CB.Saúde

Casos de doença renal crônica estão em ascensão

Especialista diz que a doença compromete a função dos rins e que uma das causas está ligada ao uso de anabolizantes

O médico nefrologista Elber Rocha, coordenador do programa de transplantes de órgãos do Hospital Santa Lúcia, alerta para o crescimento da doença renal crônica, que compromete a função dos rins, na população brasileira, em todas as faixas etárias. Rocha explicou às jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte, no CB.Saúde — parceria entre o Correio e a TV Brasília — de ontem, que o aumento dos casos está ligado à maior incidência de hipertensão, diabetes, obesidade e uso sem acompanhamento médico de remédios anti-inflamatórios, suplementos e até anabolizantes.

Frequentemente, afirma-se que o Brasil e o mundo enfrentam uma epidemia silenciosa das doenças renais crônicas. Essa avaliação é correta? 

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Perfeito. Observamos hoje um aumento na incidência da doença renal crônica em diversos países, incluindo o Brasil. Essa situação ocorre porque temos o crescimento de fatores de risco na população, como a hipertensão, diabetes e a obesidade, que estão diretamente relacionados a essa condição clínica. Outro aspecto é o envelhecimento populacional. O Brasil atravessa um momento de transição demográfica e está envelhecendo. Atualmente, o número de jovens já é menor do que o de indivíduos na faixa etária adulta e estima-se que, nos próximos 10 anos, cerca de 20% da população terá mais de 60 anos. Esse cenário, portanto, favorece uma maior incidência da doença.

Existe uma estimativa ou uma taxa média do percentual de pessoas afetadas pela doença?

Sim. A estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que cerca de 14% da população, ou seja, um em cada sete adultos, seja portadora de doença renal crônica. É uma taxa considerável e, como você bem pontuou, trata-se de uma condição silenciosa. Portanto, para identificarmos essa condição de forma apropriada, é necessária uma avaliação com exames laboratoriais. O exame mais utilizado é a creatinina, um teste de sangue de baixo custo disponível tanto na rede privada quanto no Sistema Único de Saúde (SUS). Por essas razões que deve-se sempre solicitar ao médico que a função renal seja avaliada. É essencial que esse exame faça parte do check-up.

O senhor mencionou que o envelhecimento populacional é um fator que contribui para o aumento desses casos. Caso uma pessoa esteja envelhecendo, mas não sofra de pressão alta, obesidade ou diabetes, como ela pode evitar a evolução para uma doença renal?

A partir dos 40 anos de idade, ocorre uma perda gradual da capacidade de filtração do sangue pelos rins. Portanto, indivíduos idosos, que são aqueles com mais de 60 anos, devem realizar a avaliação periódica da função renal. Outro aspecto fundamental é evitar a automedicação. Um dos grandes problemas atuais, sobretudo entre os mais jovens, é o uso indiscriminado de anti-inflamatórios ou de outras medicações nefrotóxicas, muitas vezes sem prescrição médica. Tais substâncias podem causar danos severos aos rins, e, por isso, indivíduos acima de 60 anos devem evitar o uso de anti-inflamatórios.

Existem outros hábitos entre o público mais jovem que têm levado ao comprometimento da função renal?

Temos identificado situações envolvendo o uso de substâncias como anabolizantes, esteróides ou suplementos em superdoses sem o acompanhamento apropriado de um especialista. Temos observado no consultório indivíduos mais jovens apresentando esse tipo de condição clínica, que tem levado tanto à disfunção renal quanto à disfunção hepática.

O senhor mencionou a creatinina como o exame que detecta problemas renais. Devido à semelhança dos nomes, gostaria de saber se há uma relação com a creatina, substância muito utilizada hoje. Existe algum perigo no seu uso? 

A creatina é um suplemento amplamente estudado, com diversos benefícios comprovados, desde a performance cognitiva até o condicionamento físico. No entanto, é necessária cautela. Primeiramente, indivíduos que apresentam disfunção renal grave não devem utilizar esse tipo de suplemento. Em segundo lugar, o uso não deve ocorrer sem acompanhamento profissional, prática que observamos com certa frequência. É fundamental respeitar as doses prescritas, seguindo o limite recomendado de 3 a 6 gramas de creatina por dia. Frequentemente, o paciente enfrenta problemas relacionados à dosagem diária excessiva, que não traz ganhos adicionais, apenas riscos.

E as chamadas canetinhas emagrecedoras, apontadas como revolucionárias e com benefícios que vão além da perda de peso. Como a nefrologia avalia esse cenário? 

Esses medicamentos trazem benefícios, desde a perda de peso até a redução do risco cardiovascular e a melhora do desempenho metabólico do paciente. Eles retardam, por exemplo, a evolução da doença hepática relacionada à deposição de gordura no fígado, a esteatose hepática, e traz ganhos para a saúde renal. Os GLP-1 e GIPs, que são essas canetinhas, trazem benefícios de nefroproteção. Contudo, esses indivíduos tendem a apresentar uma maior propensão à desidratação. Isso ocorre porque o paciente naturalmente ingere menos alimentos e, frequentemente, reduz também a ingestão de líquidos por esquecimento. Por isso, para quem faz uso dessas medicações, recomenda-se configurar lembretes ou utilizar aplicativos no celular para garantir a ingestão adequada de água, combatendo a tendência à desidratação causada pelo uso desses fármacos.

*Estagiário sob a supervisão de Márcia Machado

 

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