "Respeitar a nossa própria existência e a existência de Deus, na família e na vida, é o caminho para construir o Paraíso Terrestre", disse, ao lembrar que esse é o ideal ensinado por Meishu-Sama, fundador da Igreja Messiânica. Para ele, mesmo em um ano marcado por turbulências e dificuldades, o fortalecimento espiritual permite enfrentar desafios com mais estabilidade. "Quando a pessoa está bem espiritualmente, emocionalmente e materialmente, ela consegue ultrapassar qualquer dificuldade."
Crescimento
Um conceito que também dialoga com a reflexão sobre si mesmo é o da harmonia, centro da orientação para os espíritas em direção a um novo ano. Adilson de Moraes, presidente da Comunhão Espírita de Brasília, explica que a Doutrina Espírita convida as pessoas a se inspirarem nos exemplos de Jesus e a voltarem a atenção para a própria consciência. "A harmonia expressa em nossos atos começa na mente e é construída no recolhimento, na humildade e na disposição sincera de amar mais", disse. O dirigente explicou que a chamada reforma íntima deve ser encarada como um caminho de libertação pessoal. "É uma construção diária que permite ao espírito amadurecer e se pacificar", pontuou.
Entre religiões de matriz africana, a chegada de um novo ano revela a importância de transformar dificuldades em sabedoria. Mãe Elizabeth de Ogum explica que mesmo acontecimentos negativos devem ser encarados como oportunidades de crescimento, e a sociedade não pode perder a esperança em dias melhores. Para o próximo ano, o conselho central é fortalecer a fé, independentemente da religião. "A prosperidade vem quando a gente se apega à fé e acredita no que carrega. Cada um no seu caminho, mas com respeito e esperança", concluiu.
