CB.DEBATE

'Divergir não é problema; intolerância, ódio e mentira não são aceitáveis', diz ministra

Luciana Santos apresenta dados alarmantes sobre feminicídio e detalha políticas públicas, medidas protetivas e ações para ampliar a presença feminina na ciência e na tecnologia

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, abriu sua fala no CB.Debate: “Pela proteção das mulheres: um compromisso de todos”, nesta terça-feira (27/1), reforçando o papel do jornalismo e do debate público qualificado no enfrentamento à desinformação. “Divergir não é problema. O problema é quando a intolerância, o ódio e a mentira entram como ingredientes dessa luta de ideias. Isso não é aceitável”, destacou.

Transmitido ao vivo pelo YouTube e pelas redes sociais do Correio, o evento reúne representantes do Executivo, Legislativo, Judiciário, academia e sociedade civil para discutir políticas de prevenção, acolhimento e proteção integral das mulheres.

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Ao citar números que ajudam a dimensionar a gravidade da violência de gênero no país, apontou que o Brasil enfrenta um cenário “estarrecedor”: 66% das vítimas de feminicídio são mulheres negras, 3,7 milhões de brasileiras sofrem violência doméstica e, em 71% dos casos, as agressões ocorrem na presença de crianças. “Isso revela a faceta da crueldade de uma cultura machista histórica, que não pode ser naturalizada”, destacou Luciana.

A ministra defendeu que o enfrentamento exige compreensão profunda do fenômeno e políticas públicas à altura do problema. Nesse contexto, destacou avanços recentes na legislação, como o aumento da pena mínima do feminicídio para 20 anos e da máxima para 40 anos, além do fortalecimento das medidas protetivas e da ampliação do monitoramento eletrônico de agressores. “É uma decisão do presidente Lula avançar na política de responsabilização. Precisamos de marcos legais”, disse, ao lembrar experiências anteriores de monitoramento eletrônico como mecanismo de proteção às vítimas.

Luciana Santos também ressaltou a retomada do Ministério das Mulheres, segundo ela, extinto no governo anterior, como sinal de prioridade institucional no combate à violência de gênero. Para ela, a presença feminina nos espaços de decisão ainda é insuficiente, mas registra um marco histórico: “hoje, são 10 mulheres na Esplanada dos Ministérios”. “É a maior quantidade de mulheres da história, revelando as convicções do presidente Lula no enfrentamento à cultura do machismo”, afirmou, citando ainda a escolha de Dilma Rousseff como a primeira mulher presidente da República.

Ciência e tecnologia

Ao transitar para sua área de atuação, a titular da pasta apresentou um panorama da participação feminina na ciência e na tecnologia. As mulheres são maioria nas universidades e respondem por 64% das bolsas de iniciação científica, com forte presença de mulheres negras. No entanto, no topo da carreira acadêmica, o percentual cai para cerca de 35%. Para Luciana, a explicação passa pela sobrecarga da “chamada economia do cuidado”, que recai majoritariamente sobre as mulheres e impacta a progressão profissional.

Como resposta, o ministério adotou medidas concretas. Uma delas foi a flexibilização de prazos para pesquisadoras que se tornam mães, ainda no primeiro ano da atual gestão do CNPq, com o objetivo de promover maior equidade na carreira científica. A ministra também chamou atenção para a baixa presença “feminina nas áreas de STEM , ciências exatas, engenharia e computação”, consideradas estratégicas para o futuro do trabalho. “A ciência da computação hoje é carreira básica para qualquer mercado. […] Precisamos formar meninas nessa área”, defendeu, ao relatar sua própria experiência como uma das poucas mulheres em um curso de engenharia elétrica.

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