Por Beatriz Mascarenhas — Brasília é a Capital Ibero-Americana de Patrimônio Cultural 2026. O título foi entregue nesta quarta-feira (11/3) na abertura da segunda reunião do Comitê Setorial de Patrimônio Cultural da União de Cidades Capitais Ibero-Americanas (UCCI), no Salão Nobre do Palácio do Buriti. O encontro, que segue até amanhã, coloca em evidência a arquitetura e o planejamento urbano da capital federal, reconhecida mundialmente por seu conjunto modernista idealizado por Lucio Costa e pelas obras de Oscar Niemeyer.
Na cerimônia, o secretário de Relações Internacionais do Distrito Federal, Paco Britto, expressou alegria em receber o encontro e pelo prêmio concedido a Brasília. "Discutir o patrimônio cultural hoje significa discutir também planejamento urbano, sustentabilidade, desenvolvimento, equilíbrio. Estamos falando sobre identidade, memória coletiva, diversidade cultural e pertencimento. Somos uma cidade relativamente jovem, mas que já carrega uma responsabilidade histórica global", destacou o secretário, lembrando que Brasília ostenta o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco desde 1987.
"O patrimônio cultural é memória e identidade, mas também é planejamento, gestão e responsabilidade pública", afirmou a diretora-geral da UCCI, Luciana Binaghi Getar, diretora-geral da UCCI. Ela reforçou que a preservação de um patrimônio como Brasília exige visão estratégica, vontade política e cooperação constante entre os diferentes atores. "Por isso, celebro que estejamos todos aqui", disse.
Durante o encontro, o subsecretário de Patrimônio Cultural da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF), Felipe Ramón, explicou que as ações de preservação do patrimônio na capital seguem duas frentes principais: a restauração física de equipamentos históricos e o fortalecimento da educação patrimonial. Entre as iniciativas recentes, ele citou a reabertura do Teatro Nacional, intervenções no Museu Nacional da República e um convênio firmado com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para a restauração da Praça dos Três Poderes.
Além das obras de recuperação, a pasta também investe em iniciativas voltadas à conscientização da população sobre a importância do patrimônio cultural, como o programa Territórios Culturais, que leva estudantes da rede pública para visitar espaços e sítios tombados. Para ele, a preservação também depende de manter esses espaços em uso e integrados à dinâmica da cidade. "O patrimônio precisa estar vivo. Um equipamento fechado tende a se deteriorar mais rapidamente. Quando está em funcionamento, há mais condições de manutenção, revitalização e cuidado", destacou.
O reconhecimento da capital como patrimônio no cenário internacional também contribuiu para atrair visitantes, na avaliação do secretário de Turismo, Cristiano Araújo. "Esse reconhecimento é extremamente importante, porque amplia a visibilidade do destino, fortalece nossa identidade e estimula visitantes do Brasil e do exterior a conhecer de perto um patrimônio único, que une arquitetura, cultura e diversidade em um só lugar", afirmou.
O governador Ibaneis Rocha, ao lado de Paco Britto, também recebeu o título das mãos da diretora-geral da UCCI.
Qualidade de vida
A preservação desse conjunto urbanístico é fundamental não apenas como memória histórica, mas também como estratégia para manter a qualidade de vida da população. Para a arquiteta e urbanista Ana Clara Giannecchini, professora do Departamento de Projeto, Expressão e Representação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, uma das características mais marcantes do projeto de Brasília é o equilíbrio entre áreas construídas e espaços livres. "A presença de áreas verdes, espaços permeáveis e paisagismo é um diferencial importante da cidade", afirma.
Ao Correio, a especialista também ressaltou que a arquitetura modernista dos blocos residenciais foi pensada para se adaptar ao clima do Planalto Central. Muitos edifícios foram projetados com ventilação cruzada, janelas amplas e boa entrada de luz natural, o que favorece o conforto térmico e luminoso e reduz a necessidade de ar-condicionado ou de uso excessivo de energia elétrica. "Os pilotis também criam áreas cobertas de uso público ou semipúblico, que estimulam o encontro e fortalecem as relações de vizinhança", observou. Outro elemento importante é a própria disposição dos edifícios nas quadras, que evita que um prédio faça sombra sobre o outro, garantindo boa iluminação e ventilação para todos os blocos.
Ana Clara reforçou que Brasília representa uma experiência singular de planejamento urbano que buscou conciliar organização espacial, contato com a paisagem e qualidade de vida. "A cidade expressa uma utopia urbana que procurou equilibrar o construído e a paisagem, propondo um modelo em que o adensamento construtivo fosse compatível com o bem-estar da população", assinalou. Ao mesmo tempo, ela enfatizou que preservar o conjunto urbanístico exige olhar para além do Plano Piloto e considerar os desafios urbanos de todo o Distrito Federal, como mobilidade, habitação e desigualdades socioespaciais — temas que também dialogam com os debates internacionais sobre patrimônio cultural e desenvolvimento urbano.
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