
Manuela Sá*
O risco das canetas emagrecedoras sem prescrição médica foi o tema discutido, ontem, no programa CB.Saúde — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília. Às jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte, o presidente da Associação das Farmácias Estéreis e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), William Dib, falou sobre uso e comercialização indevidos desses medicamentos, além de discutir a cannabis, que teve seu cultivo legalizado no Brasil para fins medicinais e de pesquisa. Confira, a seguir, os principais pontos da entrevista.
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O Reino Unido emitiu um alerta sobre os riscos de pancreatite aguda por conta do uso descontrolado das canetas emagrecedoras. Faz sentido esse alerta para quem está no Brasil?
Faz todo o sentido. Nenhum medicamento que é eficaz pode ser usado indiscriminadamente sem orientação médica. A Anvisa, há um tempo, já obrigou a venda desses produtos sob estrita receita médica. Há doentes que não podem receber esse tipo de produto. Tem aqueles com histórias de doenças prévias, doenças pancreáticas. No Reino Unido, esse caso é típico, porque lá ainda podem ser usadas canetas emagrecedoras sem receita médica.
Quais são os riscos do mercado ilegal, que vende produtos falsificados?
Os riscos são enormes, porque, quase sempre, são produtos que fazem mal à saúde. Não é só que não produzem o efeito necessário. Com frequência, produzem efeitos deletérios à saúde. Não devem ser usados nem comprados remédios vendidos nas esquinas ou por transportadores. Esse mercado tem que ser combatido em prol da saúde. Não é só um problema econômico, é um problema de saúde pública.
O senhor pode explicar a diferença entre o remédio comprado em farmácia e aquele pedido pelo médico nas farmácias de manipulação?
Na farmácia comercial, sob receita médica, há dois produtos: o Ozempic, que é a semaglutida, e o Mounjaro, a tirzepatida. A classe médica é obrigada a receitar na dosagem que a indústria farmacêutica produz. Quando o médico opta por uma outra dosagem para o seu cliente, ele avia uma receita para a farmácia de manipulação. Depois, ele recebe o remédio e é responsável pela aplicação ao paciente. A farmácia de manipulação não vende tizerpatida para o cliente. Vende para a clínica, médico ou hospital. Isso garante ao paciente e à saúde pública o acesso necessário ao remédio, que a Anvisa é obrigada a fornecer. Então, as farmácias de manipulação são responsáveis por manipular e fornecer para a classe médica, ou seja, elas têm autorização da Anvisa para fazer isso.
Para o paciente, quais são as garantias de que ele está recebendo a substância correta da farmácia de manipulação?
Se o acesso veio de uma farmácia de manipulação legalizada no país, o paciente pode ficar tranquilo, porque, ao pedir a importação do produto, ela tem de provar a análise dele. Quando o produto entra no porto ou no aeroporto, ele já tem que provar a qualidade junto à Anvisa. Quando ele embala, ele tem de provar de novo. O produto, além de ter análise específica da sua qualidade, tem a rastreabilidade. O que quer dizer que, se acontecer qualquer coisa com qualquer doente, você vai saber quem fez aquela ampola, o dia em que foi feito e qual foi o erro no processo, se houve erro. Então, você consegue rastrear um possível erro.
Esta semana, saiu uma série de normas, pela Anvisa, que fez com que toda a cadeia produtiva do canabidiol possa ser feita no Brasil, desde a plantação até a comercialização. De que forma as farmácias de manipulação podem atuar a partir dessas normas?
Acho que essas normas vão beneficiar um mercado extremamente difícil de ser suprido. Eu fui o relator de colocar cannabis medicinal no Brasil. Então, quero parabenizar a Anvisa, porque ela avançou do modo correto. A grande dificuldade do médico, ao prescrever cannabis, é achar a dose. Não há protocolo e não há possibilidade de se criar isso, porque cada doente, criança ou adulto reage de um jeito à dosagem. Se o caso é muito grave, o médico começa com a dose mais alta e vai baixando até descobrir a medida ideal. Se a doença não é grave, ele vai para a menor dose e vai subindo até a medida ideal. Quando ele acha a dose ideal, ela não existe no mercado, porque só há três apresentações no Brasil. Então, a farmácia de manipulação pode ser a tábua salvadora da classe médica e do paciente, que não vai tomar remédio em excesso nem em menor quantidade. Ele vai tomar a dose correta para ele.
*Estagiária sob supervisão de Tharsila Prates

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