Aniversário de Ceilândia

Em Ceilândia, cultura é sinônimo de resistência

Cidade reúne manifestações artísticas de pertencimento que dão voz à juventude periférica e têm repercussão nacional

Reconhecida como um dos maiores polos artísticos do DF, Ceilândia carrega uma mistura entre a cultura nordestina e as expressões urbanas das periferias. Entre o rap, o samba e a literatura de cordel, a arte caminha lado a lado com a resistência.

Descendo as escadas da última estação de metrô de Ceilândia toda quarta-feira à noite, pode-se notar uma roda de jovens com mãos erguidas, atentos ao som da batida e a cada palavra. É ali que acontece a 'Batalha do Terminal de Ceilândia', encontro semanal que reúne MCs, artistas e moradores em torno da cultura do hip-hop.

Criada em 2018, a batalha nasceu com o propósito de oferecer à juventude periférica um espaço de voz e acolhimento. O organizador e maior campeão do evento, Ezequiel Dias, 25 anos, conhecido como Morfeu, explica que o movimento vai além da disputa de rimas. "Surgiu com o intuito de dar voz e liberdade para a juventude periférica. É um espaço de aquilombamento e resistência, que proporciona lazer e cultura num lugar onde muitas vezes só há opções que não são positivas para os jovens. A gente acredita que o caminho da felicidade ainda existe, esse é o nosso lema".

Segundo Morfeu, a importância do projeto avança tanto no campo individual quanto no coletivo. "Muita gente chega ali para se expressar, curar-se de questões psicológicas e até físicas. A batalha traz alegria e comunhão. Falamos sobre feminismo, abolicionismo, história do hip-hop, luta antirracista e antimanicomial".

A artista Cellyne Gonçalves, 23, conhecida como Estelar MC e também como Rainha da Rima, construiu sua trajetória na cena do hip-hop quebrando as barreiras de gênero. Com mais de 300 títulos acumulados em batalhas de rima, ela conta que cada disputa fez parte do seu crescimento pessoal e artístico. “Quem batalha sabe que não é fácil. Cada batalha que participei foi uma oportunidade de evoluir. Mas, mais importante que o número de títulos é representar as mulheres”.

Para Estelar MC, o movimento é um espaço para expressar vivências, sonhos e dificuldades. “O hip-hop na Ceilândia é muito mais que música, é movimento social e cultural. Para muitos, foi a primeira oportunidade de ter voz. Ser mulher no hip-hop ainda é um desafio, porque historicamente foi um espaço muito dominado por homens. Na maioria das vezes a gente precisa provar o dobro da nossa capacidade para ser respeitada”, relata.

O impacto da cena cultural atual da região é fruto de nomes históricos do rap. O rapper X, do grupo Câmbio Negro, relembra a força do movimento desde os anos 1980. Em uma das letras, declara: "Sou negão careca da Ceilândia mesmo, e daí?", verso que afirma orgulho pela região.

"O hip-hop é um divisor de águas. Trouxe visibilidade para a nossa quebrada, onde muitos só viam marginalidade. É onde podemos expor nossas mazelas, mas também nossa arte e conhecimento. Estou nisso há mais de 40 anos, desde o break até o rap, e sempre fiz questão de colocar Ceilândia nas minhas letras", conta. Para ele, ver a nova geração engajada é motivo de orgulho. "É muito bom ver os jovens ligados na cultura".

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A região também abre espaço para coletivos como o Samba da Guariba, considerado um símbolo da resistência cultural e da identidade da cidade. Criado por um grupo de amigos, em 2016, o evento ocorre mensalmente, sempre no segundo sábado.

O coletivo surgiu para fortalecer o samba de raiz e se tornou um ponto de encontro para músicos e moradores. A origem da iniciativa está ligada a experiências anteriores, como o grupo Filhos da Guariroba, que em 2015 promoveu ações voluntárias na comunidade, incluindo mutirões de limpeza e eventos culturais. A partir dessas vivências e da vontade de fortalecer atividades culturais aos fins de semana, surgiu a ideia de criar uma roda de samba própria.

Mais do que um grupo musical, o Samba da Guariba se define como um movimento de pertencimento. "Temos essa identificação familiar, ancestral, de território, de diversidade, de solidariedade. Ceilândia é o nosso espaço. É a nossa inspiração e o melhor lugar do mundo", destaca Edson Rodrigues, um dos integrantes do coletivo.

Ceilândia ainda preserva espaços tradicionais de cultura. A Casa do Cantador, inaugurada em 1986, é um dos principais pontos da região. Com biblioteca voltada à literatura de cordel e à poesia nordestina, o local homenageia os migrantes que ajudaram a construir Brasília. Funciona de segunda-feira a sábado, de 8h às 18h.


 

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