Reconhecida como um dos maiores polos artísticos do DF, Ceilândia carrega uma mistura entre a cultura nordestina e as expressões urbanas das periferias. Entre o rap, o samba e a literatura de cordel, a arte caminha lado a lado com a resistência.
Descendo as escadas da última estação de metrô de Ceilândia toda quarta-feira à noite, pode-se notar uma roda de jovens com mãos erguidas, atentos ao som da batida e a cada palavra. É ali que acontece a 'Batalha do Terminal de Ceilândia', encontro semanal que reúne MCs, artistas e moradores em torno da cultura do hip-hop.
Criada em 2018, a batalha nasceu com o propósito de oferecer à juventude periférica um espaço de voz e acolhimento. O organizador e maior campeão do evento, Ezequiel Dias, 25 anos, conhecido como Morfeu, explica que o movimento vai além da disputa de rimas. "Surgiu com o intuito de dar voz e liberdade para a juventude periférica. É um espaço de aquilombamento e resistência, que proporciona lazer e cultura num lugar onde muitas vezes só há opções que não são positivas para os jovens. A gente acredita que o caminho da felicidade ainda existe, esse é o nosso lema".
Segundo Morfeu, a importância do projeto avança tanto no campo individual quanto no coletivo. "Muita gente chega ali para se expressar, curar-se de questões psicológicas e até físicas. A batalha traz alegria e comunhão. Falamos sobre feminismo, abolicionismo, história do hip-hop, luta antirracista e antimanicomial".
O impacto da cena cultural atual da região é fruto de nomes históricos do rap. O rapper X, do grupo Câmbio Negro, relembra a força do movimento desde os anos 1980. Em uma das letras, declara: "Sou negão careca da Ceilândia mesmo, e daí?", verso que afirma orgulho pela região.
"O hip-hop é um divisor de águas. Trouxe visibilidade para a nossa quebrada, onde muitos só viam marginalidade. É onde podemos expor nossas mazelas, mas também nossa arte e conhecimento. Estou nisso há mais de 40 anos, desde o break até o rap, e sempre fiz questão de colocar Ceilândia nas minhas letras", conta. Para ele, ver a nova geração engajada é motivo de orgulho. "É muito bom ver os jovens ligados na cultura".
A região também abre espaço para coletivos como o Samba da Guariba, considerado um símbolo da resistência cultural e da identidade da cidade. Criado por um grupo de amigos, em 2016, o evento ocorre mensalmente, sempre no segundo sábado.
O coletivo surgiu para fortalecer o samba de raiz e se tornou um ponto de encontro para músicos e moradores. A origem da iniciativa está ligada a experiências anteriores, como o grupo Filhos da Guariroba, que em 2015 promoveu ações voluntárias na comunidade, incluindo mutirões de limpeza e eventos culturais. A partir dessas vivências e da vontade de fortalecer atividades culturais aos fins de semana, surgiu a ideia de criar uma roda de samba própria.
Mais do que um grupo musical, o Samba da Guariba se define como um movimento de pertencimento. "Temos essa identificação familiar, ancestral, de território, de diversidade, de solidariedade. Ceilândia é o nosso espaço. É a nossa inspiração e o melhor lugar do mundo", destaca Edson Rodrigues, um dos integrantes do coletivo.
Ceilândia ainda preserva espaços tradicionais de cultura. A Casa do Cantador, inaugurada em 1986, é um dos principais pontos da região. Com biblioteca voltada à literatura de cordel e à poesia nordestina, o local homenageia os migrantes que ajudaram a construir Brasília. Funciona de segunda-feira a sábado, de 8h às 18h.
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