CB.Saúde

Médico defende o uso da inteligência artificial no exercício da profissão

Doutor em Saúde Pública, Tazio Vanni diz que a ferramenta pode ser utilizada em apoio a inúmeras funções da medicina e defende a lei recém-criada que permite a venda de medicamentos em supermercados

Com a nova lei que regulamenta a venda de medicamentos em supermercados, o tratamento de enfermidades se torna mais acessível e prático para a população. De acordo com o doutor em saúde pública Tazio Vanni, a legislação segue uma tendência global de diversificação dos serviços de saúde e, atualmente, já existem farmácias que operam dentro de outros estabelecimentos. "Hoje, o supermercado está se tornando farmácia e vice-versa. Acho que a decisão chegou em uma boa hora", defendeu o médico infectologista do Hospital de Base no CB.Saúde — parceria entre o Correio e a TV Brasília — de ontem.

O texto aprovado determina a venda dos medicamentos em um espaço físico delimitado dentro do supermercado, além de estrutura adequada para armazenamento, controle de temperatura e a presença de um farmacêutico habilitado. "A imagem de uma gôndola com paracetamol ao lado das bananas assusta a população, mas essa lei dá o arcabouço para que isso não aconteça", disse Vanni às jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte. 

De acordo com o infectologista, a mudança não deve levar à automedicação de pacientes, já que a venda será controlada pelo farmacêutico habilitado. O profissional também será responsável por evitar problemas relacionados à polifarmácia — quando vários medicamentos são utilizados simultaneamente, com o objetivo de controlar mais de uma comorbidade. De acordo com o médico, os idosos são os mais afetados por complicações causadas pela combinação de medicamentos, mesmo quando os remédios são inofensivos individualmente.

Vanni também comparou a nova legislação com uma outra medida, de 2014, que facilita o acesso à saúde. Ele se refere à Lei nº 13.021, que permite às farmácias ofertarem serviços de vacinação, alvo de discussões à época de sua aprovação. O médico explica que, da mesma forma que foi visto com a vacinação em farmácias, a fiscalização federal deve acompanhar a oferta dos remédios em supermercados, garantindo que os parâmetros estipulados no texto sejam atendidos.

Consequentemente, a presença de farmácias em supermercados também pode contribuir para a expansão da cobertura vacinal, defende o entrevistado. "Imagine uma família que vai ao final de semana fazer as compras do mês. Se eles tiverem acesso à vacina no supermercado, e isso for regulamentado, podemos ver um aumento do acesso", disse Vanni. Adiciona que, no âmbito regulatório, os Conselhos Federais também devem comparecer, garantindo o funcionamento dos serviços. O Conselho Federal de Farmácia (CFF), por exemplo, deve se mobilizar para garantir que os profissionais estejam sendo empregados nos estabelecimentos.

Inteligência artificial

Em relação à modernização dos serviços de saúde, o Conselho Federal de Medicina (CFM) vem atuando para garantir a aplicação segura da inteligência artificial (IA), avalia o médico. "Os conselhos precisam se movimentar, porque existe um tremendo potencial, tanto no benefício quanto no malefício". As normas foram definidas na Resolução CFM nº 2.454/2026, que busca padronizar o uso da tecnologia em todo o território nacional.

A resolução define que a IA pode ser utilizada em apoio a inúmeras funções da medicina, desde que não atravesse o limite ético e legal da profissão. Vanni explica que o documento separa as ferramentas em níveis de risco à saúde do paciente. A tecnologia de baixo risco, por exemplo, é aquela que automatiza processos simples, como lembretes de vacinação aos pacientes. "É simples, mas é importante. E, sejamos sinceros, estamos tendo dificuldade para a cobertura vacinal. Por que não usamos IA para chamar essas pessoas?", comenta.

As ferramentas de médio risco são aquelas que informam e auxiliam na tomada de decisão do médico, por exemplo, uma plataforma que define os fatores de risco para determinado câncer. Vanni aponta que esse tipo de IA pode atuar como um substitutivo para plataformas informativas já consolidadas, como o Google, além de livros clássicos de consulta. 

Já o alto risco cabe para IAs que interferem na decisão de um diagnóstico. O médico destaca que esse tipo de tecnologia ainda pode ser utilizada, mas depende de um processo de verificação, que mostre a sua eficácia na identificação de uma enfermidade baseada em evidências científicas. Existem algumas ferramentas de alto risco que já caíram no uso da medicina, como o reconhecimento de imagem de tomografia para identificar o câncer de pulmão, ou até mesmo identificar retinopatia diabética no fundo do olho. "Em zonas remotas, onde não tem oftalmologista e oncologista, isso é muito útil", comenta Vanni.

"Em algumas situações, o olho da ferramenta pode ser melhor do que o profissional para identificar imagens, mas para chegarmos nessa conclusão, precisamos de estudos que comprovem isso", explica o infectologista. De acordo com o entrevistado, o uso incorreto de IAs, e até mesmo a internet, acabam ampliando o problema da automedicação e dá a impressão a certos pacientes de que não é necessário o acompanhamento médico. Ao pular as etapas clínicas do exame físico, uma anamnese orientada, uma hipótese diagnóstica e plano clínico, o paciente têm uma grande chance de ter resultados indesejados.

*Estagiário sob a supervisão de Márcia Machado

 


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