A trajetória da origamista paraibana revela como uma arte milenar pode ganhar novas camadas de significado no Brasil contemporâneo. Autoditada, Priscila Tieme Okata transformou o papel dobrado em linguagem autoral, capaz de traduzir memórias, afetos e identidade cultural. Seu trabalho, que dialoga com a tradição japonesa e referências brasileiras como Athos Bulcão, conquistou reconhecimento internacional e em Brasília, cidade que adotou e onde mora com o marido e os dois filhos. Em 2024, uma de suas obras foi entregue pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao então primeiro-ministro do Japão, Fumio Kishida. No ano seguinte, veio a Carta de Honra ao Mérito da Embaixada do Japão no Brasil. Nesta entrevista, a artista fala sobre criação, desafios e o poder transformador do origami como expressão artística.
Como o origami entrou na sua vida e em que momento você percebeu que essa prática poderia se tornar uma linguagem artística e profissional?
Minha história com o origami começou por acaso. Eu tinha um restaurante de comida japonesa com meus pais e, entre o turno do almoço e o do jantar, ficava com tempo ocioso. Foi então que tive a ideia de decorar o espaço, no fim do ano, com mil tsurus contendo os nomes e os pedidos dos clientes. Para isso, precisei aprender a fazer o tsuru, já que não sabia nem por onde começar. Pouco tempo depois, meu pai — sócio no negócio — foi diagnosticado com um câncer em estágio avançado. Decidimos vender o restaurante e entramos em um período sabático para cuidar dele. Nesse contexto, o origami passou a ganhar mais espaço na minha vida. Comecei a experimentar outras dobraduras, ainda como hobby. Em 2016, já comercializava algumas peças, de forma bastante tímida, vendendo-as por centavos. O reconhecimento do meu trabalho como arte veio, sobretudo, pelo olhar do cliente, já que eu mesma não me via como artista. Eu apenas escutava as histórias e os desejos das pessoas e tentava representá-los por meio do origami.
Seu trabalho dialoga com tradição e contemporaneidade. Como equilibra o respeito às técnicas clássicas do origami com a criação autoral?
O desafio de fazer uma releitura de Athos Bulcão em origami, por exemplo, não seria tão gratificante se eu não considerasse dois aspectos fundamentais: a técnica e o conceito do origami, e o padrão do artista — suas medidas e o posicionamento das peças. Até mesmo aqueles que o próprio Athos afirmava ter distribuído de forma aleatória. Se foi dessa maneira que o resultado se tornou belo, faço questão de repetir essa aleatoriedade.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
O reconhecimento institucional ajuda a ampliar a visibilidade do origami como arte no Brasil? Que desafios ainda existem para esse campo?
Tenho três momentos que demonstram como meu trabalho, a arte do origami e meu desejo de aprender e ensinar cresceram com o apoio institucional. O primeiro foi quando descobri a necessidade de autorização para o uso da imagem de um artista. Diante disso, enviei um e-mail à Fundação Athos Bulcão, que me acolheu prontamente. A autorização concedida em 2024 representou uma validação importante. O segundo momento foi a aquisição de uma peça pelo Ministério das Relações Exteriores para presentear o então primeiro-ministro do Japão, Fumio Kishida, em 2024. Essa entrega despertou novos olhares sobre o meu trabalho e me posicionou como autora de uma obra institucional. O terceiro foi a condecoração com a Carta de Honra ao Mérito, emitida pela Embaixada do Japão no Brasil, em reconhecimento à promoção da cultura e do intercâmbio cultural entre Brasil e Japão. Quanto ao futuro, sei que ainda tenho muitos desafios pela frente. Talvez o maior medo de um artista seja ter seu trabalho esquecido e deixar de garantir o próprio sustento. Ainda assim, procuro olhar para o que já foi feito e para as vidas que meu trabalho tocou ao longo do caminho.
Que papel o origami pode desempenhar hoje, para além da estética — como ferramenta educativa, cultural ou até terapêutica?
O origami é uma excelente ferramenta educativa. A prática ajuda a desenvolver a coordenação motora fina, estimula a concentração, ativa a memória, trabalha a paciência e incentiva a criatividade e a imaginação em qualquer idade. Além disso, é uma atividade relaxante, na qual o esforço resulta em satisfação pessoal. E, acima de tudo, é arte.
Depois desse reconhecimento — como a entrega do seu trabalho pelo presidente Lula ao primeiro-ministro japonês — quais são os próximos projetos ou sonhos que você gostaria de realizar?
Peço a Deus saúde e longevidade, porque são muitos os sonhos e projetos. Um deles é retornar ao Japão para conhecê-lo com o olhar de origamista, já que, quando tive a oportunidade de visitar o país, ainda desconhecia a arte do origami. Outro projeto é “origamar” as texturas do Brasil, começando pela minha Paraíba. Sinto-me motivada a “dobrar” o Brasil e aprofundar ainda mais o diálogo entre as duas culturas. Para 2026, planejo desenvolver projetos com nanos tsurus de meio centímetro. Estou focada na criação de uma coleção de peças a partir dessa técnica.
Ao olhar para sua trajetória, o que essa homenagem simboliza em termos pessoais e profissionais?
Receber a Carta de Honra ao Mérito, em 2025, foi como rever um filme de alguém que começou vendendo origamis a centavos e, aos poucos, foi descobrindo e construindo o valor dessa arte tão desafiadora. Senti uma alegria imensa e tenho a convicção de que essa homenagem chegou até mim porque sempre atuei com verdade e dedicação.
Que atividades você exerce hoje?
Sou origamista. Vivo e respiro essa arte. Costumo dizer que só coloco data de entrega para poder chamar de trabalho — risos.
