Decisivos na rotina de quem precisa de cuidados, os cães de assistência devolvem autonomia e qualidade de vida a pessoas com deficiência ou condições de saúde específicas. Ainda assim, esses animais seguem cercados por desinformação e frequentemente são confundidos apenas como pets. A realidade é que existem diferentes categorias de cães de assistência treinados para atender diversos tipos de necessidades.
Os cães de serviço, por exemplo, auxiliam cadeirantes no dia a dia, como abrir portas, acender luzes ou pegar objetos no chão. Já os cães de alerta-médico são capazes de identificar sinais prévios de crises de epilepsia ou alterações nos níveis de glicose em pessoas com diabetes, possibilitando intervenções antes que a emergência ocorra. No caso das pessoas com transtorno do espectro autista (TEA), esses animais atuam na regulação emocional e ajudam a prevenir crises.
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Segundo a Secretaria da Pessoa com Deficiência, não há dados consolidados sobre a quantidade de cães de assistência e cães-guia em atividade. Também não existe, até o momento, uma lista pública unificada de instituições habilitadas para o treinamento desses animais no DF. Contudo, a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada de 2024 aponta que 6,3% dos moradores do DF têm algum tipo de deficiência.
Apoio
Após mais de um ano de espera, Alice Debatista, de 12 anos, e a mãe, Priscila, 46, conseguiram a Yumi, da raça samoeida, treinada como cão de assistência pelo Centro Universal de Referência em Assistência Animal (Curaa), em Goiás. O projeto não governamental é voltado exclusivamente para cães de assistência. Antes disso, mãe e filha tinham experiência como família socializadora da cadela-guia Filó, o que criou a conexão de Alice com os animais e a percepção do impacto positivo deles no apoio emocional.
Alice é autista e explica que o desejo por um cão de assistência surgiu justamente a partir dessa vivência. "Desde que socializamos a Filó, eu percebi que os animais, principalmente os cães, têm essa capacidade de ajudar pessoas. Então, eu quis juntar o apoio que eu preciso com o que eu mais amo, que são os animais". Segundo ela, a Yumi controla sua ansiedade, especialmente no ambiente escolar.
"Antes, quando eu fazia prova sem ela, eu entrava em crise. Hoje, só de ela estar ao meu lado já muda muito. Ela percebe quando estou estressada e me contém. Ela não é só uma ferramenta, ela é uma forma de expressão, de felicidade. Eu me sinto bem. Ela é meu lar", afirma.
"Às vezes tenho crises em casa, vou para fora e ela vem para o meu lado. Eu a abraço e ela entende que é o momento de me ajudar", completa.
A mãe, produtora de eventos, diz que os avanços são visíveis. "Quando a Alice entra em crise, ela consegue retornar muito mais rápido com a Yumi. Retoma o autocontrole com mais calma, e isso é um grande avanço para que consigamos conversar." Priscila destaca que a família leva a cadela para todos os lugares. "Ela vai ao metrô, cinema, teatro, shopping, sempre com colete e identificação. Temos a carteirinha do projeto e as leis federal e distrital que garantem esse direito", explica. Ainda assim, os obstáculos persistem. "Na escola, tivemos que lutar muito para ela entrar com a Yumi. Faltam conscientização, políticas públicas e quebra de preconceitos."
Tutor da cadela-guia Filó, que passou pelo processo de socialização com Priscila e Alice, Sávio Trindade Lobato, 29, diretor da Associação Brasiliense de Deficientes Visuais, relata que a conquista do animal foi marcada por uma longa espera e uma seleção rigorosa. "Esperei cerca de dois anos: um ano aguardando a abertura do edital do Instituto Federal Goiano (IFG) e mais um ano até, de fato, conseguir a Filó".
Após a adaptação, os impactos na rotina foram imediatos. "Minha vida mudou demais, de forma muito positiva. A Filó é minha companheira para todas as horas", afirma. Ele destaca que, além de facilitar a locomoção, a cadela-guia amplia a independência e a inclusão social. "Com ela, tenho muito mais autonomia e mobilidade, consigo ir a lugares desconhecidos com mais segurança e confiança. As pessoas me recebem diferente: com a bengala, muitas vezes enxergam primeiro o estigma; com a Filó, veem uma cadela dócil, fofa e brincalhona, o que aproxima as pessoas e torna os ambientes mais acolhedores".
Assistente de biblioteconomia, Thiago Vieira, 37, morador de Taguatinga, convive com a retinose pigmentar e relata que a perda significativa da visão, a partir de 2017, foi determinante para buscar um cão-guia. "Eu senti a necessidade de procurar a assistência de um cão-guia porque, em questão de mobilidade, ele oferece um apoio melhor. A bengala funciona, mas não tem a mesma eficácia". Para ele, a conquista só foi possível no ano passado, após anos em listas de espera em diferentes instituições.
Desde então, a presença da cadela-guia transformou sua rotina e autonomia. "A Nina me devolveu muitas coisas. Eu me limitava por questões de segurança, não saía à noite de jeito nenhum. Hoje eu não me preocupo mais", relata. Ele também observa a redução de acidentes e uma mudança na forma como é visto socialmente. "Já cheguei a cair até em um bueiro. Com ela, passei a ter menos incidentes físicos. Além disso, as pessoas têm mais vontade de conversar comigo por causa da Nina. O cão-guia promove o nosso estreitamento social".
