Quem se abrigava no auditório da Escola de Música de Brasília (EMB), em uma tarde cinza de sexta-feira, mal escutava a chuvarada que caía do lado de fora. Isso porque, no palco, sons, luzes, temperatura e movimentos harmonizavam-se para formar a melodia perfeita, motivo de concentração de mestres e aprendizes — com idades variando entre 10 e 16 anos.
Para os pequenos instrumentistas, a aliança com a música soa como um superpoder; é passível de promover transformações. "Quando eu passo por alguma situação de estresse, tento lembrar das notas musicais que tenho aprendido. Isso me emociona e me traz calma", diz Luiza Macedo, 12, momentos antes de a aula de violino começar.
Apesar da pouca idade, o interesse da menina pela música apareceu cedo. "Meu pai participava de uma banda da igreja e me incentivou a cantar desde pequena. Mas a maior inspiração veio quando conheci a história de (Ludwig van) Beethoven. Mesmo surdo, ele continuou tocando. Foi insistente. E virou um ídolo para mim, sabe?", conta, empolgada. Seguindo os passos do mestre, Luiza se dedica ao piano e, há dois anos, ao seu violino marrom.
Além dela, mais 39 alunos aprendem a tocar o instrumento de corda com o professor Marcos Reis às sextas. O músico e especialista em tecnologias da educação defende que a musicalização infantil desenvolve habilidades para além da leitura de partituras.
"Autonomia, paciência, resiliência e concentração são alguns exemplos. Mesmo que o estudante não tenha aspirações de profissionalização, ele carrega um diferencial por toda a vida", descreve. O próprio docente começou a aprender aos 10 anos. "Hoje, sei que quanto mais cedo se começa, como com 3 ou 4 anos, mais eficiente é o desempenho", acrescenta.
Habilidades
O argumento de Marcos é simples. "Quando se é mais novo, tudo ocorre de forma mais tranquila e fluida. A construção lógica e a formação de uma consciência corporal ajudam na constituição de outras habilidades. Além disso, a bagagem prática é alcançada mais cedo", explica o professor de prática de conjunto e de viola clássica da EMB. A espectadora Priscila Monteiro, 41, concorda. Mãe da pequena Camila — também aluna de violino —, ela avalia que os benefícios deste aprendizado se expandem para outras áreas do desenvolvimento da filha.
"Sempre que Camila está com alguma dificuldade em uma disciplina da escola, eu falo assim: 'Lembra como foi difícil aprender aquela nota no violino? Mesmo assim, você tentou e conseguiu. Com a matemática não vai ser diferente. Vamos vencer também'", exemplifica a moradora do Cruzeiro.
De fato, o aprendizado da música tem a capacidade única de ativar diferentes regiões do cérebro simultaneamente, fortalecendo habilidades como atenção, concentração, capacidade de fazer multitarefas e potencial de planejamento estratégico a longo prazo, segundo artigos da Academia Brasileira de Neurologia.
Camila Monteiro, 10, começou a aprender violino aos 8 anos, assim que abriu a seleção para musicalização infantil na EMB. "Minha mãe me mostrou o som de cada instrumento. Tinha oboé, violoncelo... Mas o que eu mais gostei foi o violino. Às vezes, é difícil conseguir botar os dedos no lugar e na corda certa. Quando o som sai desafinado, bate uma tristeza", desabafa, tímida.
Perguntada sobre o tipo de música de que mais gosta, ela é breve: "Clássica e gospel. De vez em quando, K-pop também". Para o futuro, Camila deseja permanecer no mundo das artes. Quer ser professora de teatro.
Amadurecimento
Para garantir que o talento floresça, a EMB aposta em uma estrutura de ciclos que acompanha o amadurecimento dos jovens. Segundo Davson de Souza, diretor da instituição desde 2020, o aprendizado a partir dos 8 anos une o lúdico à técnica intencional (uso planejado e consciente de habilidades técnicas, recursos sonoros ou escolhas interpretativas).
"As seleções ocorrem semestralmente via edital e são 100% gratuitas. Para os mais novos, o ingresso é por sorteio, pois acreditamos que basta querer estudar. Mas, devido à alta procura e ao nível dos candidatos, abrimos também um ciclo com teste de seleção para quem já possui iniciação musical", detalha.
O diretor observa que muitos alunos permanecem na instituição até o fim do ensino médio, saindo preparados para a educação superior ou já atuando profissionalmente. Esse é o desejo de Miguel Costa, 15, que encontrou no oboé sua forma de protagonismo. Morador do Gama, o adolescente iniciou a jornada na flauta doce aos 10 anos, passou pelo clarinete, mas foi fisgado pelo som do oboé durante um concerto da Orquestra Sinfônica no Teatro Nacional.
"Vi o instrumento solando no Lago dos Cisnes e soube que precisava aprender", recorda. Hoje, após dois anos na EMB, ele descreve a sensação de tocar como uma mistura de responsabilidade e euforia. "Dá uma satisfação enorme quando aquela nota difícil sai automaticamente depois de muita insistência. Meu sonho é progredir para o curso técnico e, se Deus quiser, tocar em uma grande orquestra", projeta o jovem, que também exercita o talento nos projetos musicais de sua igreja.
Tradição
O fomento à cultura local também encontra morada na Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, onde a musicalização infantil é porta de entrada para a preservação do patrimônio brasileiro. Henrique Neto, diretor da instituição, destaca que o ensino vai além da parte técnica, promovendo desinibição e um senso de pertencimento cultural.
"Temos um planejamento rigoroso, que começa com a iniciação com 1 ano e evolui para o curso instrumental aos 8. É uma iniciativa que transformou o cenário musical de Brasília, formando músicos que hoje levam nossa tradição para o mundo", celebra. Embora as vagas de bolsas sejam limitadas, a procura pelo site e redes sociais da escola é constante.
É nesse ambiente de tradição que Heitor de Alencar, 16, descobriu o bandolim. O estudante já tocava violão quando o algoritmo de um aplicativo de música lhe apresentou Vibrações, de Jacob do Bandolim. "Achei aquilo incrível e comecei a tirar as músicas no violão, até que decidi entrar na Escola de Choro em 2025", relembra.
Para ele, o instrumento tornou-se uma extensão do próprio pensamento. "Conseguir traduzir o que a mente pensa em forma de som engrandece o espírito. A parte mais difícil é a constância, mas quando a música fica complicada, é sinal de que estou evoluindo", reflete.
A paixão pela música, porém, nem sempre mira os grandes holofotes. Rafael Reis, 11, encara o violino com uma naturalidade quase silenciosa. Após ter o primeiro contato com o instrumento na antiga escola, ele ingressou no Clube do Choro em 2024 para dar continuidade aos estudos.
"Gosto muito de tocar, mas prefiro que não tenha ninguém vendo. Quando erro uma parte muitas vezes, fico bravo e tento repetir até acertar", conta o menino. Para ele, a música é um exercício de persistência pessoal, longe da pressão dos palcos.
Essa dedicação é acompanhada de perto pela mãe, a professora Karla Morais, 46. Entre as memórias mais emocionantes, ela guarda o vídeo de Rafael concentrado em Wonderwall, do Oasis, e a surpresa que o menino fez aos 9 anos ao tocar Believer, do Imagine Dragons, na despedida dele da escola anterior, onde surgiu o interesse pela música. "Tocou sozinho, e foi muito emocionante para nós. É o reflexo de como a música, de um jeito ou de outro, faz parte de quem ele é."
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