
Palco de mais de 30 blocos de rua durante o carnaval de Brasília, o Setor Carnavalesco Sul chega a mais uma edição de ocupação da região central de Brasília. É nesse clima de folia que o Podcast do Correio recebeu Rafael Reis, coordenador da iniciativa, que veste o abadá da festa e defende a importância dela para a ressignificação do Setor Comercial Sul (SCS) — região que, segundo o entrevistado, é estigmatizada mas "possui muita vida".
O Setor Carnavalesco Sul vai de hoje a terça-feira, das 10h às 22h, e funciona como um grande palco para iniciativas diversas de carnaval. Segundo Rafael, o objetivo é criar um ambiente amplo, em que os foliões possam transitar de forma livre nos dois palcos de apresentação, que ocupam a área do SCS. "Nossa temática este ano é 'Latina demais para ser minimalista'", e a ideia é que a gente promova um encontro das manifestações diversas que temos em nosso país", disse o organizador aos jornalistas Mila Ferreira e José Carlos Vieira.
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O evento será equipado com pontos de hidratação da Caesb, a tenda "Conta Comigo", para acolhimento de vítimas de eventuais assédios, e a tenda "Redução de Danos", uma iniciativa do coletivo Tulipas do Cerrado, que distribuirá água potável e comida para o tratamento daqueles que exagerarem no consumo de álcool. "Para fazer uma festa linda, é preciso que a gente cuide de si e do próximo", defende Rafael.
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De acordo com o entrevistado, o principal objetivo do Setor Carnavalesco Sul é criar uma estrutura instalada durante toda a festividade, para economizar recursos e possibilitar a realização de blocos e festas sem apoio. Apesar da natureza aberta, a iniciativa em si possui o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, e opera como uma rede de segurança para os blocos da região central de Brasília, que em alguns anos são apoiados e em outros não.
Ambiente plural
"O carnaval de Brasília é um caos organizado", define Rafael, que trabalha com a manifestação tanto como organizador quanto como pesquisador. Ele atesta que a diversidade se manifesta em diferentes gêneros musicais — que vão de axé, samba frevo e até rock —, manifestações culturais, como o movimento de fanfarras, e em espaços de liberdade para comunidades vulneráveis.
A população transexual, por exemplo, encontrou refúgio em um novo bloco que estreará no Setor Carnavalesco Sul, chamado Trava no Glitter. Segundo o organizador, a missão é criar um ambiente de diversidade, mas também ressignificar a presença das pessoas trans na festa. "É importante para a cidade entender no carnaval que a transexualidade não é uma fantasia. Não devemos aceitar nenhum tipo de postura intolerante", afirma o entrevistado.
Também trazendo empoderamento por meio da cultura, o bloco Boca de Rango será um momento de manifestação da população em situação de rua. A festa foi arquitetada com representantes das comunidades sem-teto, e dialoga com a vida que reside no SCS, promovendo um momento de liberdade de expressão. "O carnaval aparece como um momento de descanso de um cotidiano de desumanização", diz Rafael.
Junto com o lazer dessas pessoas em situação de rua, o evento surge também como uma oportunidade de empregabilidade, formação e qualificação para o mercado de trabalho. O Laboratório de Design Circular e Reciclagem Criativa, em parceria com a Precious Plastic Brasil, une a geração de renda com a reciclagem do lixo produzido durante o carnaval.
Potência de renovação
Com a perspectiva de gerar mais de mil empregos, o feriado de carnaval aparece como uma oportunidade de girar a economia do SCS, com o funcionamento de bares e restaurantes com programações próprias. Rafael explica que o Setor Comercial, localizado na região central de Brasília, passou por uma desocupação alarmante que chegou a 70% na época da pandemia, e agora trabalha para que "voltem a acreditar no espaço".
O entrevistado também atua no âmbito do projeto No Setor, que almeja a revitalização da região pela promoção de ações culturais e de economia criativa, superando os preconceitos da população em relação ao local. "Porque não podemos apostar no SCS? Por que o centro de São Paulo, ou a Lapa no Rio de Janeiro, por exemplo, têm os mesmo desafios do setor, mas ainda abrigam uma vida noturna movimentada", diz Rafael.
Quanto aos problemas de insegurança enfrentados no setor, o especialista defende que podem ser atrelados aos estigmas enfrentados."Uma vez um coronel da PM me disse algo interessante, que os índices de violência do SCS não se diferem das outras quadras do Plano Piloto. Então, a sensação de insegurança vêm muito mais da dinâmica do preconceito, pela alta concentração de pessoas em vulnerabilidade", defende.
*Estagiário sob a supervisão de José Carlos Vieira

Revista do Correio
Mariana Morais
Política