Investigação

Advogado detido na 26ª DP responde por cárcere privado e perseguição contra jovem

A ocorrência é uma das 14 que Cláudio Martins é investigado. Em depoimento, a vítima denunciou episódios em que o defensor a perseguiu. Defesa diz que "alusões a processos pretéritos é fuga dos fatos"

Advogado mantém registro ativo na OAB/DF -  (crédito: Reprodução)
Advogado mantém registro ativo na OAB/DF - (crédito: Reprodução)

O advogado Cláudio Martins Lourenço, preso após desacatar policiais na porta da 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia Norte), responde na Justiça a processos por violência doméstica. O caso mais recente ocorreu em 2025: ele é investigado por cárcere privado e perseguição contra uma jovem de 21 anos.

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Em maio daquele ano, a vítima procurou a 32ª DP (Samambaia Sul) para prestar queixa contra o defensor. Ela relatou ter conhecido Cláudio em dezembro de 2024. Os dois começaram a conversar e a sair, mas não firmaram compromisso formal. Segundo ela, em 18 de fevereiro de 2025, dia do seu aniversário, o advogado a ligou de maneira insistente, foi ao condomínio sem avisá-la e implorou ao porteiro para que a chamasse.

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O funcionário do prédio negou o pedido do advogado e alertou a jovem sobre o ocorrido. A vítima conta que, duas horas depois do episódio, chegou em casa e foi cercada por Cláudio, que estava em um carro. Com medo, ela correu e entrou no edifício.

Dias depois, relata a mulher, decidiu perdoá-lo, mas Cláudio continuou com as ligações insistentes. Quando bloqueado, ele a telefonava de outros números. A perseguição era acompanhada por ameaça. Ainda de acordo com a jovem, ao negar vê-lo, o advogado dizia que iria expor vídeos e falar do comportamento dela aos colegas do estágio.

Gota d’água

Um dia antes de denunciá-lo à polícia, a jovem relatou outro fato que teria sido a gota d’água. Em 2 de maio, depois de muita insistência de Cláudio para vê-la, ela aceitou. Disse que precisava ir à uma loja de Taguatinga, e o suspeito ofereceu para levá-la.

Na volta, Cláudio exigiu o desbloqueio do celular para saber se ela conversava com outro homem. A jovem negou, disse que iria embora, mas o advogado a manteve presa no carro, informou a vítima, que só conseguiu sair após ligar para o 190.

A vida pregressa de Carlos veio à tona após ele ser detido na segunda-feira (2/3). Segundo os agentes, o delegado plantonista determinou a saída temporária das pessoas da delegacia por questões de segurança, pois havia um preso alterado, desferindo chutes contra objetos no interior da unidade. Por isso, o delegado informou que seria necessário o uso de gás de pimenta para conter o preso, sendo a evacuação uma medida preventiva, informaram os policiais. Narram ainda que o advogado se recusou a sair e desferiu xingamentos aos profissionais.

A PCDF justifica o uso da força proporcional para a contenção do advogado, que demonstrava desobediência e resistência. Ainda de acordo com as testemunhas, Cláudio negou-se a fornecer o nome, dizendo ser uma pessoa em situação de rua.

O que diz a OAB

Em nota oficial, a OAB/DF afirmou que a Ordem atuou na perspectiva da defesa das prerrogativas da advocacia e da apuração de condutas que podem configurar abuso de autoridade por parte de agentes da Polícia Civil, com comunicações às autoridades competentes. “A OAB/DF reafirma que prerrogativas não constituem privilégio pessoal, mas garantias do direito de defesa e do Estado Democrático de Direito, razão pela qual a Ordem se manifesta sempre que houver indícios de violação, independentemente de quem seja o profissional envolvido.”

A OAB também se manifestou sobre as denúncias das quais Cláudio figura como autor. O nome de Cláudio aparece como investigado em 14 inquéritos policiais e nove Termos Circunstanciados. Dois dos procedimentos resultaram em decisões condenatórias. As ocorrências são de 2002 a 2025. Nove são estupros.

