A analista de diversidade e inclusão, Luísa Fernandes, 26 anos, chegou aos Ensaios da Anitta, no último domingo (18/1), para se divertir. Com música alta, danças e discursos de diversidade, ela festejava ao lado da irmã e da namorada. Mas, na saída do evento, ela foi acusada de roubar um celular. Luísa, que é uma mulher negra e bissexual, foi cercada, agredida e humilhada em público. O episódio, segundo a vítima, escancarou o despreparo da equipe de segurança em um espaço que se apresenta como diverso e seguro.
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As três mulheres saíam da área VIP e caminhavam no fluxo de saída do evento quando foram abordadas por um grupo de cerca de seis homens gays brancos, que a acusaram de ter roubado um celular. A abordagem rapidamente se transformou em agressão. Segundo o relato, os homens puxaram o cabelo de Luísa, deram um tapa na sua mão e jogaram bebida em seu rosto.
Em vídeo publicado nas redes sociais na segunda-feira (19/1), Luísa relatou que a equipe de segurança, em vez de conter os agressores, a imobilizaram, junto com a namorada e a irmã. “Ao invés de conterem os agressores que me acusaram de roubo, eles contiveram a mim, minha namorada e minha irmã como se fôssemos três bichos”, afirmou. “Estamos machucadas, com roxos e a boca cortada. Eu estava sendo acusada na frente de todo mundo de algo que não fiz, e eles foram embora tranquilamente enquanto eu gritava que queria denunciar esse episódio racista”.
De acordo com Luísa, os homens foram liberados sem qualquer identificação, mesmo com a insistência dela para registrar a ocorrência no local. “A segurança deixou eles irem embora na paz, enquanto eu estava passando por aquele constrangimento”, disse. Somente após orientação de uma pessoa que passava pelo local, ela foi informada sobre a existência de uma sala de acolhimento.
No espaço, Luísa foi atendida por duas psicólogas, mas deixou claro que sua prioridade era formalizar uma denúncia. “Eu falei que não queria atendimento psicológico naquele momento, eu queria formalizar uma denúncia contra aquela equipe de segurança extremamente despreparada”, contou. Ela afirma, ainda, que o acolhimento recebido não partiu da produtora responsável pelo evento, mas sim de uma advogada dos Ensaios da Anitta.
A produção dos Ensaios da Anitta em Brasília é feita pela R2, que também responde pela logística e pela contratação da segurança terceirizada. Após a repercussão do caso, a empresa enviou uma mensagem à vítima afirmando que lamentava o ocorrido e que abriria uma apuração interna. “A forma como a situação aconteceu não reflete, em hipótese alguma, o tipo de ambiente que a R2 constrói”, diz um trecho da mensagem enviada à Luísa.
A mensagem, porém, gerou revolta. “Primeiro, eu queria muito entender como a R2 fiscaliza os profissionais de segurança dos eventos. Como você me garante que em futuros eventos eu vou me sentir segura novamente?”, questionou Luísa em resposta. “Eu não vou conseguir acionar a Justiça porque a equipe de segurança liberou os meus agressores, me privando de realizar uma denúncia, mesmo eu sinalizando repetidas vezes que gostaria de fazer”.
Ao Correio, Luísa reforçou a frustração e a sensação de insegurança. “É um evento que eu frequento há bastante tempo e sempre me senti tranquila, principalmente pelas premissas do evento, de respeito, contra assédio, um espaço que declara que não tolera racismo e homofobia. Por isso, essa situação me pegou tão desprevenida”, afirmou.
Segundo ela, a produtora chegou a divulgar uma nota pública afirmando que havia prestado todo o suporte necessário, o que, de acordo com a vítima, não corresponde à realidade. “O que eu precisava naquele evento era de segurança física para me proteger daqueles homens que me agrediram. Essa segurança não me foi dada. A minha integridade física era uma responsabilidade do evento”, disse.
Luísa relata ainda que, ao tentar gravar a situação, foi impedida pelos seguranças. “Disseram: ‘não grava não, ele tá bêbado, deixa ele ir embora’, e simplesmente liberaram eles”, conta. Pouco depois, o celular supostamente roubado foi encontrado com um dos integrantes do grupo acusador. “Na hora em que foi encontrado, eles queriam muito sair dali, estavam se movimentando rapidamente para ir embora”.
Apesar de ter acionado a polícia, Luísa afirma que foi informada de que não haveria muito a ser feito naquele momento, já que os agressores não estavam mais no local. Ainda assim, ela registrou um boletim de ocorrência. “Eu sei que provavelmente não vão localizar os agressores, mas era o mínimo que eu podia fazer, nem que isso vire estatística”.
A analista também destacou o recorte racial e de gênero da violência sofrida. “Eu estava de mãos dadas com uma pessoa branca, a minha namorada, e fui a única abordada. Eu perguntei por que ele achava que tinha sido eu, e ele respondeu ‘não precisa de militância’. Eu queria que ele tivesse coragem de dizer: ‘porque você é preta’”, desabafou. “Pouco se fala sobre o privilégio de homens gays na condição de homens. Eles continuam sendo homens. O machismo não é exclusividade de homens héteros. Homens gays brancos acham que têm passe livre com mulheres”.
Agora, Luísa conta com o apoio de dois advogados para tentar reunir mais provas e responsabilizar os envolvidos, incluindo a produtora do evento. “É muito difícil saber que eles saíram tranquilos enquanto eu estou destruída. Eu achava que estava em um lugar seguro, mas não existe lugar seguro para nós, pessoas pretas”.
“O evento foi ótimo, eu me diverti. O problema foi na saída. O problema foi o despreparo da segurança. E se eu estivesse sozinha? E se estivesse longe de qualquer apoio? Essa é a pergunta que não sai da minha cabeça”, completa.
Alcance
A repercussão do vídeo foi imediata e alcançou autoridades e lideranças políticas. A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, comentou a publicação em apoio à vítima. “Sinto muito, muito, muito! Por isso nossa luta é diária! Conte comigo! Como mulher negra da favela, estou aqui lado a lado! Não temos um dia de paz nesse país!”, escreveu.
A pré-candidata a deputada distrital Keka Bagno (PSOL) também se manifestou. “Mana, sinto muito por isso. Racismo lesbofóbico. Se avaliar que podemos atuar enquanto Comissão de Direitos Humanos, estamos à disposição.”
