"E aí, meu véi". É assim que Straik costuma iniciar uma conversa nos vídeos de humor no Instagram ou na vida real. Morador de Ceilândia, ele encontrou nas gírias da cidade e do DF uma forma de se popularizar nas redes sociais com conteúdos satíricos, mostrando que, por aqui, fala-se diferente.
"A gente já falava assim na quebradinha", explica sobre a ideia dos vídeos. "Aí, eu lancei sem muita pretensão, tá ligado? Fiz até zoando. Do nada, o bagulho bombou sinistro. Um monte de gente saiu compartilhando, trocando ideia comigo".
Straik, que é músico, alcançou a marca dos 100 mil seguidores no Instagram recentemente. Nos comentários dos vídeos, muitas das gírias utilizadas pelo artista viraram bordões entre os seguidores. Por exemplo, a famosa "curtir a lombra" tornou-se marca registrada e ultrapassou os limites do DF.
"Óbvio que a gente pega ali e dá uma exagerada de forma cômica e tudo mais, para ficar engraçado, mas naturalmente a gente conversa assim entre nós, tá ligado?", afirma.
Para o artista, o jeito de falar cria uma conexão entre os moradores. "Independentemente de qual quebrada a pessoa for, ela vai entender o que eu estou falando ali", aponta. "Quando um vídeo meu chega em um pessoal das áreas mais nobres, sofro um pouco de 'hate'. O pessoal não entende muito bem, tá ligado? Agora, o pessoal da quebrada mesmo, todo mundo abraça. É tipo uma grande comunidade."
Mistura linguística
Professores do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas da Universidade de Brasília (UnB) apontam que a construção da capital federal, no fim dos anos 1950 e 1960, gerou fenômenos específicos na fala dos brasilienses que se refletem nos vídeos de Straik.
Para se ter uma ideia, a professora Cíntia Pacheco, coordenadora do projeto 'Variação Linguística no Centro-Oeste' (ValCO), aponta que, no ano da inauguração de Brasília (1960), a maioria dos moradores vinham do Nordeste (cerca de 40%), seguidos por pessoas do Sudeste e outros estados do Centro-Oeste, com 31% e 23%, respectivamente.
"Atualmente, Brasília se encontra em processo de definição e de focalização dialetal na terceira geração", explica Cíntia, que considera que a variedade linguística é uma das características do jeito brasiliense de falar. "Fatores sociais colaboram para a variação e mudança linguística, tais como faixa etária, grau de escolaridade, sexo, contextualização sócio-histórica de Brasília, etc".
O professor Marcus Lunguinho explica que, no Distrito Federal, palavras ganham sentidos novos no vocabulário e nas gírias. "No léxico (conjunto de palavras de uma língua), muitas dessas palavras, embora existam em outros lugares do Brasil, aqui elas adquirem mais um significado, como tesourinha, parada, baú, satélite", afirma. "Outras palavras são específicas daqui por conta da realidade da cidade planejada. Algumas são criações recentes como 'motora', 'rodô', 'cachu'".
Certas gírias mudam de sentido dependendo da entonação, segundo o professor. O famoso 'véi', surgido na década de 1990, dependendo da forma como é falado, pode indicar um chamamento, impaciência, repreensão, surpresa, negação e até uma busca de aprovação, representando cumplicidade entre duas ou mais pessoas.
Há também casos de palavras pronunciadas de um jeito único pelos brasilienses. Lunguinho aponta para o surgimento de ditongos em que não havia alongamentos de algumas vogais. "Como na palavra 'arroz', que é pronunciada como 'arroizzz', ou na palavra 'moço', que é pronunciada 'môôsss', citando uma gíria que também aparece frequentemente nas falas de Straik.
Cultura
Por trás de Straik, há um jovem que tem Ceilândia no coração. Guilherme Santos, 25 anos, define a cidade com três palavras "Rap, futebol e gíria". Para ele, a rápida ascensão nas redes sociais representa uma lacuna que precisava ser preenchida. "Quando comecei, muitas pessoas pediram mais vídeos com o dialeto da quebrada, acho que faltava um pouco disso, alguém que mostrasse mais essa cultura de Ceilândia para que as pessoas pudessem se identificar", conta.
A história de Guilherme com a cidade não começou agora. Nascido e criado na região do Setor O — bairro de Ceilândia — ele é categórico quando afirma que "ama de paixão" a cidade. "Eu sempre procuro exaltar a cidade, tanto nas músicas como nos vídeos. Sempre que gravo, procuro gravar na quebradinha, porque é algo muito bom para mostrar para o público", afirma.
A cidade que celebra 55 anos é mais do que casa, é tudo que ele é. "Ceilândia me representa de diversas formas, como na forma da arquitetura, apesar de ser uma parada mais urbana, eu gosto bastante. Aqui sempre tem lugares para dar rolê. É uma cidade maravilhosa que até à noite tem programações, é uma parada muito da hora", diz.
Além do humor e da música, o skate corre pelas veias de Guilherme. Na adolescência, relembra que sempre estava acompanhado da prancha nos locais que frequentava. "Eu andava de skate por toda a quebrada. Um dos lugares que eu mais andava era a Praça dos Eucaliptos", destaca.
Os vídeos, além do público conquistado, também são uma forma de desmistificar os estigmas que Ceilândia carrega. "A nossa cidade é muito calorosa. É uma característica que temos aqui, que não vemos em outras cidades do DF mesmo", aponta. Além de ser moradia, a quebrada compartilha as raízes nordestinas com o influenciador. "Minha família é nordestina, eu vejo que as raízes nordestinas daqui dão esse senso de coletividade entre os moradores. Esse é um dos principais pontos que as pessoas de fora não entendem, só sendo daqui mesmo para saber", acrescenta.