O Correio obteve acesso aos detalhes das dinâmicas de alguns dos crimes. A primeira denúncia ocorreu em fevereiro de 2001, quando Cláudio foi denunciado por uma garota de programa por estupro. À época, ele era soldado da PM.

Em 2002, uma mulher relatou que estava em um ponto de ônibus na Vila Planalto, quando o autor parou o carro, apontou uma arma à ela e ordenou que entrasse no veículo. Conforme consta nos autos, o acusado dirigiu para uma área mais afastada, mandou que ela tirasse a roupa e a estuprou.

Defesa de Carlos

A defesa de Carlos, representada pelo advogado Josivan Lima Torres, manifestou-se. Confira a nota na íntegra:

A defesa do advogado Cláudio Martins Lourenço vem a público repudiar, com veemência, a ofensiva orquestrada por agentes públicos da 26ª Delegacia de Polícia de Samambaia com o objetivo de desviar a atenção da sociedade das gravíssimas violências por eles praticadas contra o advogado e seu cliente.
Diante da gravidade das denúncias, agentes públicos envolvidos passaram a articular a exposição pública de informações sobre o histórico pessoal do Dr. Cláudio, com alusões a processos pretéritos e investigações em curso, na tentativa de transformar o advogado agredido em alvo de julgamento moral. Essa manobra não é resposta aos fatos, é fuga deles. A tentativa apenas confirma o desespero de quem não tem resposta legítima para dar diante de provas fotográficas, ocorrências formalizadas e registros documentados de tortura e abuso de autoridade.

A sociedade precisa saber o que efetivamente ocorreu no interior da 26ª DP. O cliente do Dr. Cláudio Martins Lourenço foi violentamente agredido, repetidas vezes, pelos mesmos agentes públicos que, logo depois, voltaram sua violência contra o advogado que ousou denunciá-los. Não se trata de um único ato de brutalidade, mas de uma sequência de agressões graves, documentadas e fotografadas e encaminhadas ao IML, que evidenciam uma conduta sistemática de violência por parte daqueles agentes. Em 3 de março de 2026, a vítima, cuja identidade será preservada por razões de segurança, formalizou ocorrência em delegacia diversa, relatando a violência policial sofrida, com possível tortura, há registros fotográficos das lesões encaminhados à Corregedoria da Polícia Civil do Distrito Federal para apuração rigorosa.

Foi precisamente ao intervir para denunciar essas agressões ao seu cliente que o Dr. Cláudio foi ilegalmente preso, algemado sem fundamento legal, constrangido publicamente e teve seu celular apreendido de forma arbitrária. Os mesmos agentes que torturaram o cliente agrediram o advogado. Essa é a linha direta entre os dois episódios e é exatamente o que se tenta apagar com os ataques à reputação do defensor Repúdio e Exigências.

A defesa do Dr. Cláudio repudia integralmente essa estratégia imoral do Sindicato dos Delegados de Polícia Civil do Distrito Federal e reitera: 1) Apuração célere e rigorosa pela Corregedoria da Polícia Civil ado Distrito Federal de todas as agressões sofridas pelo Dr. Claudio e pelo cliente, incluindo as múltiplas violências documentadas; 2) Afastamento cautelar imediato dos agentes envolvidos nos fatos de 02 de março; Que fique claro: os mesmos agentes que torturaram repetidamente um cidadão preso agrediram o advogado que foi defendê-lo. Isso não é coincidência, é o retrato de uma conduta que a Corregedoria da Polícia Civil do Distrito Federal tem o dever institucional de apurar até o fim.


A defesa agradece o apoio de todos os colegas da advocacia, da sociedade civil e da imprensa, que pela divulgação responsável dos fatos contribuem para que a verdade não seja silenciada.

 

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postado em 05/03/2026 18:50 / atualizado em 05/03/2026 18:51
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