
O infectologista Henrique Lacerda, do Hospital Brasília, da Rede Américas, foi o entrevistado desta quinta-feira (26/2) no CB.Saúde — parceria entre o Correio e a TV Brasília — e disse que os 88 casos de mpox registrados no Brasil em 2026, segundo o Ministério da Saúde, não configuram epidemia, mas exigem vigilância. Durante a entrevista aos jornalistas Sibele Negromonte e Ronayre Nunes, ele explicou formas de transmissão, sintomas, possíveis sequelas, vacinação disponível no SUS, medidas de prevenção e também alertou para os riscos de outra doença, o sarampo, que é altamente contagioso e pode voltar a avançar diante da baixa cobertura vacinal. Confira os principais trechos da conversa:
Foram registrados 88 casos de mpox no Brasil, em 2026, e um caso confirmado em Brasília. Podemos entender como um sinal de alerta? O que sabemos dessa doença?
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A mpox é causada por um vírus identificado pela primeira vez na década de 1970, na República Democrática do Congo, inicialmente associada à transmissão de animais para humanos, caracterizando-se como uma zoonose. Com o tempo, o vírus sofreu modificações genéticas e passou a permitir a transmissão de pessoa para pessoa. No entanto, não se trata de uma doença com alta transmissibilidade, como ocorreu com a covid-19 ou o sarampo. É uma doença de vigilância, ou seja, conseguimos identificar precocemente os casos, isolar pacientes e monitorar contactantes. Além disso, apresenta baixa letalidade, o que dificulta classificá-la como uma nova epidemia neste momento.
Apesar dos números, ainda não se trata de um surto. A partir de que momento podemos ter essa preocupação?
Recentemente, a mpox apresentou comportamento semelhante ao de uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST), porque as lesões de pele — principal sintoma da doença — podem facilitar a transmissão em contatos íntimos e prolongados. No entanto, para caracterizar surto ou epidemia, é necessário haver transmissão sustentada na comunidade, o que ainda não está configurado. Apesar do aumento de casos, não há evidência de disseminação contínua e descontrolada.
Ela não é uma IST, certo?
Não. A mpox não é exclusivamente transmitida por contato sexual. A transmissão ocorre pelo contato direto com lesões de pele, secreções, objetos contaminados e contato físico prolongado. Não está relacionada a um grupo específico de pessoas.
Quais são os sintomas da mpox?
Após o contato com o vírus, há um período de incubação que pode chegar a 15 dias, com sintomas surgindo, geralmente, a partir do quinto dia. Inicialmente, a pessoa pode apresentar febre, dores musculares e aumento dos linfonodos. Em seguida, surgem lesões na pele, que costumam começar na cabeça — inclusive, atrás das orelhas — e podem se espalhar para o restante do corpo, inclusive, pés e mãos.
Existem sequelas duradouras?
Em pessoas sem comorbidades, as lesões tendem a cicatrizar naturalmente, embora possam deixar marcas na pele. Caso haja manipulação das feridas, pode ocorrer infecção bacteriana secundária. Já em pacientes imunossuprimidos, as complicações podem ser mais graves, incluindo quadros como encefalite.
Como as pessoas podem se proteger e se tratar?
A principal forma de prevenção é a informação. Como a transmissão ocorre por contato direto e prolongado, é importante evitar contato com lesões suspeitas e não compartilhar objetos pessoais. Pessoas com múltiplos parceiros sexuais devem redobrar a atenção, independentemente de gênero ou orientação sexual. A vacinação está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), mas ainda é direcionada a grupos prioritários, como pessoas imunossuprimidas e profissionais de saúde. Quem é diagnosticado com mpox deve permanecer isolado até o desaparecimento completo das lesões, pois a transmissão pode ocorrer enquanto houver feridas ativas — em alguns casos, por mais de quatro semanas, especialmente em pacientes com baixa imunidade.
- Leia também: Nova variante e aumento de casos no Brasil: veja o que se sabe até agora sobre o vírus mpox
O Brasil registrou 38 casos de sarampo no ano passado. Precisamos nos preocupar?
O sarampo é uma doença extremamente contagiosa, com alto índice de transmissão. Pode causar febre alta, coriza, tosse, fadiga e manchas pelo corpo, além de complicações graves, principalmente em crianças menores de dois anos, idosos e imunossuprimidos. A principal preocupação está na baixa cobertura vacinal, que pode favorecer novos surtos.
Quem já teve sarampo pode contrair novamente? E quem não sabe se foi vacinado?
Quem já teve sarampo desenvolve imunidade duradoura e não volta a contrair a doença. Em caso de dúvida sobre vacinação, especialmente antes de viagens, cirurgias ou transplantes, é fundamental procurar orientação médica — preferencialmente de um infectologista — para avaliação do cartão vacinal, realização de exames sorológicos, se necessário, e atualização das vacinas.
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