"Suba e entre no mundo mágico da costura". Esse é o convite, exposto na placa aos pés da escada, feito àqueles que cogitam se aventurar no universo da modelagem e da criação. Quem aceita o chamado se encanta ainda na entrada com a decoração que transporta à Era Vitoriana, pensada nos mínimos detalhes, assim como a proposta da escola, onde os alunos aprendem cada um no próprio tempo. Na escola Vestida de Sonhos, na 713 Norte, as costureiras se tornam, para si e para outras, "fadas madrinhas da vida real", conforme ressalta Priscila Azevedo, 35 anos, idealizadora do projeto.
Quando a reportagem chegou, a empreendedora gravara vídeos para o curso on-line da escola, o Vestida de Sonhos Plus — ou VDS Plus — o primeiro streaming de costura do país. "Quando procuramos um profissional para aprender sobre o assunto, normalmente encontramos especialistas com ateliês de noivas, alfaiataria, moda praia, lingerie etc. O VDS Plus, por outro lado, é desenvolvido com o propósito de garantir que o aluno consiga ter uma formação completa em uma única plataforma. É a Netflix da costura", explica Priscila. Atualmente, há mais de 44 cursos, que ensinam desde colocar a linha na agulha até estratégias de precificação.
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Com oito anos de curso presencial e cinco, on-line, o Vestida de Sonhos se expandiu no espaço físico e nas redes sociais. Priscila, que se autodenomina costureira aventureira, acumula mais de 180 mil seguidores no Instagram, onde compartilha suas criações, muitas delas com referências a roupas do século 19 com uma pitada de modernidade. Vale a criatividade.
O sucesso tem sido tão grande que, nesta semana, a costureira recebe Jum Nakao, estilista e um dos maiores designers do país, em seu ateliê. Eles têm gravado conteúdos para ambas as plataformas e vão oferecer, a partir da próxima sexta-feira, um workshop juntos. "É um sonho poder aprender com ele. Esperei 16 anos por isso", conta, recordando o período em que ganhou sua primeira máquina e começou a costurar, em 2009.
Mas nem tudo é magia. A costura, assim como todo ofício, exige dedicação e aperfeiçoamento. E não faltaram desafios durante a trajetória. "Eu comecei depois de ganhar uma máquina muito simples da minha mãe. Estragava com facilidade, as peças quebravam e, às vezes, sequer tinha tecido para costurar. É impossível não desanimar. Mas penso que, quando falamos de sonho, tratamos de algo que não se pode abrir mão. Essa faísca me fez continuar", relata.
"Savoir-faire"
De origem humilde, Priscila não ganhou a primeira máquina por acaso. "Minha mãe me criou sozinha, com o salário de doméstica e muito suor. Eu me lembro de vê-la sendo humilhada nas casas onde trabalhava. Então, para ela, era uma desonra que eu andasse com roupas descosturadas. Ela não queria passar a imagem de que não tinha dinheiro para sua filha andar bem vestida", conta. A jovem tentou seguir outro caminho, iniciou um curso de Relações Internacionais e até cogitou tentar concurso público, mas a paixão pela costura a arrematou.
"Escutei que passaria fome, e minha mãe pediu 'pelo amor de Deus' que eu escolhesse outra profissão, pois temia que eu passasse pelas mesmas dificuldades, em vista da semelhança entre os nossos trabalhos (doméstica e costureira, ambas subvalorizadas). Mas, ao mesmo tempo, quando comecei a costurar, idealizei roupas perfeitamente bem-feitas e passei a acompanhar profissionais da alta-costura tidas como divindades dentro de seus ateliês. Elas têm o que costumam chamar de 'savoir-faire', 'saber fazer' em português. São tão boas que, mesmo diante de um desenho terrível, vão criar obras de arte. Eu queria ser assim", detalhou.
Priscila passou a dedicar, em média, 16 horas por dia à costura. Queria ser a melhor. O primeiro ateliê, muito simples, sequer tinha reboco, diferentemente do de hoje, cuja decoração é feita por suas próprias mãos. Ao seu lado, está Augusto Azevedo, 32, companheiro de vida e de negócios. Durante a entrevista, era o sócio quem tomava conta das demandas mais burocráticas e da edição dos vídeos. "A mão dele está em tudo. Além de ser muito talentoso, é meu maior incentivador", revela.
Orgulho de ser costureira
O sucesso do projeto permitiu que Priscila revisitasse suas próprias dores para criar o VDS Plus. "Penso muito na Priscila de 2009, para quem era impossível pagar mil reais em um curso quando o salário mínimo era metade disso", recorda, emocionada. A ideia de oferecer o conteúdo por um valor acessível (R$ 69,90) visa garantir que o 'savoir-faire' não seja restrito. "Recebi uma mensagem de uma aluna chorando porque, por meio da plataforma, ela finalmente teria acesso ao conteúdo do Jum Nakao, algo que seria financeiramente impossível em um workshop presencial. Isso me realiza profundamente", afirma.
A democratização do ofício encontra eco em histórias como a de Carla Velloso, 77, que costurava um vestido antes de conversar com a reportagem. Psicanalista, ela buscou a escola física na 713 Norte atrás de um "relaxamento criativo" e acabou apaixonando-se pelo ambiente. "Como psicanalista, valorizo muito a criação. A costura nos tira da neurose do dia a dia e nos transporta para um mundo de fantasia", explica Carla, que produz cerca de uma peça por mês, desde saias de Natal a vestidos de aniversário.
Para a aluna, o prazer de voar longe através das mãos é o que a faz recomendar o curso para as amigas. "O melhor dia da semana é quando estou aqui", revela. Pava Priscila, ver alunas como Carla orgulhosas de dizer "fui eu que fiz" é a prova de que a escola cumpre o seu papel, alinhavando, também, a autoestima. O objetivo, agora, é expandir a VDS Plus, transformando-a em uma faculdade de engenharia de roupas. "Afinal, além de fadas, as costureiras são as engenheiras das roupas, enquanto as modelistas são nossas arquitetas", declara.