Thiago destaca que a dificuldade de acesso ainda é um dos principais entraves. "Atualmente, é bem difícil ter um cão-guia. Um dos motivos é a disponibilidade, já que não temos tantas escolas quanto deveríamos", afirma. Ele conseguiu a labradora Nina, hoje com três anos, também por meio do IFG, em um processo altamente concorrido. "Na época, foram 80 pessoas inscritas e apenas 15 selecionadas. Eu percebo que a Nina me escolheu, temos muito em comum na intensidade e na personalidade. Por exemplo, ela gosta de acordar cedo, o que se encaixa perfeitamente na minha rotina", conta.
A assistente jurídica Deborah Corrêa, 31, convive com diabetes e encontrou no Fred, um spitz alemão, agora, idoso, um herói para salvar a sua vida. Embora nunca tenha passado por treinamento formal, ela o considera um cão de assistência pela capacidade de identificar episódios de hipoglicemia. "Em 2012, eu estava enfrentando problemas de saúde e emocionais, e minha mãe me deu um filhotinho para me alegrar", relembra. Com o tempo, Deborah percebeu que o comportamento do animal ia além do afeto. "Na primeira vez que tive hipoglicemia noturna, ele me lambeu onde eu estava suando. Depois de outros episódios, entendi que ele sentia quando eu estava com hipo. O Fred não foi treinado, mas sempre esteve pronto para me ajudar. Ele já salvou minha vida várias vezes", afirma.
Treinamento
Um dos espaços responsáveis pelo treinamento e pela doação desses animais é o Projeto Cão-Guia do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF). Entre 2002 e 2017, a iniciativa entregou 45 cães-guias. Após um período de interrupção, o projeto foi retomado em agosto do ano passado e, atualmente, acompanha 11 filhotes em fase de formação. A demanda, no entanto, segue alta, pois mais de 250 pessoas aguardam na fila de espera. Todo o processo, desde o início do treinamento até a adaptação do animal com o tutor, pode levar até dois anos. Além dos cães-guias, o projeto atua na formação de cães de assistência.
O percurso inclui etapas como inscrição, testes de mobilidade, período de socialização do filhote com famílias voluntárias, treinamento individual do cão, preparação da dupla — animal e tutor — em um centro especializado, além da fase final de adaptação.
Coordenador do projeto, o major João Gilberto explica que os cães de assistência treinados pelo CBMDF não são destinados a um único indivíduo. "O cão de assistência que treinamos aqui é preparado para atender um grupo, por meio do Projeto Cães nas Escolas, que atua em escolas cívico-militares. Também oferecemos cursos técnicos profissionalizantes para que esses alunos saiam da escola já formados como treinadores".lterações químicas no organismo, como a queda de açúcar no sangue ou sinais que antecedem crises convulsivas, produzem odores que podem ser identificados pelos cães. O subtenente Junior Lima, odorologista do projeto, detalha que o treinamento é personalizado. "Cada cão de assistência tem um propósito específico e é preparado de acordo com a necessidade da pessoa que irá receber o animal. Nos casos de identificação de mal-estar, o treinamento se baseia no reconhecimento de fluidos que o corpo libera antes de uma crise. O treinador utiliza amostras de suor da própria pessoa para que o cão associe aquele odor a uma recompensa", explica.
Estigmatização
Durante a realização de fotos da personagem Alice com a cadela Yumi para o Correio, no Parque Ecológico Olhos D'Água, na Asa Norte, a menina e a mãe, Priscila, foram impedidas de entrar no local sob a justificativa de que o parque não permite a entrada de animais. A tentativa de barrar o acesso ocorreu mesmo com o cão de assistência devidamente identificado com arreio e com a apresentação da carteirinha de identificação de pessoa socializadora.
Diante da situação, Alice teve uma crise de ansiedade, mas ela e a mãe não deixaram o parque. Porém, a autoridade disse que a identificação do cão não era suficiente para liberar a entrada.
A legislação brasileira assegura às pessoas com deficiência o direito de serem acompanhadas por cães de assistência — incluindo cães-guia, de serviço e de alerta — em locais de uso coletivo, transportes públicos e estabelecimentos privados, conforme previsto na Lei Federal nº 13.146/2015 e na Lei Distrital nº 5.676/2016.
A advogada cível Laís Cedraz explicou que o episódio configura uma violação grave de direitos. "Não é apenas um cão, ele é um instrumento de acessibilidade para aquela pessoa. Não se pode restringir a entrada de animais que exercem essa função de auxílio", explica.
Segundo ela, casos envolvendo pessoas autistas e deficiências ocultas tendem a ser ainda mais estigmatizados. "Essas deficiências muitas vezes não são reconhecidas socialmente. A Alice estava com toda a documentação necessária e, por ser considerada uma pessoa com deficiência, tem direito de acessar qualquer espaço, público ou privado, sem limitação. É essencial que gestores e funcionários estejam capacitados para identificar essas situações".
Responsável pela administração do parque, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) informou, em nota ao Correio, que se trata de normas gerais da unidade. Segundo o órgão, é proibida expressamente a entrada de animais domésticos no Parque Ecológico Olhos D'Água. "Essa norma está em vigor e é aplicada de forma uniforme, com o objetivo de proteger a fauna silvestre e garantir a preservação ambiental da unidade de conservação".
O Ibram acrescentou que a restrição à entrada de animais é adotada em diversas unidades de conservação do DF, conforme regulamentos voltados à proteção da biodiversidade e à segurança dos visitantes. No entanto, o órgão informou que está avaliando a possibilidade de exceções à regra, com base na legislação que assegura os direitos das pessoas com deficiência.
Entre os critérios analisados estão a apresentação de laudo médico que comprove a deficiência e a necessidade do cão de apoio, o compromisso do tutor quanto à responsabilidade sobre o comportamento do animal e o cumprimento integral das normas de proteção ambiental da unidade. Por enquanto, a entrada de animais continua proibida.
